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Borgonha também é (bom) negócio

Albert Bichot está há sete gerações produzindo vinhos e mostra que é possível fazer um trabalho consistente na temperamental região da Borgonha, na França

A Borgonha, apesar de toda a aura e cobiça por parte dos enófilos, também tem seus desafios na produção de vinhos. Nuances climáticas marcam o estilo de uma safra, tanto da Chardonnay quanto da Pinot Noir, que respondem de formas muito distintas a maneira de vinificá-las. Produtores de renome e os mais nobres vinhedos Premier Cru e Grand Cru têm mercado praticamente garantido. Seja pela reputação construída, seja pela diminuta quantidade produzida, esses grandes vinhos são lançados no mercado com venda certa e até com preços crescentes nos últimos anos – a demanda segue maior que a oferta.

Do outro lado da pirâmide estão os vinhos de comunas periféricas ou os feitos com uvas de uma extensão maior e genérica de vinhedos (villages). E aqui, portanto, está o grande desafio da Borgonha, onde em muitos casos se faz o sustento financeiro e se constrói a reputação de uma vinícola.

Uma verdade que impera entre os produtores de vinho é que o grande desafio hoje em se fazer um vinho de entrada com boa qualidade e consistência ano a ano, ao contrário de se produzir um grande vinho, no qual o potencial do terroir está delimitado, assim como o rendimento e a forma de vinificação.

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Albert Bichot é um dos grandes nomes da Borgonha, vinícola que se mantém familiar, com a sétima geração no controle de 100 hectares de vinhedos na região. Além disso, ele arrenda cerca de 300 hectares de vinhedos, nos quais cuida de toda a gestão do campo, como rendimentos e tratamentos a ser aplicados nas vinhas e o momento de colheita.

O gerente de exportação de Albert Bichot, Christian Ciamos, comandou uma degustação exclusiva para convidados de Prazeres da Mesa na butique de carnes NB Steak, em São Paulo. Ciamos comentou que hoje a vinícola conta com seis châteaux, nas seis principais sub-regiões da Borgonha (Chablis, Côte de Nuits, Côte de Beaune, Chalonnaise, Mâconnais e Beaujolais) para vinificação das uvas. Além disso, como a região é bastante extensa, essas unidades de produção espalhadas permitem que qualquer uva processada por eles chegue do vinhedo à vinícola em menos de uma hora, o que garante a manutenção do frescor e ajuda a não iniciar a fermentação da fruta.

As mudanças no vinhedo e as mudanças climáticas

Entre as mudanças recentes, Ciamos comentou que um grande marco é a conversão à cultura orgânica de todos os vinhedos próprios. O processo começou há dez anos e, hoje, cerca de metade já está certificada e a ambição é chegar à totalidade dos 100 hectares. Com os 70 parceiros que fornecem uvas também existe o aconselhamento e a premiação para os que cultivam de forma orgânica. Essa mudança tem gerado uma série de consequências na produção, entre elas o maior controle dos rendimentos de uva em uma videira, que diminuíram cerca de 15%, e nos vinhedos Premier Cru ou Grand Cru podem ser necessários os frutos de três plantas para resultar em uma garrafa de vinho.

Os efeitos da mudança climática também se tornam mais evidentes, segundo o representante da vinícola. “Trinta anos atrás a colheita era feita no começo de outubro. Quinze anos atrás passou para o meio de setembro e nos anos recentes, de calor como em 2003, temos colhido em agosto”, afirma Ciamos. E, se por um lado, com os picos de calor mais recorrentes em época de colheita é necessário percorrer os vinhedos com maior frequência para não se perder o ponto de excelência de cada parcela, por outro a qualidade média tem sido superior. Com uvas mais sãs também tem sido possível aumentar a extensão de algumas práticas como fermentações espontâneas, uso de cachos inteiros (sem separar os engaços) e menos barricas novas.

Em 2019, Albert Bichot ganhou um prêmio especial no concurso inglês International Wine Challenge pela excelência e consistência de seus vinhos nos últimos cinco anos. Por fim, em nossa degustação, provamos com exclusividade algumas das melhores opções da relação qualidade e preço dentre os 146 vinhos produzidos por Albert Bichot na Borgonha e na vizinha Beaujolais. Todos os vinhos de A. Bichot são importados pela Winebrands.

