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Alimentação e Clima

Os temas mais marcantes da São Paulo Climate Week (SPCW) 2026 e sua relação com gastronomia

A São Paulo Climate Week (SPCW) 2026 tomou conta da cidade entre os dias 3 e 7 de agosto, com eventos espalhados por diferentes locais, entre eles o MASP, o Museu do Futebol e o Bioma Food Hub. A SPCW conecta empresas, governos, investidores e sociedade civil com o objetivo de transformar compromissos climáticos em projetos, investimentos e ações nos territórios. Nesta edição, a programação foi organizada em seis eixos, entre eles agricultura e sistemas alimentares. Todos esses temas se cruzam de alguma forma, mas, depois de passar a semana acompanhando principalmente as conversas sobre alimentação, algumas ideias apareceram repetidas vezes.

Os sistemas agroalimentares são responsáveis por cerca de um terço das emissões globais de gases de efeito estufa (FAO, 2023). No Brasil, a pecuária tem papel importante nesse cenário, tanto por suas emissões diretas quanto por sua relação com a mudança do uso da terra e o desmatamento. Por isso, uma das discussões recorrentes foi sobre aquilo que colocamos no prato. O Plant Based Treaty, campanha internacional que propõe enfrentar a crise climática também por meio dos sistemas alimentares, parte da ideia de que nossas escolhas ajudam a financiar o sistema alimentar que queremos. Isso não significa apenas substituir carne por produtos industrializados plant-based, mas repensar o que já faz parte da nossa cultura alimentar.

O feijão é um bom exemplo. Em 15 anos, a quantidade média per capita anual de feijão caiu 52% (IBGE, 2020). Enquanto diminuímos o consumo de um alimento acessível, culturalmente importante e de menor impacto climático, continuamos consumindo grandes quantidades de carne bovina. Iniciativas como o aplicativo Do Pasto ao Prato tentam trazer outra ferramenta para essa discussão, permitindo que consumidores tenham mais informações sobre a origem e a cadeia da carne que compram.

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Biomas no prato

São Paulo Climate Week 2026 / Foto: Gabriella Iaconelli

“Seremos eternos fornecedores de commodities para as nações industrializadas?”, perguntou Carlos Nobre, professor da cátedra Clima e Sustentabilidade da USP e presidente do Painel Científico para a Amazônia, durante aula magna do Insper Earthshot Climate Leadership Program. E continuou: “Ou também [seremos] fornecedores de produtos da maior biodiversidade do mundo?”. Nobre foi o cientista que nos alertou para o ponto de não retorno da Amazônia, e agora enfatiza que este não é mais o único bioma em perigo. Pantanal, Caatinga e Cerrado também estão chegando perto de uma situação climática irreversível.

Entre as soluções que aponta está o investimento na sociobiodiversidade, gerar renda e valor através da floresta é uma forma de mantê-la de pé. É uma aposta colocada em prática pelo projeto Amazônia 4.0, que reúne conhecimento científico, inovação tecnológica e saberes de populações locais para desenvolver produtos de maior valor agregado a partir da biodiversidade amazônica, como chocolates e cupulates.

Esse interesse em levar a biodiversidade brasileira para a mesa apareceu em diferentes projetos apresentados durante a semana, muitos deles tentando resolver a mesma equação: como preservar espécies e territórios e, ao mesmo tempo, garantir renda para quem torna essa preservação possível?

São Paulo Climate Week 2026 / Foto: Gabriella Iaconelli

Um exemplo é o Instituto Anjos do Sertão, que promove o empreendedorismo regenerativo na Caatinga e mantém uma fazenda-escola voltada à capacitação e a projetos como o aproveitamento integral do caju e a produção de mel. Outra iniciativa é o Programa Biomas, do Good Food Institute, que financia pesquisas para transformar espécies nativas da Amazônia e do Cerrado em ingredientes para o mercado plant-based. É o caso da farinha de babaçu, estudada como ingrediente para a indústria e que também pode criar novas possibilidades de renda para as quebradeiras de coco, que já utilizam o produto artesanalmente.

Para a chef e ativista Bel Coelho, o fato de vivermos em um dos países mais biodiversos do mundo e, ainda assim, essa biodiversidade aparecer tão pouco nos nossos pratos é também consequência da colonização. Os europeus trouxeram alimentos que lhes eram familiares e rejeitaram muito do que já crescia e era consumido aqui. Mais tarde, a indústria reforçou esse processo ao homogeneizar e padronizar a alimentação.

Mas a gastronomia também pode caminhar no sentido contrário. Durante a gravação ao vivo do podcast O Tempo Virou, de Giovanna Nader, no MASP, Bel defendeu que chefs têm capacidade de furar bolhas e, justamente por isso, também carregam a responsabilidade de popularizar a luta socioambiental. É algo que ela tenta fazer com o projeto Floresta na Boca, que reúne livro, documentário e uma plataforma dedicada à divulgação dos seis biomas brasileiros. O primeiro trabalho, dedicado à Amazônia, já foi publicado; o segundo, sobre a Caatinga, está em fase de pesquisa.

