Por Celso Masson (@celsomasson)
Por muitos anos, apenas uma vinícola brasileira teve espaço no imenso portfólio da importadora Mistral. Era a gaúcha Vallontano, do talentoso enólogo Luís Henrique Zanini, que antes de iniciar sua produção no Vale dos Vinhedos, em Bento Gonçalves, havia trabalhado no Domaine de Montille, na Borgonha. Essa exclusividade mudou a partir de uma nova visão estratégica da Mistral. Em vez de apenas incluir em seu portfólio mais um produtor brasileiro para disputar mercado com estrelas da Argentina, do Chile, da França, da Espanha, da Itália e de Portugal, a família Lilla, proprietária da importadora, optou pela cocriação de vinhos a partir de suas preferências e de tendências de consumo.
“Desenvolvemos uma parceria que vai desde o estilo de cada vinho até o desenho do rótulo, todos com um rio simbolizando o terroir onde as uvas são produzidas”, diz o empresário Otávio Lilla, sócio da Mistral. A vinícola escolhida para esse trabalho colaborativo foi a Albuquerque & Davo, fundada por dois visionários da vitivinicultura brasileira. O sobrenome Albuquerque vem do agrônomo e pesquisador Murillo Albuquerque Regina, considerado pai da dupla-poda – a técnica que permite a colheita de inverno e que ampliou substancialmente o mapa do vinho de qualidade no Brasil. O outro sobrenome é de José Afonso Davo, fundador da JadLog e da vinícola Família Davo, além de sócio do Grupo Vitácea Brasil, criado por Murillo Regina em 2003 e que hoje atua em diversos elos da cadeia produtiva do vinho, desde o fornecimento de mudas até a enologia.

“Iniciamos este ano, em conjunto com a Mistral, um projeto para fazer o que entendemos ser um novo marco na história do vinho de inverno”, afirma Pedro Albuquerque, filho de Murillo e uma das cabeças à frente da nova aposta da Mistral. Já são quatro rótulos em comercialização. Dois espumantes (um brut e um nature), ambos de Ribeirão Branco, no sul do estado de São Paulo, onde a colheita é no verão; um Sauvignon Blanc e um Syrah com uvas colhidas no inverno em São Gonçalo do Sapucaí, Minas Gerais. “Agora temos um lançamento, que é o Chardonnay Gran Reserva, com oito meses de barrica de terceiro uso”, diz Pedro, administrador da empresa e sommelier. Ainda sem rótulo, o Chardonnay foi apresentado em primeira-mão na terça-feira, 5, durante a primeira noite do Encontro Mistral 2025, evento que anualmente reúne os produtores que a empresa representa no Brasil.

Entre os destaques, nomes como Vega Sicilia (Espanha), Château de Beaucastel e Miraval (França), Castello di Montepò (Itália), Graham’s (Portugal), Lapostolle (Chile), e as diversas vinícolas da família argentina Catena, parceira de loga data da Mistral. Para Pedro Albuquerque, “é uma honra estar no portfólio de uma empresa tão reconhecida e que tanto faz pelo vinho no Brasil.” Pela breve degustação realizada no encontro, a impressão é de que os rótulos, ainda bastante jovens, primam pela extrema delicadeza, especialmente no caso do Syrah. É um vinho leve, que traz aroma intenso de fruta e taninos muito macios. “Buscamos produtos elegantes e com graduação alcoólica mais baixa, como o consumidor de vinhos tem pedido”, diz o sócio da Albuquerque e Davos. “A gente foi desenhando isso juntos, selecionando com a equipe da Mistral as parcelas dos vinhedos que poderiam entregar o que ela entende ser mais eficaz no mercado hoje.” Para Otávio Lilla, “o cuidado meticuloso nos vinhedos resulta em vinhos originais, cativantes e com ótimo frescor”.
Com o conhecimento de mercado que a Mistral acumula há décadas e que permitiu se autodenominar “a importadora dos melhores vinhos”, é natural que seus primeiros rótulos em colaboração com um produtor brasileiro traduzam o que a empresa entende ser ideal para atender ao gosto de seus clientes, ainda um tanto céticos quando o assunto é vinho brasileiro, anda mais de inverno. Mas é ótimo que ela esteja atenta ao potencial que o Brasil já entrega na taça. Os preços no e-commerce vão de R$ 179 (espumantes) a R$ 199 (Syrah).



