As lições dos bares e restaurantes de Copacabana que aderiram à gestão inteligente do lixo
Levantamento do SindRio lança luz sobre empreendimentos que apostam na separação de resíduos e na coleta de material orgânico e reciclável

Por: Daniel Salles
Em funcionamento há três anos, o Baixela, em Copacabana, é um daqueles bares que vendem cerveja a rodo, sempre de 600 mililitros. Estamos falando de 720 a 960 garrafas por semana, compradas dos maiores players do segmento, Ambev e os grupos Heineken e Petrópolis. As três companhias são adeptas da logística reversa para esse tipo de recipiente, o que livra o estabelecimento da necessidade de se desfazer por conta própria das garrafas vazias. “A única dificuldade é a falta de espaço para armazená-las, pois a loja é pequena”, conta João José Holanda, um dos sócios do Baixela. “O jeito é incorporar as caixas de cerveja na decoração, parte delas no mezanino”.
O Baixela foi um dos endereços visitados gratuitamente pela Bota Pra Girar por meio de um projeto criado pelo SindRio, o Sindicato de Bares e Restaurantes do Rio de Janeiro. Ao todo, a consultoria esteve em quase 40 associados localizados em Copacabana, bairro escolhido por representar bem a diversidade do segmento.
O objetivo do projeto era traçar um raio-x para descobrir qual destino, exatamente, o setor está dando para cada tipo de descarte e quais são os principais desafios para a adoção de práticas mais sustentáveis. De quebra, a Bota Pra Girar aproveitou as visitas para auxiliar os estabelecimentos interessados em aderir à separação de resíduos e à coleta de material orgânico e reciclável.
Coincidência ou não, o Baixela decidiu, logo após a inspeção da consultoria, dar mais um passo: aderir à coleta de resíduos orgânicos. Para tanto, instalou galões de plástico, que vedam a passagem de cheiro, nos quais são depositados todos os alimentos que sobram na fase de pré-produção, além dos restos de comida nos pratos e toda sorte de produtos biodegradáveis.
A coleta está a cargo da Compostaê, que faz retiradas de duas a três vezes por semana. “Constatamos que havia espaço no bar, sim, para o armazenamento de resíduos orgânicos”, diz Holanda. “Com a coleta deles, pretendemos diminuir pela metade o volume de lixo recolhido pela Urbam. Na ponta do lápis, a mudança deverá aumentar um pouco os nossos gastos com a gestão do lixo. Mas acreditamos que tornar o negócio mais sustentável é nossa obrigação”.
Nunca é demais repetir que, no Rio de Janeiro, todo estabelecimento que produz mais de 120 litros ou 60 kg de resíduos sólidos por dia é tido como grande gerador. Quem é classificado dessa forma não pode fazer uso da coleta comum. Daí a obrigatoriedade da contratação de empresas particulares para o descarte, a exemplo da Urbam. O grande problema é que a maioria do lixo termina, via de regra, nos aterros, sabidamente nocivos ao meio ambiente.

Dois dos estabelecimentos visitados pela Bota para Girar, Beco das Garrafas e Garrafas do Beco – Wine Bar & Shop, na Rua Duvivier, uniram-se para dar um destino mais inteligente para as garrafas de vidro que ambos vendem sem parar. Em conjunto, os dois empreendimentos alugaram uma trituradora própria para esse tipo de material. O equipamento está instalado no segundo andar do Beco das Garrafas. “Tratam-se de estabelecimentos que se sentem responsáveis pelo lixo que eles geram, o que precisa ser celebrado e replicado em toda parte”, afirma Fernanda Cubiaco, CEO da Bota para Girar.
O levantamento em Copacabana, cujos resultados ainda estão sendo analisados, a deixou esperançosa. “Muitos bares e restaurantes estão desmotivados a fazer qualquer tipo de separação de resíduos, mas não faltam exemplos que provam que a falta de espaço e outras justificativas atuais podem ser superadas com uma análise mais profunda do assunto e um bom planejamento”, registra a especialista.
“Os estabelecimentos desse ramo precisam se dar conta de que a legislação vai impor, cada vez mais, obrigações em direção à gestão sustentável do lixo”, diz Fernando Blower, presidente do SindRio. “Não é um tema, portanto, que bares e restaurantes poderão continuar a negligenciar. O mais recomendado é se antecipar às eventuais regras futuras, com a implantação desde já de ações efetivas, como a separação de resíduos e a coleta de material orgânico e reciclável. São medidas que, se bem comunicadas para a clientela, podem virar diferenciais competitivos”.
Em novembro, a Comlurb publicou uma portaria que determina que os geradores de lixo extraordinário no Rio de Janeiro devem preencher um formulário online uma vez por ano com informações sobre produção, coleta e destinação de resíduos. E prevê advertências, multas e outras sanções legais para os estabelecimentos que deixem de cumprir o que o decreto exige, ou que forneçam informações falsas ou incompletas. Os formulários darão origem a um banco de dados cuja análise deverá nortear novas políticas públicas relacionadas à gestão da limpeza urbana.
O objetivo da iniciativa, diz a Comlurb, é estimular a reciclagem e a coleta de resíduos orgânicos para diminuir o uso dos aterros sanitários. O preenchimento deverá ser feito, todo ano, até 31 de julho, com dados referentes ao exercício anterior. Sempre que houver alterações relacionadas à empresa responsável pela coleta, transporte ou destinação final, um novo formulário deverá ser preenchido em até 10 dias úteis. Os grandes geradores terão 90 dias, contados a partir de 7/11, para se adequarem às novas exigências. Para verificar a veracidade das informações prestadas, a Comlurb poderá realizar fiscalizações presenciais, cruzar dados ou solicitar documentos complementares.



