Amazônia à mesa do mundo: povos e comunidades tradicionais assumem a cozinha da COP30
Ponto de Cultura Alimentar Iacitatá vence licitação e será responsável pela alimentação da COP30 em Belém, servindo a força da culinária indígena, quilombola e camponesa da Amazônia
O mundo vai provar a Amazônia no prato. Em primeira mão, confirmamos que o Ponto de Cultura Alimentar Iacitatá, comandado pela cozinheira e pensadora Tainá Marajoara, venceu a licitação para coordenar os restaurantes oficiais da COP30, a Conferência do Clima da ONU que acontecerá em Belém no próximo mês, em novembro.
É a primeira vez que a alimentação de uma conferência da ONU será produzida por indígenas, quilombolas, povos e comunidades tradicionais. Um marco histórico que transforma a mesa em palco político e cultural.
O Iacitatá nasceu em 2009, a partir do Projeto CATA – Cultura Alimentar Tradicional Amazônica, que mapeou saberes e sabores do Pará. Desde então, a iniciativa articula uma rede que hoje envolve mais de 600 famílias da agricultura familiar, da reforma agrária e de comunidades tradicionais. O trabalho garante escoamento da produção, preços justos e a valorização de mestres e mestras da cultura alimentar. Durante a pandemia, essa rede foi crucial para manter viva a circulação de alimentos produzidos sem veneno.
À frente dessa conquista está Tainá Marajoara, do povo originário Aruã-Marajoara. Tainá é referência internacional no conceito de cultura alimentar, pesquisadora, curadora e defensora do patrimônio alimentar da Amazônia. Sua atuação conecta ancestralidade, direitos humanos e futuros possíveis, mostrando que comer é também um ato de resistência e memória.

“Antes de tudo, eu não consigo expressar o que significa para mim e para o Iacitatá, porque essa é uma conquista coletiva. O que significa para nós é saber que onde estamos não estamos só. Estamos todos juntos: todos os povos, as comunidades e os movimentos, em defesa do alimento justo, em defesa das culturas, dos territórios e do bem-viver”, afirmou Tainá.
Quando delegações e lideranças globais chegarem à capital paraense não encontrarão apenas discursos sobre o futuro do planeta: encontrarão a mandioca em suas muitas formas, o açaí vindo direto dos quintais agroflorestais, sementes e frutos que carregam séculos de ancestralidade. É a Amazônia que se apresenta por meio de sua própria gente.
Entre os pratos que devem marcar presença na COP30 estão o açaí, as frutas amazônicas, peixes e mariscos da pesca artesanal, kanhapyra (prato indígena marajoara), frito do vaqueiro, queijo do Marajó, beijus de farinha, café camponês e o arroz e feijão da reforma agrária. “Pratos cheios de dignidade, cultura e autodeterminação dos povos”, resume Tainá.
O caminho até aqui não foi fácil. Desde 2009, o Iacitatá se engaja na luta pelo reconhecimento da cultura alimentar como expressão cultural autônoma, distinta da gastronomia. Em 2013, essa vitória foi alcançada, mas os desafios continuaram e para Tainá, a conquista do Iacitatá na COP30 deve servir de precedente para outros grandes eventos.
Tainá lembra que, ao longo do processo da COP30, povos e comunidades tradicionais foram usados como imagem, mas afastados das discussões de fundo. “Nós ornamos os cartazes, mas fomos excluídos das mesas de decisão. Nossa cultura alimentar foi negada em um explícito racismo institucional e estrutural que proibiu tacacá, açaí, maniçoba e outros, sob a justificativa de segurança alimentar, no mesmo espaço que oferecia ultraprocessados e transgênicos sem problema algum”, denuncia.
Para ela, manter ultraprocessados e fast food como regra nesses ambientes é uma agressão à dignidade humana e ao planeta. A experiência que o Iacitatá leva para a COP30, ao contrário, é de paz e de autodeterminação dos povos — fruto direto do enfrentamento ao racismo e ao colonialismo que ainda marcam a Conferência do Clima. Por isso, Tainá defende que esta conquista seja vista como um ponto de não retorno: cozinhas de culturas tradicionais precisam ser garantidas e respeitadas em qualquer grande evento.
O impacto político e simbólico, segundo ela, é evidente. Pela primeira vez, uma conferência terá uma cozinha que não destrói o clima nem financia assassinatos de defensores da natureza. Levar saberes, preparos e inovações ancestrais a um espaço de decisões globais, tantas vezes marcado por políticas que aniquilam culturas e territórios, é um gesto histórico. Sua expectativa é que, por meio da chamada Diplomacia da Kanhapyra, a cultura alimentar se afirme também como caminho de firmar acordos voltados ao bem viver.
Mesmo após a vitória, os desafios permanecem. O Iacitatá calcula que serão necessários cerca de R$ 680 mil apenas para a compra de alimentos da agricultura familiar, além de investimentos em novos equipamentos industriais. Segundo Tainá, o coletivo seguirá fortalecendo alianças globais e implementando a cozinha, aberto a parcerias e doações, já que toda a aquisição é feita exclusivamente da agricultura familiar e da cultura alimentar.
Ainda assim, o simbolismo da conquista fala mais alto. Pela primeira vez, a maior vitrine climática do planeta terá suas refeições preparadas por quem guarda a floresta e mantém seus saberes vivos. A Amazônia não estará apenas nos discursos oficiais: estará também à mesa, servida por mãos amazônidas.



