A uva rainha de Portugal

(*) POR LUIS LOPES
A última vez que falei nesta coluna sobre a Touriga Nacional – a mais famosa e prestigiada uva portuguesa – foi em abril de 2005. Passados mais de três anos, ela continua a firmar-se como a variedade rainha de Portugal. Cultivada inicialmente no Dão e no Douro, ela expande, ano após ano, as suas áreas de plantio, espraiando-se em direção ao sul do país e aumentando sua influência nas demais regiões vinícolas lusas. Naturalmente, as áreas mais carentes de castas locais de maior qualidade, como a Estremadura, o Ribatejo, a Beira Interior ou o Algarve acolhem a Touriga Nacional de braços abertos e rapidamente a tornam protagonista dos melhores vinhos da região. Em outras áreas, como Setúbal ou Alentejo, a Touriga vai começando a aparecer nos lotes (mistura de castas), mas ainda de forma tímida, já que variedades como Castelão (em Setúbal) ou Aragonez, Trincadeira e Alicante Bouschet (no Alentejo) são capazes de dar conta do recado e fazer grandes vinhos naquelas regiões.
E ainda bem que seja assim, pois o entusiasmo pela Touriga Nacional pode fazer com que no futuro os vinhos portugueses percam sua tipicidade regional, contribuindo para que um rótulo do Alentejo e outro do Douro fiquem cada vez mais parecidos. Com seus aromas e sabores intensamente florais, tem personalidade marcante. Em um lote, 30% dela são suficientes para “marcar” o vinho e anular a presença das demais castas. Sua utilização em regiões com vinhos de grande tipicidade, como é o caso do Alentejo, deve ser vista com moderação, quase como um “sal e pimenta” na comida, nunca como o “prato principal”. Já na Bairrada, hoje uma região completamente aberta, com inúmeros estilos e variedades de uva, a Touriga Nacional pode ter um papel importante nos lotes, fazendo companhia à tradicional casta Baga.
Além desse aspecto a ser considerado nos lotes de vinho, é cada vez mais vinificada e engarrafada “a solo”, originando vinhos 100% dessa casta. Atualmente, é a principal variedade de vinhos monocasta em Portugal. Organizei recentemente uma prova com cerca de 50 vinhos feitos exclusivamente com ela, e o resultado confirmou aquilo que já afirmei acima: é uma casta com qualidade extraordinária, que origina vinhos extremamente personalizados, inconfundíveis e ao mesmo tempo intensos e elegantes. Minhas impressões, a seguir.
Vem à cabeça um Dão e um Douro: o Quinta da Garrida Dão 2005, da Aliança (vinho complexo, profundo e intenso, com a casta demonstrando uma exuberância contida e cheia de classe) e o Quinta do Crasto Douro 2005 (fresco e vibrante nos aromas florais, com notas de cacau e especiarias na boca, longo e sofisticado). Ainda no Douro, destaco o Casa Ferreirinha 2005 (um tinto muito aromático e suculento, com toques de tabaco, tostados e excelentes taninos); o Quinta da Pacheca 2006 (austero e maduro, em seu estilo forte e vigoroso); o Quinta do Portal 2003 (em grande forma, apesar de ser de safra mais antiga, apresentou notas de anis e menta, cremoso e muito elegante); o Quinta do Vallado 2006 (muito floral, tostado, polido, com taninos acetinados); e o Quinta do Vale da Raposa 2005 (firme, sólido e encorpado, com taninos impositivos e final seco e repleto de especiarias).
Mas a casa-mãe da Touriga é o Dão – e isso se pode constatar ao se provar o Munda 2005 (elegante e fino, fumado, mentolado, com sabores de bagas silvestres); o Pedra Cancela 2006 (mistura sábia de corpo e elegância, garra e classe); o Quinta da Pellada 2006 (ainda dominado no aroma pela madeira, mas já demonstrando seu potencial após algum tempo de garrafa); o T-Nac da Quinta Vale das Escadinhas 2006 (balsâmico, complexo, licorado); o Barão de Nelas 2004 (muito mineral, cheio de personalidade); o Quinta dos Carvalhais 2004 (fino e elegante, já no ponto certo para ser apreciado); o Quinta do Perdigão 2004 (ainda vigoroso, fresco, com lembranças de amora preta e cacau amargo); o Quinta dos Roques 2005 (fechado e austero, taninos gordos e sóbrios, longo envelhecimento em garrafa); e o Quinta de Cabriz 2004 (poderoso, licoroso, cheio de fruto de qualidade).
Mas nem só o Douro e o Dão oferecem belos tintos dessa cepa. Registre-se em Palmela-Setúbal o Casa Ermelinda Freitas 2006: aroma intenso que lembra compota e menta, redondo e persistente em boca; e, no Ribatejo, o Quinta da Alorna 2006 (floral de violeta, anis, after-eight, elegante). Na Beira Interior, o Casa de Aguiar 2005 (mineral, notas de pólvora e lápis, fresco e sumarento).
E, claro, o Alentejo, com o Cortes de Cima 2005 – um rótulo que tem currículo com essa uva e que o mostra uma vez mais com esse vinho abaunilhado e amanteigado, exótico e balsâmico; o Encostas de Estremoz 2004 (com aroma de fruto macerado e cacau, bons taninos, textura cremosa e final de especiarias); o Herdade das Servas 2005 (notas de fumo e anis, elegante e equilibrado); o Plansel Selecta 2006 (notas minerais e vegetais, muito silvestre, com fruto e baunilha bem equilibrados); e o Castas d’Ervideira 2006 – um Touriga bem evidente em seus aromas de violeta, rosa e frutas vermelhas, de taninos suaves e acidez refrescante em seu paladar final.

(*) Luis Lopes, além de apreciador das boas taças, é diretor da Revista de Vinhos, de Portugal



