Reportagens

A gente não quer só comida

Às voltas com a chegada ao corpo docente da USP e a inauguração de uma cozinha solidária, Adriana Salay fala sobre o alimento como vetor de direitos básicos

Historiadora, pesquisadora da alimentação e da fome e idealizadora do projeto social Quebrada Alimentada – ao lado do chef Rodrigo Oliveira, seu marido –, Adriana Salay recém assumiu o posto de professora de História do Brasil República na Universidade de São Paulo, a USP. “A universidade é um lugar privilegiado para disputar essa esperança coletiva.” Filha de militantes políticos dos movimentos sindicais do ABC Paulista, a ativista vê, agora, mais um projeto de combate à fome tomar forma pelas suas e por muitas outras mãos – de líderes comunitários ao Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, o MTST, e o Instituto Capim Santo, da chef Morena Leite. A Cozinha Solidária Jardim Julieta acaba de ser inaugurada na Ocupação Viva Jardim Julieta, na Zona Norte de São Paulo, com um objetivo que vai além da distribuição de cerca de 500 refeições diárias: “Mostrar que o alimento é promotor de uma série de acessos, como saúde e educação”. E a distribuição de marmitas do Quebrada, com sede no restaurante Mocotó, também continua: “É preciso usar nosso poder de ação, a partir do lugar que ocupamos na sociedade”.

O Quebrada Alimentada faz cinco anos neste mês. O que a Cozinha Solidária representa nesse contexto?

A nova cozinha vem de um incômodo nosso. Quando entregamos as refeições no Mocotó, há uma separação entre a equipe que organiza o projeto e as pessoas que recebem a comida. A Cozinha Solidária vem para fundir os dois grupos, o que é a ideia de comunidade. Quando começamos a obra, uma pessoa me falou que estávamos construindo ali “o coração do território”, onde as pessoas se entendem enquanto unidade. No prédio, há uma área para as pessoas fazerem as refeições, uma área de distribuição, e uma área social, que é a sede da associação, onde serão tomadas as decisões coletivas, acontecerão as festas e os cursos de formação. Nosso desejo é, um dia, também ter uma sala de atendimento individual, em saúde mental e direito. Nesse novo projeto, a ideia é mostrar que o alimento não é apenas um meio de acesso à nutrição, ele é vetor de transformação social.

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Hoje, é possível pensar no comer sem considerar o tema da fome? 

Acho que não. Quando o Fome Zero foi formulado e implementado, em 2003, a discussão era “as pessoas precisam comer”. Hoje é “as pessoas precisam de uma alimentação adequada e saudável”. A discussão foi qualificada, e acho que sou fruto desse momento. Com o projeto, fazemos aquilo que o restaurante pode fazer, que é restaurar e alimentar as pessoas. O restaurante é um lugar privilegiado para pensar não só que as pessoas precisam comer, mas o que elas comem. Também estamos falando de uma catástrofe climática, e isso tem a ver com o que comemos. O debate não é só sobre calorias, mas sobre a alimentação como um todo, da produção da comida ao lixo gerado.

O Ministério do Desenvolvimento Agrário e o Pacto Contra a Fome recém-assinaram um acordo de combate ao desperdício de alimentos nos centros de abastecimento. Qual a relação do tema com a fome?

A pergunta que eu sempre faço é: se o desperdício zerasse, a fome acabaria? Minha resposta é não, porque é uma questão de acesso. A pobreza e a desigualdade social causam a fome. O restaurante tem o seguinte lema: distribuir o que temos e não o que sobra. O que damos para as pessoas é a “comida da família”, que é o que nós também comemos. Simbolicamente tem uma importância muito grande, que é as pessoas entenderem que nós somos iguais e merecemos a mesma dignidade. 

A escritora e cozinheira Neide Rigo fala muito sobre compartilhar o que se realiza no cotidiano. Na academia é normal se distanciar do objeto de estudo, mas você está completamente embrenhada no seu. A universidade está mais flexível?

Como eles me escolheram, acho que sim (risos). Tenho certeza de que não foi só uma questão de competência técnica, mas teve a ver com o que se quer para a universidade hoje. Nós vivemos uma crise de valores, que estão muito mais depositados em uma saída individual do que coletiva. A educação não é mais tão vista como promotora de acesso à melhoria de vida, tanto que tem muitos influenciadores dizendo que fazer faculdade é bobagem. Só que eu sou uma pessoa que saiu da favela, da pobreza, e que deve muito à universidade. A própria curricularização da extensão, que tem sido discutida, tem a ver com essa disputa. Ela diz respeito à universidade não só produzir pesquisa, mas dialogar com a sociedade que não acessa a instituição diretamente, como aluno ou pesquisador. A universidade é um lugar privilegiado para disputar essa esperança. 

