Anaté Merger abre as portas para além dos roteiros óbvios
Mercados, trufas, vinhos, azeites e almoços entre vinhedos entram na curadoria da brasileira radicada em Aix en Provence, que troca o turismo de checklist por encontros capazes de revelar o sabor do sul da França
Conhecer o sul da França pode significar visitar Aix en Provence, fotografar os campos de lavanda de Valensole, percorrer os vilarejos do Luberon e provar os vinhos de Châteauneuf du Pape. A proposta de Anaté Merger é acrescentar outra camada a esse roteiro conhecido. À frente da empresa Na Provence, a brasileira radicada em Aix en Provence trabalha com experiências privativas e personalizadas que procuram aproximar o visitante do cotidiano, dos produtores e, sobretudo, da cultura gastronômica do sul da França.

A empresa reúne experiências em diferentes regiões francesas, entre elas Côte d'Azur, Córsega, Lyon, Paris e Provence. A operação é voltada a partir de duas pessoas e os programas são oferecidos dentro de circuitos privados ou para viajantes com carro alugado. Na Provence, sede da empresa, a seleção percorre um espectro especialmente amplo, passando por vinho, azeite, mercados, cozinha, trufas, arte, lavanda e pequenos vilarejos. A maioria das atividades ocorre entre abril e novembro, embora algumas sejam sazonais ou tenham datas específicas.

É na gastronomia que essa curadoria ganha um de seus recortes mais interessantes. Em Aix en Provence, por exemplo, um programa começa na feira local, onde os participantes conhecem ingredientes frescos e sazonais antes de seguir para uma aula com chef. Ratatouille e tapenade estão entre as receitas possíveis, mas o cardápio é decidido na própria manhã, de acordo com os produtos encontrados no mercado. A experiência ocupa o período entre a manhã e o almoço, recebe no máximo 12 participantes e inclui visita à feira, aula, refeição e receitas.

Outro passeio pela cidade combina duas horas pelas fontes, mercados, arquitetura e ruas históricas de Aix com uma hora de degustação de queijos artesanais e vinhos selecionados da região. O roteiro pode ser realizado integralmente em português, característica importante para o público brasileiro que deseja ir além de uma visita convencional sem enfrentar a barreira do idioma.

O azeite, ingrediente fundamental da cozinha mediterrânea, aparece em mais de uma experiência. Em uma delas, o visitante participa de uma degustação técnica conduzida por especialista e depois segue para um piquenique privativo, com mesa e serviço, em uma fazenda histórica entre oliveiras centenárias. Em outra, o foco se amplia para o olivoturismo: a visita acompanha cultivo, colheita e produção do azeite artesanal, inclui prova de diferentes varietais e termina com uma cesta de piquenique para ser aberta sob as oliveiras.

Provence / Foto: Na Provence
Até um passeio de bicicleta pelo Luberon incorpora essa ligação com a mesa. São 35 quilômetros em bicicleta elétrica, passando pelos vilarejos de Ansouis e Lourmarin, com paradas para degustação de azeites e planchas de frios, queijos e frutas. É um bom exemplo de como os programas organizados pela empresa procuram combinar paisagem, produto e gastronomia, em vez de tratá los como atrações independentes.

No inverno provençal, entra em cena um dos produtos mais cobiçados da cozinha francesa. Entre novembro e março, a Na Provence oferece uma caça às trufas nos arredores de Aix en Provence. O passeio dura cerca de três horas e meia e leva os visitantes a um produtor para acompanhar o trabalho no campo e entender como os cães localizam as trufas. Depois, há degustação de vinhos acompanhados por produtos da Provence. A atividade é realizada somente para grupos privados e pode contar com tradução para o português.

Os vinhos formam outro eixo importante da programação. Uma experiência noturna propõe a degustação de dez rótulos da Provence em um museu dedicado ao vinho. A seleção não se restringe aos vinhos de uma única propriedade e foi pensada para permitir a comparação de estilos da região, com harmonizações gastronômicas e produtos locais. O percurso dura aproximadamente duas horas e meia e acontece em pequenos grupos de até dez pessoas.

Em outra propriedade, a visita coloca vinho, arte e arquitetura no mesmo roteiro. O passeio é feito de carrinho de golfe, dura cerca de uma hora e meia e percorre obras e projetos arquitetônicos instalados na paisagem vinícola. Depois vem o almoço, com entrada, prato principal e sobremesa harmonizados com os vinhos da propriedade. Há ainda uma experiência em que o almoço no vinhedo é seguido por um ateliê de pintura no qual o próprio vinho é utilizado como pigmento, acompanhado de uma degustação técnica.

Para quem deseja chegar a uma das denominações mais conhecidas do Rhône meridional, há um programa que começa em Avignon, com três horas de visita guiada em português e entrada no Palais des Papes, e continua entre os vinhedos de Châteauneuf du Pape, onde acontece uma degustação comentada. A combinação recupera também a relação histórica entre a antiga sede do papado e a região vinícola que leva essa herança no nome.

A mesa também aparece em programas que não têm o vinho como ponto de partida. Em Saint Rémy, uma visita privada ao mosteiro e à clínica onde Van Gogh viveu em 1889 é combinada com almoço de três tempos e uma tarde em spa. Aos domingos, outra experiência leva a uma propriedade ligada à gastronomia sustentável para um brunch preparado com ingredientes frescos do jardim, seguido por uma caminhada guiada por um vilarejo.

No período da floração da lavanda, geralmente entre meados de junho e meados de julho, o roteiro pode passar por uma fazenda familiar e incluir um ateliê artesanal de sabonete. O catálogo sugere ainda provar sorvete de lavanda durante o percurso. Já nos campos de Valensole, ou em outras localidades de acordo com a floração, é possível organizar um piquenique com mesa posta, queijos, charcutaria, pão artesanal e vinhos da Provence.

A curadoria se estende ainda a Marseille, com passeio de veleiro ao pôr do sol pelas Calanques acompanhado por bebidas e petiscos, e ao interior provençal, em roteiros de oito horas que podem combinar duas localidades do Luberon, Camargue ou Alpilles, sempre com guia em português. Também há visitas privativas, fora do horário convencional de abertura, a um sítio arqueológico com mais de 2.500 anos de história e a um palácio gótico do final do século XV. Ambas podem receber café da manhã ou aperitivo com petiscos.
Na curadoria de Anaté Merger, esses encontros funcionam como porta de entrada para uma Provence menos dependente dos cartões postais. Embora radicada em Aix en Provence e profundamente ligada à região, Anaté atende viajantes em toda a França, desenhando experiências e roteiros personalizados em diferentes destinos do país. Entre uma taça de vinho, uma manhã no mercado de Aix e um piquenique sob as oliveiras, sua proposta é aproximar o viajante dos lugares por meio de quem produz, cozinha, cultiva e mantém vivas as tradições locais. A Provence é sua casa, mas a França inteira é seu território de trabalho.



