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Entrevista com Laurence Odfjell, um dos principais produtores de vinhos sustentáveis no Chile

O que faz um dos maiores operadores de logística marinha do mundo em seu segmento se dedicar a uma vinícola no Chile? No caso de Laurence Odfjell, é a biodinâmica

Laurence Odfjell é norueguês e comanda com seu irmão e seu pai, um império de logística de cargas marinhas. No final da década de 1980, o patriarca da família Dan Odfjell decidiu dar o passo inicial para ser uma vinícola no Chile, no Vale de Maipo, mas em um local menos comum, próximo da cordilheira da costa chilena. Desde o início, o foco esteve em fazer vinhos de forma sustentável, no qual a viticultura orgânica fosse o princípio para produzir a bebida. Hoje, são 118 hectares de vinhedos, no Maipo, no Vale de Lontué e no Maule, em Cauquenes, zona conhecida pelas vinhas velhas de Carignan; e todos os vinhedos são conduzidos de forma biodinâmica.

Além de estar à frente da vinícola da família, Laurence Odfjell foi o arquiteto responsável pelo desenho da vinícola (e da também biodinâmica Matetic, em Casablanca), já incorporando a visão sustentável, como fluxo gravitacional, baixo impacto na paisagem natural e aproveitamento do isolamento térmico dado pela encosta em que a construção está escorada. Conversamos com exclusividade com Laurence Odfjell e testamos os rótulos que sobressaíram na degustação.

Vinícola Odfjell
Vinícola Odfjell

Prazeres da Mesa – O que trouxe sua família ao Chile?

Laurence Odfjell –  Além dos navios e terminais portuários, meu pai herdou do meu avô a paixão pela apicultura. Quando a Noruega foi invadida pelos alemães na Segunda Guerra Mundial, havia pouco alimento disponível para a população. Meu avô começou a criar algumas colmeias de abelhas e meu pai, com 10 anos na época, ficou fascinado. E aprendeu que, quando se trabalha com abelhas, deve-se observar o ritmo da natureza, em especial o clima limítrofe da Noruega. No início dos anos 1980, nossa empresa começou a investir na estrutura de portos marítimos na América do Sul. Meu pai chegou ao Chile e logo ficou encantado com o clima, seco, ensolarado e com poucas chuvas.

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Assim, a decisão pelas uvas e vinho foi logo a primeira opção?

Na verdade, não. Houve uma combinação de oportunidade e sonho. Ainda na década de 1980, o Chile passou por uma forte crise econômica e surgiu a oportunidade de meu pai comprar uma fazenda no Vale do Maipo, mas a intenção era cultivar árvores frutíferas variadas e, claro, colocar suas abelhas para aproveitar desse campo e fazer a polinização das frutíferas.

E como as videiras se deram melhor nesse jogo?

O mercado das frutas é bastante cruel, com preços e demanda comandados pelos compradores. Tínhamos uma posição de reféns desse mercado e administrar tudo isso a partir da Noruega não era fácil. Começamos a pensar o que poderíamos fazer para escapar dessa situação e observamos o boom de exportação do vinho chileno no final dos anos 1980, que teve como epicentro os vinhos do Maipo, onde estávamos.

Mas existe a máxima do setor que um bom vinho não se faz da noite para o dia, certo?

Estávamos cientes de que não sabíamos nada sobre vinho. E isso foi positivo, pois cometemos todos os erros possíveis (risos) e aprendemos com eles. Em especial no campo, fizemos muitas escolhas equivocadas. O primeiro passo, então, já que não entendíamos nada, foi contratar bons profissionais, que estão conosco até hoje. Essa foi a melhor decisão, pois são pessoas que acumularam conhecimento sobre tudo o que fizemos e sabem aonde podemos chegar.

Como o tema de produção orgânica e biodinâmica entrou no radar?

Primeiro, existe uma questão de vocação. O clima do Chile é bastante seco, com poucas pragas para a viticultura, por isso a utilização de insumos químicos não é tão necessária. Defendo que o Chile seja um país 100% orgânico, acredito que seja viável. Todos os nossos vinhos são orgânicos e biodinâmicos, com certificação. E mesmo nos vinhos que fazemos com uvas compradas de terceiros, exigimos que também tenham as mesmas certificações. Tínhamos um ótimo Cabernet Franc, por exemplo, mas tivemos de parar de trabalhar com esse fornecedor, porque ele não quis converter seu vinhedo para a cultura orgânica.

Depois, temos a questão ambiental, em que entra a biodinâmica, pois vai além do conceito do orgânico de não agredir o meio ambiente. Na biodinâmica, há o tratamento do meio ambiente, buscando sua recuperação. Tenho um filho que sofre com reações alérgicas aos conservantes empregados nos alimentos. Vejo a enorme diferença quando se alimenta com produtos que não trazem conservantes.