Bichot Crémant de Bourgogne Brut Réserve
  • Borgonha, França
  • R$ 294
  • 91 pontos

Produzido com Chardonnay e Pinot Noir (60% e 40%, respectivamente), no qual 10% do volume estagia por seis meses em barricas de carvalho, seguido de repouso mínimo de 18 meses em contato com as borras das leveduras. Desse modo, mostra-se elegante e bem presente nos aromas, com notas de amêndoas e pão tostado, além de pera e limão confitado e flores brancas. Na boca, as borbulhas são muito finas e elegantes e reforçam a sensação de frescor. O final com toques de avelãs tostadas indica a seriedade da proposta desse espumante.

Bichot Pouilly-Fuissé 2017
  • Borgonha, França
  • Preço sob consulta
  • 90 pontos

Uma das comunas mais nobres de Mâcon tem se tornado alvo dos enófilos justamente pela tipicidade bourguignon com preços ainda não tão altos. Ciamos explica, portanto, que os solos com mescla de sílex, calcário e granito, com boa profundidade dão boa complexidade aos vinhos dessa comuna.  Cerca de 30% do volume do vinho estagia por oito meses em barricas de carvalho. Na taça, mostra o equilíbrio da safra, com notas cítricas, bem como de frutas brancas (maçã e pera), iogurte e talco; além de delicada untuosidade e acidez comportada, que dão a sensação de conjunto redondo. No final, notas de frutas mais maduras como lima e nectarina.

Bichot Brouilly Roche Rosé 2016
  • Beaujolais, França
  • R$ 178
  • 90 pontos

O primeiro tinto foi desse Cru de Beaujolais e um exemplo de que a Gamay também tem sua nobreza. O nome do vinho faz referência ao granito rosa que é típico dessa zona. Espere por frutas negras frescas na taça (cereja), com toque de flores e grapefruit. Os taninos são sedutores e menos austeros que os da Pinot Noir, ainda assim em grande quantidade, e aportam boa estrutura ao vinho. Não há passagem por madeira, o que dá protagonismo merecido à fruta. Portanto, é um tinto leve e descontraído, mas sem perder a seriedade.

Bichot Mercurey (tinto) 2016
  • Borgonha, França
  • R$ 330
  • 88 pontos

Embora formalmente pertença à Côte Chalonnaise, a vila de Mercurey corresponde a uma extensão da Côte de Beaune e produz tanto brancos quanto tintos nesse nível “villages”. Apesar de ser uma safra considerada de clima frio, a Pinot Noir nesse caso mostra boa expressão e precisão, com frutas vermelhas frescas (framboesa e cereja), ervas frescas e toque de toffee. A boca, então, retrata melhor o extremo do ano, com taninos firmes e generosa acidez. No final, abre-se o lado terroso da casta, com a textura compacta dos taninos.

Bichot Côte de Beaune Villages (tinto) 2016
  • Borgonha, França
  • R$ 362
  • 89 pontos

Feito com uvas colhidas em partes diversas da Côte de Beaune, esse vinho bem retrata as condições frias de 2016. Na taça, as frutas vermelhas ácidas (cranberry e framboesa) recebem a companhia do cítrico da laranja, além do perfume de folhas secas. Na boca, o frescor está no primeiro plano, com corpo delicado e taninos nada excessivos, mas que mostram garra. Ainda assim o conjunto tem bom equilíbrio e a cremosidade não deixa a sensação de magreza. Final com mais cítricos, bem como romã e ervas frescas.

Bichot Chassagne-Montrachet (tinto) 2016
  1. Borgonha, França
  2. R$ 718
  3. 92 pontos

Apesar de ser mais conhecida por vinhos brancos, Chassagne-Montrachet também produz tintos marcados pela delicadeza e o lado condimentado da Pinot Noir. Além da clássica cereja vermelha, o aroma é marcado pela boa complexidade de notas: terra, folha seca, toffee, noz-moscada e ferro. Na boca, mostra ótimo polimento sem os extremos dados por um ano de clima frio. Os taninos são abundantes mas sem arestas e com ótimo polimento, da mesma forma que a acidez, ótima e bem integrada. Portanto, o conjunto é sedutor e equilibrado e permanece limpo e linear do começo ao final. Vale acompanhar a evolução ao longo dos próximos anos.

*A reportagem foi publicada na edição 199 de Prazeres da Mesa

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Marcel Miwa

Especialista em serviço de vinhos pelo Senac-SP e jurado em diversos concursos internacionais de vinhos, desde 2015 Marcel Miwa está à frente do caderno de vinhos de Prazeres da Mesa.

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