Bel também fez uma ressalva fundamental ao dizer que valorizar a biodiversidade não pode significar simplesmente encontrar o próximo ingrediente da moda e exauri-lo. O açaí mostra o risco de concentrar demanda demais sobre uma única cadeia. Existem outros caminhos, como experiências de produção agroecológica de cacau e café. Quanto maior a diversidade de produtos valorizados, menor a pressão exercida sobre um único ingrediente ou território.

Quem vive no território precisa participar da conversa

São Paulo Climate Week 2026 / Foto: Gabriella Iaconelli

Bel Coelho e Giovanna Nader também enfatizaram a importância de garantir condições para que as pessoas permaneçam nos territórios que queremos preservar. São essas populações que sentem diretamente os efeitos da crise climática e, muitas vezes, já estão criando respostas para ela.

A necessidade de ouvir quem faz esse trabalho apareceu repetidamente ao longo da semana. Sônia Guajajara e Carlos Nobre, durante o World Climate Summit, na mesa “O conhecimento que molda o futuro da América Latina”, ressaltaram a importância dos conhecimentos indígenas e quilombolas na construção de soluções climáticas. Já no Bioma Food Hub, onde se concentrou boa parte das conversas sobre alimentação, foi possível ver como essa ideia ganha forma dentro das periferias de São Paulo.

O racismo ambiental ajuda a explicar por que populações negras, indígenas, quilombolas e periféricas são atingidas de maneira desproporcional pela poluição, pela falta de saneamento e pelos efeitos dos eventos climáticos extremos. Em São Mateus, na Zona Leste, o Reciclorgânico, iniciativa do Movimento de Defesa do Favelado (MDF), enfrenta parte desse problema recolhendo resíduos orgânicos de famílias da região e transformando-os em adubo para hortas coletivas.

Também em São Mateus, Terezinha dos Santos, do Sabor da Vitória Orgânicos, conta que começou sua horta urbana ao perceber que os alimentos de qualidade pareciam acessíveis apenas aos mais ricos. Queria que seus vizinhos também pudessem comê-los. Hoje, além de fornecer produtos para a comunidade, recebe pessoas em sua produção, aproximando-as da terra e da origem daquilo que chega ao prato. Segundo André Silva, educador do Reciclorgânico, muitos dos projetos mais importantes surgem justamente nas periferias. Da necessidade e da criatividade nascem soluções que podem servir de farol para o restante da cidade.

Ninguém transforma o sistema alimentar sozinho

São Paulo Climate Week 2026 / Foto: Gabriella Iaconelli

Cesar Bisconti, durante a mesa “Cidades Regenerativas: prototipando a solução climática e social”, contou que, ao entrar no mundo da agricultura urbana, se surpreendeu com a disposição das pessoas em compartilhar dicas e conhecimentos. Ele lembra de ter dito: “Vocês não tinham que estar me contando isso”, ao que alguém respondeu: “Na agricultura a gente coopera, se um prospera, todos prosperam”. Talvez essa seja uma boa síntese de outra ideia que apareceu durante toda a semana, de que resiliência se constrói coletivamente.

Isso vale para quem produz. Pequenos agricultores isolados têm menos capacidade de negociar preços, acessar mercados, dividir estruturas e enfrentar os riscos cada vez maiores impostos pelo clima. Como resumiu Lucas Sousa, fundador do Projeto Crioulo: “O pequeno agricultor tem que se reconhecer pequeno para entender que ele tem que andar em grupo e fazer uma atuação em rede”.

Essa filosofia começa na agricultura e agora atravessa mercados como a Gomo Coop e o Instituto Chão, que apresentaram seus projetos na mesa “Democratização do acesso à alimentação de qualidade” e apostam em modelos de negócio coletivos, que buscam beneficiar não apenas os trabalhadores, mas também garantir o pagamento justo aos produtores e facilitar o acesso dos consumidores à comida de qualidade.

E não para por aí: os consumidores têm muito mais poder do que imaginam, podem pressionar mercados, restaurantes e produtores a mudar práticas. O que todas essas experiências têm em comum é a percepção de que um sistema alimentar resiliente não pode depender apenas de escolhas individuais. Ele exige redes.

E onde entra a gastronomia?

São Paulo Climate Week 2026 / Foto: Gabriella Iaconelli

Restaurantes não vão resolver sozinhos a crise climática e, quando comparados a grandes redes varejistas ou indústrias, muitos compram volumes relativamente pequenos. Mas a visibilidade não deve ser subestimada. Um chef pode colocar um ingrediente desconhecido no prato de centenas de pessoas e, com isso, fazê-las querer saber de onde ele veio. Pode escolher comprar de um pequeno produtor, contar sua história e abrir mercado para aquilo que ele produz. Pode valorizar espécies nativas em vez de recorrer sempre aos mesmos ingredientes. E pode decidir se essa valorização fortalece quem preserva um território ou apenas transforma mais um produto em tendência.

Nós, consumidores, também fazemos parte dessa cadeia, e podemos ajudar a pressionar o mercado. Mas talvez a principal lição da São Paulo Climate Week seja que, ao agirmos juntos, ouvindo quem está na linha de frente, valorizando todos os nossos biomas regionais e formando redes e projetos coletivos mais fortes, obteremos os ingredientes necessários para mudar nossos pratos, o sistema alimentar e o clima.

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