E a questão mercadológica dos vinhos orgânicos e biodinâmicos?

É um caminho lento, admito. Adotamos o caminho do biodinamismo dez anos atrás e, quando observo o comportamento dos vinhedos, noto claramente que há maior vivacidade. Acho que isso tem se refletido nos vinhos, que coincidentemente ou não, tem recebido melhores avaliações dos críticos.

Ao mesmo tempo é um momento de luxo para o apreciador de vinhos. Há qualidade por todo lado e em todas as faixas de preço. Então, dentro disso penso que, se é possível ter uma opção mais saudável, que não prejudica o meio ambiente, é positivo. Em Odfjell, a premissa é ser reconhecido pela qualidade primeiro, para depois ver se o consumidor está disposto a comprar uma garrafa. E sei que o vinho é um produto caro no Brasil.

E o projeto tem andado bem. Como manter o foco na qualidade quando houver a sedução por produzir e vender mais?

Fui o arquiteto da vinícola e 60% do projeto é subterrâneo. Além da questão da sustentabilidade, pois utilizamos fluxo gravitacional e baixo impacto na paisagem ambiental, isso significa que não temos como ampliar as instalações. Nosso limite foi estabelecido no início. Isso foi bom, pois conheço a ambição do meu pai e sei que ele sempre gosta de fazer crescer os negócios, mas quando isso não acontece ele perde o gosto pelo projeto (risos). Nosso objetivo é crescer em qualidade, não em volume.

Hoje, Odfjell tem três vinhedos principais; o original, no Maipo, em Lontué e no Maule. Isso não deve mudar, certo?

Esses são nossos principais vinhedos, mas estamos sempre em busca de outras opções. Nossa linha Orzada é justamente para explorar novos vinhedos e expressões. Veja o caso do Orzada Malbec, que nasceu na safra 2002. As uvas vêm de Curicó e fizemos três pequenos tanques, adotando diferentes técnicas de vinificação em cada um deles. No final, eu queria lançar os três Malbec, separadamente, pois ficaram ótimos.

Além disso, veja a história do nosso Carignan. Nossos vinhos sempre foram reconhecidos por ter o frescor em primeiro plano, e a Carignan tem justamente a boa acidez como protagonista. Fizemos um vinho sensacional com essa variedade em 2001. Em 2013, voltado a ter um resultado excepcional com o mesmo vinhedo. Foi a confirmação que deveríamos comprar esse campo e assim o fizemos. Dessa forma, em relação aos vinhedos, sempre temos uma página aberta.

E, na enologia, ainda há muito o que experimentar?

Sim, sempre temos nossas práticas e ideias. Claro que tudo dentro de uma disciplina. Por exemplo, com a Cabernet Sauvignon, além de fazermos as colheitas das parcelas dos vinhedos em momentos diferentes, para ter lotes mais frescos ou mais frutados, descobrimos que para nosso estilo de vinho é melhor fazer a fermentação com as cascas das uvas submersas no tanque. Assim, temos uma extração mais delicada que, com as remontagens, resulta em vinho mais fresco e preciso.

Outro exemplo, em 2002 estava em Bordeaux para uma feira de vinhos. Nosso enólogo, Arnauld Hereu, e eu fomos convidados para um jantar em um château em Saint-Émilion. O produtor anfitrião serviu uns seis diferentes vinhos, todos da região e fiquei encantado como eram sedosos. Pensei: “quero essa elegância em nossos vinhos” e comentei com Arnauld, que explicou que o segredo estava na micro-oxigenação dada pelo uso das barricas de carvalho. Então, nas linhas superiores Aliara e Odfjell, jogamos mais com barricas, não necessariamente novas, pois não queremos os aromas da madeira intervindo no vinho para ter a textura de taninos elegantes e sedosos.

O que vislumbra para o futuro da vinícola?

Difícil dizer. Estamos em um momento de ebulição. Informalmente, estamos sendo conhecidos como uma incubadora de vinícolas, isso porque abrimos a vinícola para que pequenos produtores possam produzir seus vinhos dentro de Odfjell. Alguns já são bem conhecidos.

A questão é que o intercâmbio de informação criado a partir daí tem mostrado muitos caminhos interessantes. Seja com novas zonas, novas variedades ou técnicas de vinificação, há muita coisa interessante surgindo e estamos ajudando a criar esse ambiente de inovação. Quando olhamos para dentro, a cada dia aprendemos algo. Abri recentemente uma garrafa de nosso Odfjell 2007, o principal vinho da vinícola, para ver sua evolução. E foi uma surpresa ver o vinho ainda púrpuro e fechado. Certamente ele ainda vai longe, e vamos nos conhecendo mais a cada dia.

