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A história dos barões do vinho

Poucos nomes no universo do vinho têm o carisma e o magnetismo de um Rothschild. Por trás do frisson que causam dois rótulos míticos a ele associados, Château Lafite e Mouton Rothschild, está uma história instigante, que contribuiu para solidificar o prestígio dos bordeaux em geral

A saga da família Rothschild tem início com o patriarca Mayer Amschel, que, começando como pequeno empresário em um gueto judaico em Frankfurt, tornou-se banqueiro bem-sucedido na segunda metade do século XVIII. Atento às instabilidades políticas que a Europa vivia, ele resolveu montar postos avançados em cidades estratégicas do continente europeu na época, Viena, Londres, Nápoles, e Paris, enviando quatro de seus cinco filhos para dirigi-los – o mais velho ficou a seu lado. A ideia era que pudessem trocar informações com mais rapidez e definir condutas, antecipando-se ao que ocorreria no mercado. Dessas frentes nasceu o emblema com cinco flechas que acompanha os rótulos dos grupos hoje existentes.

Monton Rothschild. Foto: divulgação.
Monton Rothschild. Foto: divulgação.

A posição assumida em favor dos aliados contra Napoleão, que culminou com a derrota do imperador francês na batalha de Waterloo, em 1815, fortaleceu os negócios da família e seus laços com os, então, personagens influentes. Veio daí, pouco depois, o título de Barão, concedido pelo Império Austríaco, extensível a todos os seus descendentes.

O início da história no mundo do vinho

O primeiro passo dos Rothschild em direção ao vinho foi dado por Nathaniel. Ele era filho do barão Nathan, fundador do braço inglês da família, ao decidir se mudar para Paris, em 1850. Três anos depois, querendo ter um vinho próprio para servir a seus convidados, ele comprou o Château Brane Mouton. O espaço, então, prestigiado, mas na época meio decadente foi batizado de Mouton Rothschild.

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Os investimentos feitos no sentido de recuperar a qualidade e a imagem de seus vinhos não vieram a tempo de conseguir se igualar aos quatro mais celebrados châteaux. Ou seja: Latour, Lafite, Margaux e Haut-Brion. Os únicos que alcançaram o patamar mais alto na famosa classificação de 1855, determinada pelo imperador Napoleão III e que abrangeu cerca de 60 vinhos da região de Bordeaux. Como prêmio de consolação, ao Mouton Rothschild foi concedido o título de “Premier des Seconds”.

A revolução Mouton Rothschild

Os descendentes de Nathaniel que assumiram o Mouton Rothschild a partir de sua morte, em 1870. Primeiro James Edouard e depois Henri, não se dedicaram ao château como deveriam. O que agravou mais a situação da propriedade. A qual, por sua vez, já estava afetada, bem como todas as demais da região, devido à crise da filoxera, praga que dizimou os vinhedos bordaleses e os de boa parte do mundo.

Com crise ou sem crise, tem gente que nasceu para fazer acontecer. No caso do Château Mouton Rothschild foi o barão Philippe, filho de Henri. Vindo de Paris, onde levava uma vida glamorosa, ligado ao mundo das artes, aos carros de corrida e às belas mulheres. Ele assumiu a propriedade em 1922, aos 20 anos, disposto a mudar o panorama e colocar a casa no lugar devido. Ao cunhar a frase “Premier ne puis, Second ne daigne, Mouton suis.” (Primeiro não posso, Segundo eu desdenho, sou Mouton) deixou patente sua revolta pelo fato de o Mouton Rothschild ter sido preterido da condição de Premier Grand Cru Classé, quando foi estabelecida a classificação dos vinhos de Bordeaux em 1855.

As primeiras iniciativas

Uma de suas primeiras iniciativas foi engarrafar o vinho no próprio château. Desse modo, assumindo total responsabilidade por sua fase de amadurecimento e garantindo a autenticidade do produto. Até então era prática corrente em Bordeaux, seguida por todas as propriedades, vender o vinho ainda em barris a negociantes que se encarregavam de armazená-los e vendê-los, colocando em destaque no rótulo seu nome. Em resumo, nem os rótulos que chegavam ao mercado eram padronizados nem o conteúdo da garrafa.

Além da resistência por parte dos negociantes e das objeções manifestadas pelos demais produtores, a decisão de engarrafar os vinhos na propriedade implicava grandes mudanças internas. Por exemplo, a construção de grandes espaços para abrigar os barris – de duas safras, já que o estágio nelas durava dois anos. Bem como o investimento em garrafas; além do significativo aumento de pessoal para dar conta dos trabalhos de acompanhamento da evolução do vinho nas barricas. Isso sem contar o engarrafamento, a etiquetagem, a embalagem e a comercialização. Tudo feito, a partir de 1924 o Mouton Rothschild passou a ser engarrafado na origem. O Lafite fez o mesmo a partir do ano seguinte, não tardando para que os demais produtores seguissem esse caminho.

