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A sedução de ter um vinho seu

Tive o prazer e a sorte de ter sido convidado pelo talentoso e competente enólogo uruguaio Alejandro Cardozo, sócio do premiado Estrelas do Brasil e dono da EBV, Empresa Brasileira de Vinificação, para um fim de semana em Caxias do Sul, para conhecer seu trabalho in loco e comemorar seu aniversário

Por: Didú Russo

Além da minha pessoa foram também os jornalistas Adalberto Piotto e Eduardo Milan e o Jorgito Donadelli, da Sacramentos Vinifer, que tem seus vinhos produzidos pelo Alejandro. Foi um grupo ótimo e o fim de semana foi muito educativo. Imaginem que degustamos nada menos que 137 vinhos! Porém, não foram degustações normais, mas educativas, imersas no mundo do controle dos processos.
O interessante é como os opostos se atraem. Adoro o Alejandro e ele é o oposto do que amo no Mundo do Vinho, o Vigneron, o Artesão do Vinho, aquele cara que se dedica a ter um vinhedo divino, sem nada de produto químico, e que depois apenas espreme sua uva e deixa que as leveduras indígenas façam seu papel natural. Ele não interfere em nada. Sua única decisão é sobre o momento de engarrafar a preciosidade divina que se chama vinho. Esse é o vinho que me emociona.
O Alejandro, ao contrário, é o cara do controle absoluto, a interferência no que for necessário. Ele decide. E para isso tem uma infinidade de recursos exógenos para usar. Um mundo bem distante do Mundo do Vinho de que gosto.
Hoje, ele produz cerca de 300 vinhos distintos para uns 40 clientes em sua “encubadora” EBV. Seu principal problema é saber do cliente que vinho ele pretende ter. Quase nenhum sabe direito. Ter um vinho para chamar de seu parece ser um objeto de grande desejo para muitos empresários.
Nessa espécie de seminário de que participei, fiquei sabendo de coisas incríveis. Por exemplo, você sabia que hoje se pode corrigir taninos em um vinho com algumas gotas? Pois é. Pode. Você sabia que só em Sauvignon Blanc existem mais de 30 leveduras distintas? E que elas se manifestam diferentemente dependendo da origem da uva? E você sabia que, depois de escolher a levedura que mais bem se aproxime de “seu” Sauvignon Blanc do que pretende, ele ainda pode mudar conforme os nutrientes que se acrescente? Pois é. Hoje, existe levedura que consegue transformar açúcar em acidez! Pode-se acreditar nisso? Imagine que vi, provei e fiquei surpreso com a influência de barricas em diversas amostras de espumantes, para depois saber tratar-se do efeito de micro pedaços de diferentes tipos de madeira e tostados microencapsulados, junto com as leveduras… uma das amostras parecia um espumante sagrado, de classe, com Chardonnay envelhecido em barricas por anos… Sabia que há inclusive como conseguir que seu espumante tenha aquelas pequeníssimas bolinhas do “pérlage”, com aquela enorme intensidade e cremosidade, independentemente de ele ser um grande espumante que produza isso naturalmente?… Pois é… Existe e eu provei. E por aí vai… e não param de surgir novidades.
Voltei agradecido, surpreso e boquiaberto com os recursos disponíveis, hoje, no mundo da enologia. Não sei aonde iremos parar, o fato é que hoje um empresário pode fazer praticamente o vinho que quiser, desde que tenha uma boa uva, sã, e colhida no momento correto. Adianto aos amigos leitores que esse é o mundo atual da grande maioria dos vinhos.
Acontece que há uma maravilha nisso, pois ele salva uma porção de uvas que dariam vinhos medíocres. É o seu conhecimento e os recursos exógenos e industriais que salvam tudo e transformam em um vinho bem-feito, gostoso e muitas vezes bem barato, que agrada ao consumidor. Sou obrigado a lhes tirar o chapéu.

 

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Foto: Divulgação

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