Armador Cabernet Sauvignon 2016
Armador Cabernet Sauvignon 2016
Armador Cabernet Sauvignon 2016
  • Maipo, Chile
  • R$ 98 | 90 pontos

A primeira safra com certificação brasileira de vinho orgânico. Apenas 20% do volume passam por barricas usadas (cerca de seis meses). Fruta negra madura e concentrada no nariz (cereja e mirtilo), com toque floral. A textura é fluida, com taninos levemente compactos. Final com frutas negras e leve terroso. Boa complexidade para a categoria.

Capítulo 2017
Capítulo 2017
Capítulo 2017
  • Maipo, Lontué e Maule, Chile
  • R$ 128 | 88 pontos

A linha mais jovem da vinícola nasceu em 2014, como alternativa de blend tinto mais acessível que Aliara, com Cabernet Sauvignon (50%), Malbec e Carignan, todos de vinhedos próprios e biodinâmicos. Aqui, 30% do volume passaram por barricas usadas por oito meses e se fazem notar pela nota de chocolate e café torrado. Em compensação, os taninos são mais aveludados e há boa mescla de frutas negras frescas e maduras, com toque de terra. Essa mescla foi exclusiva para o mercado brasileiro, para ter a certificação orgânica.

Orzada Carménère 2016
Orzada Carménère 2016
Orzada Carménère 2016
  • Maule, Chile
  • R$ 183 | 89 pontos

A decisão foi fazer um Carménère diferente. Por isso, a colheita foi antecipada para março (antes de algumas variedades brancas) e o vinho não passa por barrica. Ainda assim aparecem notas de chocolate e sândalo (normalmente associadas à madeira), com frutas vermelhas maduras, flores e menta em primeiro plano. Os taninos finos ainda mostram alguma tensão na boca e no final há certo calor do álcool. Deve ganhar integração com o tempo.

Orzada Carignan 2018
Orzada Carignan 2018
Orzada Carignan 2018
  • Maule, Chile
  • R$ 183 | 93 pontos

Além de ser uma das melhores safras para tintos no Chile, o vinhedo com mais de 100 anos de idade mostra sua força. Cereja e amora maduras no nariz, notas muito limpas e com boa intensidade. O ótimo frescor já está bem integrado e o álcool mal se nota. Os taninos são muito finos e com ótimo polimento (a Carignan costuma ter alguma rusticidade). Muito elegante, polido, sem distorcer a expressão da casta. Não há passagem por barricas.

Aliara 2013
Aliara 2013
Aliara 2013
  • Maule, Lontué e Maipo, Chile
  • R$ 299 | 92 pontos

Produzido desde a safra 2004 até a 2012, tinha como base as mesmas variedades: Malbec, Cabernet Sauvignon, Syrah e Caménère. Em 2013, a decisão foi de mudar o estilo do vinho e valorizar o potencial do vinhedo centenário de Carignan no Maule; que compõe 65% da mescla, com Syrah e Malbec como complemento. Na taça, ainda mostra a intensidade da juventude, com taninos muito finos e firmes, fruta negra fresca e madura com toques mentolados. No final, mostra leve salinidade e toques minerais (ferro e grafite).

Odfjell 2012
Odfjell 2012
Odfjell 2012
  • Maule, Chile
  • R$ 577 (safra 2014, também Cabernet Sauvignon) | 95 pontos

O vinho lançado apenas nos melhores anos, também corresponde a um varietal que mais bem se manifestou naquele ano. Em 2012, a variedade escolhida foi a Cabernet Sauvignon (em 2004 foi Carménère, 2005 Carignan, 2007 e 2010 foram com Malbec, e 2012 Cabernet Sauvignon), que fermentou espontaneamente (como todos os tintos da vinícola) e estagiou por 24 meses em barricas francesas novas. Na taça, traz notas de licor de cassis; frutas negras maduras; toffee; cedro; flores secas; e pão tostado, com um conjunto muito intenso e atraente. Na boca é compacto, com muitos taninos (exemplarmente finos), frescor no ponto certo e fruta que mantém a elegância até o longo final. Foram produzidas 2.000 garrafas com certificação biodinâmica.

* Todos os vinhos Odfjell são importados pela World Wine.

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Marcel Miwa

Especialista em serviço de vinhos pelo Senac-SP e jurado em diversos concursos internacionais de vinhos, desde 2015 Marcel Miwa está à frente do caderno de vinhos de Prazeres da Mesa.

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