Azeite brasileiro: um mercado que não para de crescer
Juntamente com café, queijo e fermentação natural, o azeite nacional ganha apreciadores
A consolidação do azeite brasileiro no mercado internacional vem sendo impulsionada por uma combinação de fatores: escassez global, avanços locais na qualidade e, mais recentemente, a ascensão de marcas reconhecidas em premiações internacionais.
Uma delas é a Colhida, de Sapucaí-Mirim (MG), que conquistou duas medalhas no TerraOlivo 2025, uma das competições mais importantes de azeites extravirgens do mundo. Seu Blend Intenso foi eleito “Melhor azeite do Brasil” e recebeu ainda o prêmio de Melhor Coupage do Hemisfério Sul no EVO IOOC Italy 2025. A marca aposta em blends como o Intenso e o Terroir, elaborados a partir de variedades como Arbequina, Koroneiki e Arbosana, colhidas manualmente, com acidez de apenas 0,2%. O resultado é um azeite fresco, com notas verdes e amargor equilibrado, voltado ao mercado premium.

Outro nome de peso é a Fazenda do Azeite Sabiá, em São Paulo, que obteve a pontuação máxima de 97 no guia Flos Olei 2025 e foi reconhecida pelo seu azeite monovarietal de Koroneiki. A Prosperato, no Rio Grande do Sul, também alcançou 97 pontos no mesmo guia, reforçando a presença brasileira em um dos principais manuais de referência mundial. Em Minas Gerais, a Vinícola Essenza teve seu azeite Coratina eleito “Best Of Brazil” e terceiro melhor do mundo no TerraOlivo IOOC Awards 2025, resultado que consolida o estado como polo emergente de produção de alta qualidade. Outras marcas, como Mantikir, Al-Zait, Capolivo, Maria da Fé e Graciello, também colecionaram prêmios em competições internacionais, ampliando o leque de rótulos nacionais com reconhecimento global.
Reconhecimento do mercado brasileiro
O desempenho das marcas se inserem em um contexto mais amplo de valorização dos azeites brasileiros. Em 2024, o país alcançou o quinto lugar no EVOO World Ranking, somando 328 prêmios em 22 competições internacionais, um feito inédito que colocou o Brasil à frente de países tradicionalmente fortes no setor, como Turquia e Grécia. Esse avanço ocorre em um cenário de crise internacional. A seca que atingiu países mediterrâneos, como Espanha e Portugal, derrubou a oferta e provocou aumento de cerca de 50% no preço do azeite em 2024. No Brasil, a previsão é que os preços devem permanecer acima dos níveis anteriores à crise. Com isso, cresce o espaço para que azeites nacionais, ainda que em escala pequena, conquistem consumidores dispostos a pagar mais pela qualidade e frescor de produtos elaborados localmente. “Ainda precisamos de um trabalho para mostrar ao público brasileiro que consumir azeite daqui além de mais saudável pois ele não sofre os efeitos da oxidação, ele é mais saboroso também pelo mesmo motivo”, acredita Juan Erazo, sócio da Colhida.

A produção brasileira ainda representa menos de 1% do consumo interno, mas tem crescido de forma consistente. No Rio Grande do Sul, responsável por cerca de 75% da produção, o volume saltou de 58 mil litros em 2018 para mais de 448 mil litros em 2022. Minas Gerais também vem se consolidando como polo produtor, especialmente na Serra da Mantiqueira. Apesar de desafios climáticos que reduzem algumas safras, os produtores nacionais têm investido em técnicas de colheita precoce e blends sofisticados que resultam em azeites de elevada complexidade sensorial. “Um outro ponto que devemos olhar é que o azeite brasileiro é fresco. Ele não passa semanas em containers para chegar até o consumidor final. Logo o produto tem muito mais sabor, é possível sentir a picância e todas as propriedades do azeite”, diz a sócia e chef do Manduque, Mariane Adania, restaurante italiano que fica dentro do Mercado de Pinheiros. A frente dos restaurantes Ana Terra, localizado no hotel Parador Hampel, na Serra Gaúcha, e Vistta, a cozinha de altitude em Santa Catarina, o chef Marcos Livi é também um grande apreciador dos azeites brasileiros. “O movimento do azeite brasileiro é recente – coisa de 15 anos, em média – e, com isso, temos um produto único, com um frescor absurdo, porque, do lagar até o engarrafar, o prazo é muito curto, gerando um resultado exclusivo de sabor, aroma e intensidade.

Usamos o azeite brasileiro na finalização de pratos, porque é de tanta qualidade que não merece estar em preparações mais básicas”, completa.O reconhecimento internacional demonstra que o Brasil não é apenas um consumidor voraz de azeite — atualmente são cerca de 100 milhões de litros por ano, quase todos importados — mas também um produtor capaz de entregar qualidade compatível com os melhores do mundo. Se até pouco tempo atrás os azeites brasileiros eram vistos como promessas, hoje já figuram em rankings globais e conquistam prêmios importantes. “O maior desafio é o hábito de consumo mesmo, tudo que é novo passa por isso. Se buscarmos em um passado recente, foi assim com o vinho, com os cafés especiais e com a fermentação natural, existe essa curva do público, se permitir reconhecer algo que acaba sendo novo para a grande maioria, que é um azeite local”, diz Juan. Em escala ainda limitada, o setor nacional dos azeites correm para se firmar nos nichos premium e pavimentar um caminho de maior protagonismo no mercado mundial.