Os rótulos personalizados

Para que a mudança ficasse bem explícita, o barão Philippe contratou o designer Jean Carlou para criar um novo rótulo para o château. Nele, rompendo novamente com as tradições, Carlou utilizou cores vivas e uma imagem de inspiração cubista, com as cinco setas, símbolo da família, a cabeça de um carneiro (o “mouton”), e a inscrição “mis en bouteille au Château”, que é utilizada desde então por todos os produtores que engarrafam vinho na propriedade.

Diante das reações negativas ao estilo por demais avançado para a época, o rótulo só foi utilizado por mais duas vezes, voltando a um padrão mais tradicional. Isso não impediu o barão de inovar outra vez em 1934, quando a etiqueta ganhou sua assinatura. Além disso, foi quando passou a informar quantas garrafas haviam sido produzidas naquele ano. Dos mais diferentes formatos – meia garrafa, Magnum, Jeroboam (3 litros) e Imperial (6 litros).

Outra prova da preocupação com a qualidade e seus reflexos no prestígio do nome Mouton Rothschild foi dada pelo barão Philippe ao tomar a decisão de não engarrafar a safra de 1930. Tendo como motivo as condições climáticas adversas, as quais fariam o vinho produzido não atingir o padrão mínimo desejado. Em seu lugar, ele teve a ideia de comercializar o lote sob a denominação Mouton Cadet (Mouton caçula). Dado o sucesso, a criação se tornaria marca de um rótulo mais comercial, composto a partir de vinhos comprados de terceiros. É o carro-chefe da empresa “négociant” Baron Philippe de Rothschild S.A., posteriormente fundada, vendendo milhares de garrafas a cada ano.

A pausa devido à Segunda Guerra Mundial

A sequência de boas tacadas foi interrompida durante a Segunda Guerra Mundial. Mas não faltou ação na vida do barão no período. Ele foi chamado para servir na Força Aérea Francesa, foi capturado, caiu nas mãos do governo de Vichy, escapou e foi para a Inglaterra. Participando das Forças Livres do General de Gaulle, sendo condecorado por atos de bravura. Nesse período, quatro safras do Mouton, 1938, 1939, 1940 e 1941, conduzidas pelos invasores, foram colocadas no mercado. Seriam as únicas a não levar sua assinatura no rótulo.

O barão voltou ao château em 1945, a tempo de reorganizá-lo para a colheita daquele ano. Foi dali que saiu, talvez como forma de compensação, o que é até hoje considerado o melhor Mouton Rothschild já produzido. Para comemorar, assim como a vitória das forças aliadas, o barão Philippe contratou um jovem desenhista francês, Philippe Jullian, para ilustrar o vinho. Escolhe, então, entre os desenhos apresentados, aquele que mostrava o “V” da vitória, tão utilizado por Winston Churchill. Foi a retomada dos rótulos artísticos, para os quais, a cada ano, um artista é convidado. Grandes nomes, como Georges Braque (1955), Salvador Dalí (1958), Joan Miró (1969), Marc Chagall (1970); bem como Kandinsky (1971), e Andy Warhol (1975), entre outros, fizeram trabalhos especialmente para ornar suas garrafas.

Por mais que rótulos personalizados fossem um diferencial do Mouton, o barão nunca teve a intenção de utilizá-los como marketing. Na verdade, suas duas obsessões eram a qualidade do vinho e provar que se deveria fazer justiça alçando-o à condição de Premier Grand Cru Classe. Lutando em todas as instâncias, enfrentou a oposição de personagens influentes do setor, sendo o principal deles Elie de Rothschild, seu parente, que comandava o Château Lafite.

A condição de Premier Grand Cru Classe

Não houve jeito. O próprio barão Elie baixou a guarda. Conscientizando-se de que era bom para os interesses da região, levou os demais Premier Crus a concordar com a promoção. Em 1973, por decreto do então ministro da Agricultura da França, o Château Mouton Rothschild alcançou a categoria principal. Foi, e deverá continuar sendo, a única alteração na classificação de 1855.

Consta que o momento foi celebrado junto aos trabalhadores do château com uma garrafa Jeroboam da safra 1924. Na ocasião, Philippe comunicou a alteração da frase que movia a propriedade para “Premier je suis, Second je fus, Mouton ne change.” (Premier eu sou, Segundo já fui, Mouton não muda). O rótulo do Mouton Rothschild 1973, porém, não expõe uma obra pintada especialmente para ele. Ou seja, reproduz um quadro pertencente ao acervo do museu do château, a aquarela Bacchanale, de Picasso. Foi, e consta no rótulo, uma homenagem que o barão quis prestar ao artista espanhol, falecido naquele ano.

