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A nova era do vinho de São Roque

Região avança com foco em pesquisa, incubadora de microvinificação e reposicionamento de marca

Por Celso Masson (@celsomasson)

Se você aprecia bons vinhos e ainda prefere manter distância de São Roque, está na hora de dar uma chance a alguns dos rótulos que a cidade do interior paulista tem produzido. Com certeza terá uma agradável surpresa. Após décadas de decadência de seus vinhedos e da adoção de uma estratégia comercial em que os produtores priorizaram o enoturismo popular, servindo bebidas compradas a granel de vinícolas gaúchas, São Roque vive agora seu melhor momento no que se refere à qualidade do que engarrafa. Mesmo com o vinho de mesa ainda movendo a economia local, não faltam bons exemplos de busca da excelência, em uma verdadeira revolução enológica.

Alguns fatores contribuem para esse fenômeno. A requalificação da mão de obra para o setor vitivinícola na região ganhou impulso com o investimento público no Instituto Federal de São Paulo (IFSP) Campus São Roque, que hoje oferece quatro cursos superiores, entre eles o de Tecnologia em Viticultura e Enologia. Para formar especialistas na área, o IFSP precisou atrair docentes de outras instituições. Entre os professores contratados está a enóloga Marite Carlin Dal'Osto, mestre e doutora que trabalhou por muitos anos na Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), em Calas (MG), ao lado do pesquisador Murillo de Albuquerque Regina. Foi na Epamig que nasceu a base científica para validar a técnica da dupla poda, fundamental para a colheita de uvas no inverno.

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A enóloga Marite Dal’Osto, que lidera uma incubadora de vinhos de alta gama / Foto: divulgação

Cabe aqui uma explicação técnica. A dupla permite trabalhar o vinhedo em condições climáticas ideais, aproveitando o tempo seco, os dias ensolarados e as baixas temperaturas do inverno à noite para garantir maior maturação fenólica e, assim, uvas de alta qualidade. Esse manejo inovador das videiras foi decisivo para aprimorar a matéria-prima obtida em diversas regiões do Brasil, inclusive em São Roque. “A técnica da dupla poda oferece condições climáticas ideais, com dias ensolarados e secos que contrastam com noites de baixas temperaturas, resultando em uvas de alta qualidade. Essa prática singular se traduz em vinhos de notável concentração aromática e equilíbrio”, explica o enólogo Fábio Góes, responsável por parte da evolução dos rótulos da vinícola que leva o sobrenome de sua família – também proprietária do maior complexo enoturístico de São Roque.

Se é inegável a contribuição da dupla poda para a melhoria de qualidade das uvas finas, sobretudo nos estados do Sudeste, não foi só isso que ajudou o vinho de São Roque. As vinícolas da região passaram a investir em novos cultivares, converteram antigos vinhedos de uvas de mesa para híbridas e viníferas, além de adotar processos mais elaborados de vinificação – desde o uso de leveduras selecionadas até o estágio em ovas de concreto, barricas e foudres de carvalho.
O efeito positivo dessa combinação de fatores é facilmente perceptível na taça. Bons exemplos estão no resultado dos esforços de enólogos como Fábio Góes e Marite Dal’Osto, além de outros produtores de perfil disruptivo. É caso de Gustavo Borges, dono da vinícola BellaQuinta, hoje com rótulos presentes em restaurantes premiados como o DOM, de Alex Atala, e no hotel Rosewood, em São Paulo.

Entre as barricas da Aura Astral há até uma de carvalho da Romênia / Foto: divulgação

O trabalho de Marite pode ser conferido nos rótulos da Aura Astral, vinícola boutique que nasceu de um sonho de elaborar espumantes de perfil nobre, inspirados no método tradicional de Champagne. “A nossa ideia era fazer uma champanheria”, disse Marite, referindo-se ao projeto inicial desenvolvido em parceria com produtor Alex Moraes, sócio das tradicionais vinícolas XV de Novembro (onde predominam uvas de mesa) e Quinta Moraes (de gama superior).

Para concretizar essa proposta, os dois criaram primeiro um espumante Nature com 36 meses de autólise, depois um Sur Lie pioneiro na região chamado Pupa — recebido com grande sucesso em uma feira de vinhos no Catarina Outlet — e por fim um pet-nat da uva Isabel. Como nem só de borbulhas se vive, a Aura Astral ampliou sua atuação de duas formas. Além de elaborar vinhos tranquilos em pequena escala, funciona como incubadora, vinificando rótulos sob medida para parceiros. “Sempre respeitando o caráter de cada uva e de cada projeto”, disse Moraes.

