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Au revoir, Didier Dagueneau

POR RENATO MACHADO (*)

Cada terra de vinho guarda no seu acervo personagens, ícones. Muitas contam mais de um herói por geração. Nomes de família, no vinho, se tornam às vezes qualificativos. Alguns identificam um rebelde, um inovador que não seguiu as tradições da família – e que geralmente muda muito o lugar, o nome e o vinho da região.

No vale do rio Loire, o menos tocado pela modernidade e pelos modismos, as denominações de origem são sólidas como as paredes daqueles castelos medievais, sonhos de turistas. Nesse vale, a vida anda devagar. E mesmo assim surgiram nomes que mudaram e continuam mudando a maneira de se fazer vinho. E até os conceitos da vinicultura.

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Didier Dagueneau foi o mais discutido deles. Até a última semana de setembro, quando morreu com pouco mais de 50 anos num acidente de ultraleve, mudou pelo menos um conceito – o do preço, numa região até então discreta, Pouilly-sur-Loire. Mas não foi só.

É verdade que os vinhos de Pouilly-sur-Loire sempre foram mais refinados e escassos que os da vizinha Sancerre, cuja colina se vê do outro lado do rio. Pouilly é menor, o solo é diferente. Didier apostou nessa diferença, rejeitou o nome da uva que a tradição impunha — Sauvignon Blanc –, e decidiu fazer as coisas à sua maneira.

Insistiu numa tradição mais antiga ainda: ali, naquele solo de sílica, que se quebra em camadas como biscoito, ele cultivou seus vinhedos da uva que ele chamou pelo nome antigo, blanc fumé. A esses vinhedos deu nomes de fantasia, rótulos de artistas e preços de boutique.

Didier foi hippie, inconformado, excêntrico. Era enorme, barbudo e cabeludo, lembrava uma mistura de Asterix e Obelix. Nunca usava a forma de tratamento “vous”, chamava todo mundo de “tu”. E não era simpático a qualquer um. Mas, uma vez transposta a barreira, não muito clara – meio nublada por uma mistura de ideologia e disposição comercial – sua generosidade mostrava-se nas reais dimensões, gigantesca e impositiva.

Detestava Paris mas tinha que ir lá de vez em quando. Apenas um restaurante merecia sua fidelidade: um pequeno bistrô da Rue d’Assas — Le Chat Grippé –, o gato gripado, aonde ele levava uma bela bagagem de seus pouillys junto com amigos que não tivessem preconceitos e não fizessem pose. Festejava daquele velho jeito boêmio que os franceses conhecem tão bem. Cozinha, só a burguesa, a do dia-a-dia, nada de luxos. Vinhos, sim, só os melhores brancos do país, entre os quais estavam as garrafas de seu domaine em Saint Andelain. E que garrafas.

O topo é o Silex, nome que designa um tipo de terreno, a pedra que se parte. O branco dos brancos. Os demais, por ordem crescente: Blanc Fumé de Pouilly, Pouilly Fumé em Chailloux, Buison Renard, Asteroïde, Pur Sang. Tesouro de colecionador, agora. Au revoir, Didier.

(*) Renato Machado é jornalista da Rede Globo e grande conhecedor de vinhos, especialmente os do Velho Mundo

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