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Aviação Executiva abre novos caminhos para o enoturismo brasileiro

Experiência na Chapada Diamantina aproxima aviação executiva, vinho e gastronomia e mostra como voos privativos podem encurtar distâncias e ampliar o acesso às novas regiões produtoras do país

Sair de Brasília pela manhã, embarcar em um avião executivo, chegar à Chapada Diamantina, visitar uma vinícola, almoçar entre os vinhedos, provar grandes vinhos e voltar para casa no mesmo dia. Foi essa a proposta da UVVA Experience, realizada em 22 de agosto, em Mucugê, na Bahia. O encontro reuniu as empresas Wine’s Life, Vinícola UVVA e Aliar e colocou em prática uma ideia ainda pouco explorada no Brasil: usar a aviação executiva para facilitar o acesso a regiões produtoras que, pelas distâncias brasileiras, normalmente exigiriam alguns dias de viagem.

Visita aos vinhedos da Uvva na Chapada Diamantina / Foto: Marcelo Ferreira

Conversei com Flávio Souza, fundador da Wine’s Life e idealizador da experiência. Ele contou que o projeto surgiu da parceria com a Aliar, empresa que trabalha com jetsharing, modelo de propriedade compartilhada em que o cliente adquire uma cota da aeronave e divide os custos de aquisição e operação. A proposta era fazer algo diferente das degustações habituais e mostrar que seria possível sair de Brasília, viver uma experiência completa em uma vinícola de outro estado e voltar no mesmo dia.

Flávio Souza, proprietário Wine´s Life e idealizador do projeto / Foto: Marcelo Ferreira

A escolha da UVVA veio naturalmente. Flávio é amigo de Fabiano Borré, um dos nomes à frente da vinícola, e considera a propriedade uma das mais bonitas do Brasil. O programa incluiu visita à vinícola, degustação de barricas, almoço nos vinhedos e uma Master Tasting.Para Fabiano, a ligação entre aviação e enoturismo já fazia parte do projeto da UVVA desde o início. A localização da vinícola tornou a logística uma questão importante. “Sempre acreditamos na aviação executiva como uma ponte para o desenvolvimento do nosso enoturismo, razão pela qual a UVVA conta com a estrutura de uma pista privada. Estando onde estamos, logística sempre será um desafio a ser superado”, afirma.

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Um brasileiro entre grandes ícones

800 quilates, ícone da vinícola UVVA / Foto: Marcelo Ferreira

Da degustação fizeram parte Dom Pérignon, Almaviva, Opus One e Château Mouton Rothschild, além do cognac Louis XIII. E, no meio desse grupo, um vinho produzido ali mesmo, o UVVA 800 Quilates, uma edição especial limitada, um blend de Cabernet Sauvignon (75%) e Cabernet Franc (25%) da safra 2018. Fabiano define o rótulo como o vinho mais raro da casa e muito ligado à própria história da vinícola. A inclusão dele na degustação partiu de uma sugestão sua. Flávio gostou da ideia justamente por colocar um grande vinho brasileiro diante de um público acostumado a rótulos internacionais consagrados.

Fabiano Borré, proprietário da Vinícola UVVA / Foto: Marcelo Ferreira

“Por que um grande vinho brasileiro não pode estar ao lado dos grandes ícones internacionais?”, questiona. Para a especialista em enoturismo Ivane Fávero, esse tipo de exposição também ajuda a mexer em uma questão antiga que é a percepção sobre o vinho brasileiro. “Quando um grande vinho brasileiro ocupa legitimamente a mesma mesa que rótulos internacionais consagrados, ganha o vinho, ganha a vinícola e ganha o destino”, afirma. “Não foi uma degustação comparativa no sentido de escolher um vencedor. A proposta era colocar lado a lado vinhos de origens, estilos e histórias muito diferentes”,explicou Flávio. E houve ainda um detalhe curioso: na Chapada, o 800 Quilates estava em casa. Os outros vinhos é que tinham viajado até lá.

A Chapada também à mesa

UVVA Experience / Foto: Marcelo Ferreira

A gastronomia fez parte da experiência e ficou a cargo do chef André Chequer, responsável pela cozinha da UVVA. “Na UVVA, o grande protagonista é o vinho. E é justamente a partir dele que construímos a nossa gastronomia”, explica.
A cozinha trabalha com produtos da Chapada Diamantina, entre eles frutas vermelhas, tapioca, arroz vermelho, chocolates, meles e queijos da região, misturados a referências contemporâneas e ingredientes como pato, cordeiro e cortes especiais de carne.

Chequer explica que o processo começa pelo vinho. A equipe observa suas características e, a partir daí, pensa no prato. “É uma gastronomia que nasce do território, dialoga com o mundo e encontra nos vinhos da UVVA o seu ponto de conexão”, resume. Não é à toa, que o restaurante Arenito, da vinícola UVVA, foi reconhecido pela Wine Enthusiast, uma das mais reconhecidas publicações do mundo quando assunto é enogastronomia, como um dos melhores restaurantes de vinícolas do mundo.

Uma tendência que já existe lá fora

Menu do Chef André Chequer / Foto: Marcelo Ferreira

Experiências desse tipo não são novidade em regiões como Bordeaux, Toscana, Napa Valley, Mendoza e África do Sul, onde transporte privativo, vinho, gastronomia e atendimento personalizado já fazem parte da oferta turística.
Ivane Fávero prefere não chamar isso de uma nova modalidade de enoturismo. “É uma forma mais qualificada de atender um segmento que já existe e que tem alto poder de investimento”, diz.

Segundo ela, a ideia de luxo também mudou bastante. Hoje, tempo, segurança, conforto, exclusividade e personalização pesam muito. Nesse cenário, a aviação executiva pode resolver um problema bem brasileiro: a distância.
“O Brasil acompanha esse movimento, mas começa a construir um formato com características próprias”, observa Ivane.
Na verdade, o mapa do vinho brasileiro está muito mais espalhado do que há alguns anos. Temos regiões tradicionais, vitivinicultura tropical, vinhos de inverno e novas áreas produtoras surgindo em vários estados.

Para esse tipo de operação funcionar, porém, há uma questão básica: aeroporto próximo ou alguma estrutura própria. Se o visitante ganha tempo no voo e depois passa horas na estrada, parte da proposta se perde.
Flávio já pensa em repetir o modelo em outras regiões. Cita a vinícola Thera em Santa Catarina, e a Luiz Argenta, no Rio Grande do Sul, como propriedades que gostaria de incluir nas próximas experiências.

A próxima será no ar

A Wine’s Life já realizou degustações verticais de grandes rótulos, como Almaviva, Opus One e Romanée-Conti. Agora, Flávio quer levar essa ideia literalmente para as alturas. Ele prepara uma degustação com sete safras de um mesmo grande vinho durante um voo. O projeto será apresentado como “a vertical mais alta da história”. O rótulo, por enquanto, continua em segredo. É uma experiência para um público específico, naturalmente. Mas o que aconteceu na Chapada também mostra uma possibilidade interessante para o enoturismo brasileiro.

Há vinícolas muito boas em regiões distantes dos grandes centros e, muitas vezes, o problema não é falta de interesse do visitante, mas chegar até elas.Na UVVA, essa distância foi encurtada pelo avião. Depois do pouso, o que importava já estava ali, o vinhedo, o vinho, a comida e, claro, a Chapada Diamantina.

Por Etienne Carvalho (@vinhosporetienne)
Jornalista especialista em vinhos, sommelier e sócia-fundadora da ABS-DF

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