O Guia Alimentar para a População Brasileira acaba de completar 10 anos e é referência mundial. No Brasil, são seis mortes/hora pelo consumo de ultraprocessados, termo cunhado pelo grupo do professor Carlos Monteiro, da USP, que criou o material. Quais os desafios do país nesse cenário?

O problema é que o ultraprocessado faz sentido nessa sociedade. Temos cada vez menos tempo para cozinhar, vivemos em ultravelocidade e há um rompimento do ciclo metabólico cada vez maior. Não vai ser simples. Vamos ter de mudar nosso modo de vida, abrir mão dos nossos privilégios, e acho que temos dificuldades quanto a isso. Há ainda a questão da desigualdade, que é central para entender o que cada grupo social consegue acessar, e o campo das decisões políticas. A rotulagem dos alimentos é importante, a taxação dos refrigerantes também, só que estamos em uma briga injusta e desigual contra corporações que fazem lobby e têm uma atuação imensa na sociedade. Como a política também é fruto dessa organização social, teremos de batalhar para chegar a algo minimamente favorável para nós, enquanto humanidade.

O que você espera, na esfera pública, para a alimentação em 2025?

O combate à fome é uma prioridade desde o primeiro mandato do governo Lula, e vemos políticas fundamentais sendo implementadas, como a Política Nacional de Cozinhas Solidárias, mas ainda existem desafios que precisam ser olhados e combatidos. A questão da reforma agrária, por exemplo, ainda é muito tímida. Apesar de o dispositivo legal existir, ela nunca foi implementada no Brasil. Temos a maior concentração de terra do mundo e ela é absolutamente central para entender o país, do período republicano, que é o que eu ensino na USP. Os maiores índices de fome estão no campo, com quem está produzindo nossa comida, justamente por conta das relações de trabalho e da qualidade de vida. A idade média do trabalhador rural é de quase 60 anos e as condições de trabalho são péssimas. A reforma agrária é um meio de produzir melhores alimentos, de forma mais saudável para o planeta, e de fazer com que o trabalhador permaneça no campo com mais qualidade de vida.

Em Quem vai fazer essa comida?, a chef e apresentadora Bela Gil aborda o tema do trabalho doméstico não remunerado. Como a questão de gênero atravessa a insegurança alimentar?

De duas maneiras. A primeira é que, pelo fato de as mulheres ganharem menos, as casas chefiadas por elas têm maior índice de insegurança alimentar. A segunda é que a mulher é socialmente responsável pelos trabalhos de cuidado não remunerado, que é o debate da Bela, e da Rita Lobo também. Há uma hierarquia dentro do ambiente doméstico, inclusive a mulher passa fome porque o parceiro homem é prioridade.

E qual a relação das cozinhas solidárias com esse debate? 

Primeiro, quando você promove um lugar com refeições gratuitas você passa a veicular a comida como um direito, não uma mercadoria. Uma cozinha solidária tem o potencial de desmercantilizar o acesso ao alimento. Segundo, porque, com relação ao trabalho doméstico, esse é um jeito de dizer às mulheres que elas não estão sozinhas. Muitas vezes, moralizamos o discurso da alimentação saudável, dizendo que é preciso comer orgânicos, frutas, legumes e verduras. Mas “quem vai fazer essa comida?”, como pergunta a Bela. Quando temos uma cozinha solidária estamos dizendo a essa mulher que nós vamos fazer essa comida. Nós coletivizamos o trabalho para que ela e a família acessem uma alimentação adequada e saudável. 

O que a luta comum representa na sua relação com o Rodrigo? 

Além da família e dos projetos em comum, partilhamos uma visão de mundo. Um dos elementos da manutenção de uma relação é a admiração pelo outro. No discurso que eu fiz na oficialização da nossa união, eu falei “juntamos a fome com a vontade de comer”. Eu era a fome. Ele, a vontade de comer. Temos qualidades que se complementam, porque sou organizada, metódica, e o Rodrigo é mais otimista, sonhador. Ele me ensina a gentileza de estar no mundo, de compartilhar o pão, que vem muito da família dele, e eu ensino a ele a parte prática, o fazer acontecer. É um encontro muito profícuo para essa relação.  

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Ana Mosquera

Redatora-chefe | @al.mosquera

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