Ana Luiza Trajano costura histórias e sabores entre Brasil e França
Chef e pesquisadora apresenta a comida como ponte entre culturas e peça fundamental para entender quem somos
A comida sempre foi o caminho escolhido por Ana Luiza Trajano para compreender o mundo. E é através dela que a chef, pesquisadora e fundadora do Instituto Brasil a Gosto estreia sua nova série documental, Por Trás do Prato, no GNT e no Globoplay, no dia 29 de agosto às 22h15. A produção, concebida ao longo de anos de pesquisas e viagens, traça paralelos afetivos e culturais entre o patrimônio alimentar brasileiro e o francês.
Mais do que um programa de gastronomia, a série se propõe a ser um mergulho antropológico. Do cassoulet à feijoada, do bouillabaisse às moquecas, do pão de queijo ao gougère, cada episódio revela não apenas semelhanças entre receitas, mas sobretudo histórias de pessoas que mantêm vivas tradições em suas comunidades. “Eu sempre aprendi sobre a vida a partir do que se come. A cozinha é memória, identidade e também um espelho da sociedade”, afirma Ana.
A ideia nasceu em território francês, quando Ana se mudou para o país com os filhos, há sete anos. “Meus filhos são franco-brasileiros, e eu queria que eles conhecessem os dois países deles através da comida. Para mim, só faz sentido entender uma cultura a partir do que se come.” A imersão em escolas de gastronomia renomadas, como Ferrandi e Ducasse, somada à convivência cotidiana em diferentes regiões, despertou nela o desejo de construir uma espécie de “expedição paralela” à que foi realizada pelo Brasil em mais de duas décadas de pesquisa.






Foram mais de 80 cidades visitadas entre Brasil e França, registradas em quase 700 horas de gravação. As viagens, feitas em trailers e trens, reuniram uma equipe diversa de pesquisadores, cinegrafistas e fotógrafos, todos unidos pelo desafio de dar forma a um projeto que, segundo Ana, “nasceu para registrar a riqueza do patrimônio gastronômico e deixar esse legado para as próximas gerações”.
O caminho não foi simples. A pandemia interrompeu os planos, os custos de viagem no Brasil se mostraram altíssimos e faltava interesse quanto à distribuição do material gravado. A virada veio em dezembro passado, quando a Globo entrou como parceira e viabilizou a finalização da série. Oito episódios foram selecionados, condensando uma riqueza de material que ainda guarda fôlego para, quem sabe, futuras temporadas.
A chef vê Por Trás do Prato como um legado íntimo e coletivo. “Queria que meus filhos entendessem as origens deles, mas também que o público brasileiro percebesse o imenso valor da nossa cozinha. O Brasil é do tamanho de um continente. Não é possível que a gente continue achando a grama do vizinho mais verde”, provoca.
Para ela, falar de comida é falar de identidade e resistência cultural. “Eu fui para a cozinha porque cresci ouvindo minha avó contar como fazia polvilho. A comida sempre esteve ligada à memória da minha família, que ascendeu socialmente sem abrir mão das raízes. Isso é o que quero mostrar, tradição e afeto como parte do patrimônio cultural”, explica.
E completa: “Muitas vezes, valorizamos ingredientes estrangeiros e esquecemos nossas próprias riquezas. Temos dezenas de variedades de mandioca, farinhas, óleos e feijões, mas no supermercado só encontramos uma pequena amostra disso. Precisamos dar luz ao que é nosso”.
Com direção de Joana Mendes da Rocha e realização do Instituto Brasil a Gosto, Por Trás do Prato convida o espectador a atravessar fronteiras, aproximando sabores e histórias, e a valorizar ingredientes e receitas, reafirmando nossa identidade cultural. Num tempo em que tudo parece passageiro, ter um registro tão profundo do que comemos e do que somos é um presente raro e necessário.