A sucessão familiar

Philippe de Rothschild teve apenas uma filha, a baronesa Philippine Mathilde Camille de Rothschild. Ela foi fruto de seu primeiro casamento – sua mulher foi presa pelos nazistas e morreu em um campo de concentração. Philippine deixou de lado a carreira de atriz – ela chegou a participar da Comédie Française – no final da década de 1970 para ficar mais perto do pai. Interou-se de seus negócios, que já incluíam, além do Mouton, os châteaux vizinhos d’Armailhac e Clerc Milon, a “Maison de Négoce”, que comercializava o Mouton Cadet; além do Opus One, parceria com Mondavi, na Califórnia, seu primeiro projeto fora da França. Já sob o comando de Philippine – o barão faleceu em 1988 – surgiu, em 1997, a parceria com o grupo chileno Concha y Toro para produzir o Almaviva e, logo em seguida, foi criado o Domaine de Baronarques, no Languédoc.

A baronesa Philippine herdou do pai não só o amor pela arte, mas também o vigor e o carisma. Assumiu a presidência do Conselho de Administração, controladora majoritária da próspera empresa de vinhos da família, deixando a parte operacional por conta de uma estrutura profissionalizada. Até seu falecimento, em 2014, foi a grande embaixadora da marca. Também foi única responsável pela escolha das obras que ilustravam todos os anos os rótulos do Château Mouton Rothschild. Essa função, bem como tudo referente à comunicação, cabe hoje a Camille Sereys de Rothschild, a filha mais velha do casamento de Philippine com o diretor e ator teatral Jacques Sereys. Enquanto seu irmão Philippe, dois anos mais novo, dirige o Conselho de Administração, no qual participa Julien de Beaumarchais de Rothschild, filho da união de Philippine com o escritor Jean-Pierre de Beaumarchais.

O mito Lafite

Depois da entrada de um Rothschild no mundo do vinho não demorou para que outro membro do clã, o barão James, que havia sido designado pelo patriarca para assumir os negócios em Paris, seguisse o mesmo caminho. E o fez pelo ponto mais elevado. Afinal, comprou o Château Lafite, em 1868, por um valor quatro vezes maior do que havia sido negociado o Mouton (na época, mais de 4 milhões de francos). Passou a se denominar Château Lafite Rothschild. Na verdade, Lafite já era um rótulo de grande prestígio, sendo um dos preferidos de Thomas Jefferson, quando era embaixador americano na França, na década de 1780, antes, portanto, de voltar aos Estados Unidos e ser eleito presidente.

Chateau Lafite. Foto: divulgação.
Chateau Lafite. Foto: divulgação.

Jefferson tinha apurada sensibilidade para degustação, tendo estabelecido a própria classificação para os vinhos bordaleses, cerca de 70 anos antes da que foi publicada oficialmente em 1855. Em suas anotações consta: “Vinhos tintos de Bordeaux: quatro crus são mais célebres que todos os outros. São o Château Margaux, Tour-de Segur (o futuro Latour), Haut-Brion, e Lafite”. As garrafas que ele encomendava vinham gravadas com as iniciais “ThJ”; – uma dessas, um Lafite 1787, detém o recorde histórico de preço alcançado em um leilão. Custou mais de 150.000 dólares, arrematada pelo magnata americano Malcolm Forbes, em 1985. O evento aconteceu na Christie’s, uma das principais casas de leilões do mundo, situada em Londres. Sua autenticidade foi contestada e o caso foi parar na Justiça, porém, nada foi comprovado, sendo resolvido fora do tribunal.

O mesmo colecionador-negociante alemão, Hardy Rodenstock (1941-2018), que havia cedido aquela garrafa em consignação para ser leiloada, tempos depois vendeu outros exemplares, supostamente pertencentes ao mesmo lote. A outro bilionário americano, William Koch, que foi mais a fundo e descobriu que as iniciais “ThJ” haviam sido gravadas a posteriori por meio de um instrumento elétrico. Esse e outros episódios envolvendo fraudes de vinhos renomados deu origem ao livro The Billionaire’s Vinegar, escrito pelo jornalista Benjamin Wallace. O livro foi lançado em 2008 no Brasil, editado pela Zahar, ganhou o nome de O Vinho mais Caro da História.

