Colunas

A briga dos pontos

POR RENATO MACHADO (*)

Os distribuidores de vinho se sofisticaram. Os lançamentos vêm acompanhados de um folder, com os detalhes sobre produção, uvas, colheita, tempo de guarda, equipamentos da vinícola. A esses dados, indispensáveis ao crítico ou jornalista, o importador – e às vezes o próprio produtor, lá na origem – acrescenta a nota com que o americano Robert Parker classificou o vinho. Essa prática começou nos anos 90. Os profissionais envolvidos com o vinho são assinantes do site desse poderoso ditador de gostos que mora no estado americano de Maryland e é cortejado em diversas regiões do planeta como o supremo árbitro da elegância.

Antigamente, Parker dava notas aos grandes vinhos de Bordeaux e aos que apreciava muito, no Vale do Rhone, duas prestigiosas regiões da França, e na Califórnia, nos Estados Unidos. Hoje, distribui recomendações a milhares de vinhos dos quatro cantos do mundo. Basta que se encaixem no estilo que agrada a seu paladar e a seu nariz de 1 milhão de dólares (valor do seguro feito em 2005). Ele testa por ano 10.000 garrafas, segundo consta no seu site. Por seu abstruso método de pontos, um chileno top de linha, envelhecido em carvalho francês, com mais de 14 graus de álcool, bate em pontos pequenos os Châteaux do Médoc feitos de forma artesanal.

Continua após o anúncio

Com isso, o comércio de vinhos nos Estados Unidos enlouqueceu. Sem pontos, “no sale”. Mas o que me intriga é a escala de Parker. Por que começar da nota 70 e ir até 100? Seria mais fácil ir de zero a 30. Mas já há algum tempo ele só dá notas a partir de 80. São então 20 os pontos a ser ganhos – o que equivale à antiga cotação dos primeiros guias franceses, como o Gault et Millau, de zero a 20. Seria o mesmo que ir de zero a 10 com os meios pontos, escala familiar a todo estudante brasileiro. E, onde estaria a diferença entre um vinho com nota 87 e outro da mesma safra e região com 88 ou 89? Difícil encontrar – sem desconfiar – um degustador que a precise. Fala sério!

E, na prática, essa classificação foi abandonada. No varejo americano só se vendem os vinhos que tiraram acima de 90. Parker diz que não direciona a indústria nem as vendas. E a maioria acredita.

(*) Renato Machado é jornalista da Rede Globo e grande conhecedor de vinhos, especialmente os do Velho Mundo

Mostrar mais

Prazeres da Mesa

Lançada em 2003, a proposta da revista é saciar o apetite de todos os leitores que gostam de cozinhar, viajar e conhecer os segredos dos bons vinhos e de outras bebidas antecipando tendências e mostrando as novidades desse delicioso universo.

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo