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Argyros, tradição em Santorini

Com mais de 100 anos de existência e na quarta geração de viticultores, a Estate Argyros encanta com seus brancos de Assyrtiko e o Vinsanto

Cultivar vinhas na belíssima ilha vulcânica de Santorini, na Grécia, não é tarefa fácil. A escassez de água é enorme e praticamente a única fonte de umidade que as plantas recebem é uma neblina matinal que chega do mar. Pude vivenciar isso, quando estive na ilha em setembro de 2019. Ao acordar, percebi que a varanda do nosso quarto estava molhada, como se tivesse chovido na noite anterior. Mais tarde, descobri que se tratava de um fenômeno que ocorre na ilha em alguns meses do ano.

Por Solange Souza, da Grécia

Além do sol implacável, os ventos podem ser extremamente fortes, dependendo da estação. Para proteger as uvas, as videiras estão plantadas bem rasteiras e são conduzidas na forma de cesta (basket em inglês ou koulara em grego); principalmente no caso da mais nobre uva branca da região, a Assyrtiko, que gera vinhos secos deliciosos e elegantes, com notas cítricas e minerais, boa estrutura e grande frescor, o que os torna bastante longevos.

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Bem acompanhados

Os rendimentos muito baixos fazem com que os vinhos sejam caros, até mesmo na origem. Durante o período que passei em Santorini, provei vários vinhos de Assyrtiko, que combinam divinamente com a gastronomia local, com base em peixes e frutos do mar muito frescos; sempre acompanhados de legumes e verduras.

Além disso, visitei a Estate Argyros (um vício de quem trabalha na área, mesmo que a viagem seja de férias), uma das mais renomadas vinícolas da região. Localizada fora do circuito turístico de Santorini, a Argyros recebe os visitantes em sua moderna vinícola, que inclui uma sala de degustação e uma loja. As visitas devem ser agendadas e podem incluir algumas especialidades locais, como queijos e frutas secas, para harmonizar com os vinhos, dependendo da modalidade escolhida (são duas opções de wine tasting).

Fotos: acervo da Estate Argyros
O sistema de cesta (basket em inglês ou koulara em grego) protege as uvas dos fortes ventos, do sol e mantém a umidade

Tradição centenária

A Estate Argyros foi fundada em 1903 e hoje é comandada por Matthew Argyros, quarta geração de viticultores. Nos últimos anos, passou a ter maior projeção pelo fato de os vinhos de Assyrtiko terem caído nas graças dos sommeliers do mundo todo.

São 130 hectares de vinhedos, com vinhas pré-phylloxera, algumas delas com mais de 200 anos de idade (em média, as vinhas têm 80 anos). É adotada a agricultura orgânica, com uso de animais nos vinhedos e colheita manual. Os solos são arenosos, cobertos de pedras vulcânicas, onde são cultivadas as uvas nativas de Santorini, como a já mencionada Assyrtiko; além da branca Aidani (uva rara e aromática mais usada nos cortes de Vinsanto, mas a Argyros produz um vinho seco) e da tinta Mavrotragano, entre outras.

Durante minha visita, provei o Estate Argyros Aidani 2018, um vinho agradável, ótimo para acompanhar aperitivos, que deve ser consumido em sua juventude; o Estate Argyros Assyrtiko Santorini 2018, produzido a partir de vinhas de 100 a 120 anos, muito fresco, com certa salinidade (mineralidade, que tende a aumentar com os anos) e longo na boca; e o Estate Argyros Cuvée Monsignori Santorini 2017, um Assyrtiko produzido com uvas das parcelas mais antigas, com vinhas de mais de 200 anos, de grande complexidade e concentração. Segundo o produtor, pode ser guardado por até 15 anos.

Vinsanto, o vinho icônico da Grécia

Assim, uma das teorias sobre esse vinho doce é a de que sua origem seria a Ilha de Santorini, razão também de seu nome (vino santo – o vinho de Santorini). Um dos ícones da Grécia, esse vinho é elaborado com uvas brancas secas ao sol; ao contrário do Vin Santo produzido na Toscana, Itália (a grafia deve ser separada), em que as uvas são colocadas em locais cobertos, com grande ventilação, nos quais passam pelo processo de apassiamento ou secagem. Outra diferença entre eles é que os vinhos gregos apresentam maior acidez, pelo fato de serem elaborados majoritariamente com a Assyrtiko, o que dá um ótimo equilíbrio com a doçura.

A Argyros produz três versões desse vinho e provei todas: Vinsanto 4 Years Barrel Aged; Vinsanto 12 Years Barrel Aged; e, ademais, Vinsanto 20 Years Barrel Aged, com diferentes nuances de cor (do dourado-claro ao âmbar-escuro) e de complexidade. O corte é o mesmo: Assystiko (80%), Aidani (10%) e Athiri (10%), variando o tempo que as uvas permanecem ao sol e o período de maturação em barricas. São vinhos extremamente longevos, que combinam com foie gras, queijos azuis e sobremesas à base de frutas secas. estateargyros.com

* Matéria publicada na edição 203 de Prazeres da Mesa

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