As pedras pelo caminho

O status do Château Lafite continuou elevado. E ainda teve um período, particularmente, bastante favorável nos primeiros anos após incorporar o nome Rothschild. O barão James morreu meses depois, ficando a propriedade com seus três filhos, Alphonse, Gustave e Edmond. Isso até ser interrompido por uma sucessão de fatores externos que afligiu a Europa como um todo. A filoxera (ela apareceu no Lafite em 1876) e logo depois as duas grandes guerras mundiais. Em especial a segunda, período em que o Château foi ocupado e saqueado pelos alemães. Quando os Rothschild recuperaram a propriedade, em 1945, com as instalações e os vinhedos em situação muito precária, a família, constituída pelos quatro então herdeiros, os barões Guy, Alain, Edmond e Elie, confiaram a este último a tarefa de recuperar o Château Lafite e reconduzi-lo à posição que lhe cabia.

A despeito da forte geada que causou sérios danos aos vinhedos em 1956, o Lafite reconquistou seu prestígio no cenário internacional, principalmente nas safras de 1959 (ainda hoje é considerado o vinho do ano) e 1961. Alguns deslizes no final da década de 1960 e início dos anos 1970, que muitos atribuem a um certo desleixo dos herdeiros (mais interessados na agitada vida parisiense.), deram ensejo à mudança no comando. Em 1974, assumiu a direção o barão Eric de Rothschild, sobrinho do barão Elie e quinta geração da família. Tornando-se o grande responsável pela notável fase vivida pelo château nos últimos tempos.

De volta aos trilhos

Com o Château Lafite entrando nos trilhos e animado com a excepcional qualidade da safra de 1982, que marcaria o início de uma era auspiciosa em Bordeaux, o barão Eric resolveu apostar mais no vinho. Nascia aí um verdadeiro grupo vitivinícola, o Domaines Barons de Rothschild (DBR). Ou seja, além do Lafite e do quase vizinho Château Duhart-Milon, um 4ème Grand Cru Classé, comprado em 1962 e aos poucos ampliado e renovado, logo viria o Rieussec, de Sauternes, em 1984, e pouco mais tarde o L’Évangile, um estrelado Pomerol, em 1990, dotando todos de novas adegas. Ainda na França, um grande passo no sentido de buscar novos desafios e alargar fronteiras foi a aquisição do Domaine d’Aussières. Esta uma das mais antigas e imponentes propriedades do Languédoc, com mais de 600 hectares e que foi objeto de um amplo trabalho de restauração.

Enxergando as oportunidades de investimento fora do país, o barão Eric de Rothschild comprou a Los Vascos, no Chile, em 1988; quatro anos depois, a histórica Quinta do Carmo, em Portugal (revendida em 2008 para o investidor português Joe Berardo); em 1999, criou a Bodegas Caro em parceria com a família Catena; e, finalmente, começou uma aventura na China, em 2008, implantando vinhedos e fazendo testes até lançar, em 2019, o primeiro vinho, o Long Dai.

A sucessão familiar

Pela dedicação e notável trabalho do barão Eric à frente do Château Lafite durante mais de quatro décadas, é inimaginável dissociar um do outro. Com mais de 75 anos de idade, mais hora menos hora, no entanto, ele precisaria passar o bastão, decisão que deveria ser tomada e partilhada pelos seis braços da família Rothschild, sócios do DPR. Um deles é Benjamin de Rothschild, dono do Château Clarke e de outros châteaux em Bordeaux, além da Macán, em sociedade com a Vega Sicília, em Rioja; Rupert & Rothschild, na África do Sul; e Flechas de los Andes, na Argentina. O grupo optou pela continuidade, escolhendo a filha de Eric de Rothschild, Saskia, para sucedê-lo, em 2018, justamente no ano em que o Lafite Rothschild comemorava 150 anos.

Como tudo que rege a casa é feito com discrição, o assunto já deveria vir sendo discutido dois anos antes. Quando Saskia de Rothschild, de 31 anos, a única dos três filhos do barão a se interessar pelo trabalho do pai e frequentar a propriedade desde pequena, resolveu se dedicar mais ao assunto, começando a se preparar para tanto.

A rigor, ela nunca esteve distante do Lafite. Mesmo quando foi estudar jornalismo na conceituada HEC de Paris, complementado com um mestrado na Columbia University, e foi trabalhar no New York Times. De tempos em tempos, participava dos blends dos vinhos dos châteaux do grupo. E de maneira mais ativa de uns anos para cá, depois de alcançar um certificado de técnica em viticultura e enologia em uma escola no centro da França. Ou seja, o que lhe deu mais base para entrar nas discussões. O Lafite Rothschild está em boas mãos. Ela não é nenhuma dondoca.

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