O Sur Lie Pupa, recebido com grande sucesso desde a primeira safra / Foto: divulgação

Hoje, cerca de 15 clientes já produzem ali seus próprios vinhos autorais, enquanto a marca da casa amadurece pacientemente rótulos de maior potencial de guarda em uma sala de barricas que possui até um raríssimo exemplar com carvalho da Romênia. Entre os destaques, um Chardonnay de fermentação integral em barricas novas por 20 meses. “Ele foi pensado para ter a estrutura de um tinto e é capaz de surpreender até os que dizem não gostar de vinhos brancos”, acredita Marite.

O ícone da Aura Astral atende pelo nome Achiles Gran Reserva Tannat 2021, amadurecido 12 meses em carvalho francês. Homenagem ao avô de Alex e fundador da Vinícola XV de Novembro na década de 1920, é um vinho que reúne refinamento aromático e potência em boca, com aromas de frutas negras frescas, especiarias, pimenta branca e leve toffee no retrogosto. Chega ao consumidor final por R$ 210. E está vendendo bem, segundo Moraes.

Vinhas dos Bandeirantes

Apesar de toda a evolução em sua vitivinicultura, o vinho de São Roque ainda não conseguiu superar uma barreira: a do preconceito. Isso explica a mais recente decisão da família Góes em expandir seus domínios de modo a não ser refém desse peso. Assim nasceu a Philosophia Terroirs de Expressão, vinícola que celebra o sucesso do rótulo premium Philosophia Cabernet Franc e inaugura uma nova fase até na nomenclatura da região. No lugar de São Roque, surge a indicação Vinhas dos Bandeirantes. O nome se refere a uma das rota nomeadas pelo governo paulista para incrementar o turismo rural e de experiências gastronômicas, algo que pretende ir além do vinho em si.

A nova vinícola foi lançada em um almoço para jornalistas no restaurante Dalva e Dito, em São Paulo, dia 17 de setembro. O portfólio atual é formado por 13 vinhos, divididos nas linhas Lotes de Coleção (com Verdelho, Petit Verdot, Touriga Nacional e Tempranillo); Thésis (Sauvignon Blanc, Cabernet Franc Rosé, Malbec e Syrah), além dos rótulos Philosophia Cabernet Franc, Philosophia Syrah Foudre, Philosophia Reserva de Família, Concreto Cabernet Franc & Syrah, Maestria Chardonnay e Fortificado Gumercindo.

O Philosophia Cabernet Franc já figurou entre os 16 vinhos mais representativos do país e obteve cinco medalhas no Decanter Awards / Foto Ricardo D'Angelo

Segundo Cláudio Góes, atual CEO do grupo criado em 1938, irão complementar a família de produtos vinhos de inverno provenientes de outros terroirs, como Espírito Santo do Pinhal, Brasília, Rio de Janeiro e Bahia. “Philosophia não nasce de um sonho ou de uma moda. Nasce da uva. É ela que nos faz ter mais forças para enfrentar tantas dificuldades que envolvem a produção e a venda de vinhos no Brasil”, afirmou.

Philosophia nasce também com uma seleção de rótulos cuja qualidade já foi comprovada em premiações importantes, incluindo a Avaliação Nacional de Vinhos promovida pela Associações Brasileira de Enologia – que incluiu o Cabernet Franc entre as 16 amostras mais representativas do país já em 2016. De lá parta cá, o vinho conquistou cinco medalhas no Decanter World Wine Awards, maior e mais influente competição de vinhos do mundo. Já o Sauvignon Blanc da linha Thésis foi eleito o melhor do país dessa variedade na Grande Prova de Vinhos do Brasil. No final de outubro, a vinícola Philosophia abrirá as portas para o enoturismo em uma propriedade do Grupo Góes remodelada para evidenciar os atributos de qualidade da marca.

Com novos talentos, ênfase na pesquisa de campo e investimento de grandes players, São Roque começa a escrever um capítulo glorioso na história do vinho brasileiro. Obter o devido reconhecimento é só uma questão de tempo.

 

 

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