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Uma vertical completa

Hoje considerado um clássico, o Sassicaia partiu como um projeto ousado e rebelde por plantar variedades bordalesas em plena Toscana, berço da Sangiovese. A verdade é que a qualidade superou qualquer bairrismo e esta degustação, com todas as safras já produzidas, prova que o caminho está bem pavimentado e o futuro segue brilhante, como a estrela que estampa seu rótulo

A história dos supertoscanos é bem conhecida e Sassicaia, o principal vinho produzido pela Tenuta San Guido, em Bolgheri, na costa toscana, se tornou o principal embaixador do movimento que subverteu a ordem natural das regras italianas da denominação de origem. Uma das primeiras lições do mundo do vinho é entender as categorias de classificação do vinho. Geralmente, os critérios geográficos e produtivos se tornam mais restritivos a cada degrau acima na pirâmide e, em tese, implicam em tipicidade indiretamente na qualidade.

Na base estão os chamados “vinho de mesa”, seguido dos vinhos com Indicação Geográfica Protegida (IGP, antes chamada IGT) e, no topo, os vinhos com Denominação de Origem (D.O.). Além das zonas geográficas se estreitarem conforme subimos de nível, as regras de produção também se tornam mais rigorosas, seja na viticultura, com delimitação das castas permitidas, rendimentos por planta, quanto na enologia, com prazos para se colocar o produto no mercado e até o tempo mínimo de estágio em barricas, claro, tudo auditado e confirmado em provas de degustação dos comitês regulares de cada D.O.

A história da  Sassicaia

A saga de Sassicaia começou em 1921, quando o marquês Mario Incisa della Rochetta era estudante na cidade de Pisa. A convite do duque Francesco Salviati, Mario Incisa provou um dos vinhos feitos pelos Salviati com a Cabernet Sauvignon, na região de Migliarino. A expressão do vinho recordou-lhe um Bordeaux maduro e ascendeu a possibilidade de lograr o mesmo êxito, em sua propriedade em Bolgheri, 70 quilômetros ao sul de Migliarino. Cerca de 20 anos mais tarde, então, quando se fixou com a mulher na propriedade em Bolgheri, onde mantinham um haras com reputação de excelência, decidiu ir atrás das mudas de Cabernet Sauvignon de Salviati. Assim, em 1948, nascia o primeiro vinho “della sassicaia”, de terreno pedregoso, em tradução livre.

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Foto: RJ Castilho.

E os primeiros resultados não foram animadores no princípio, pois o vinho não era muito bem recebido pelos conhecedores que o provavam. Com paciência e persistência, Incisa della Rochetta seguiu produzindo seu vinho ano após ano e observou que, depois de engarrafado, melhorava com o tempo. Essa fase experimental durou 20 anos. Com a aproximação de seu primo (colateral), Niccolò Antinori (casado com a irmã da mulher de Mario Incisa) e seu respectivo filho Piero Antinori, portanto, o enólogo de Antinori, o legendário Giacomo Tachis se juntou à Sassicaia e aportou estrutura suficiente para que o vinho fosse lançado oficialmente em 1971, com a safra 1968. Tachis foi discípulo de Émile Peynaud, considerado o pai da enologia moderna, e levou sua filosofia bordalesa para os vinhos toscanos.

Com a espinha dorsal sempre fixada com 85% de Cabernet Sauvignon e 15% Cabernet Franc, inicialmente Sassicaia era classificado apenas como “vinho de mesa”, o nível mais simples da classificação italiana. Com a chegada de outras propostas semelhantes, mas no mesmo patamar de qualidade, como Tignanello (1971), Solaia (1978) e Ornellaia (1985), surgiu enfim a necessidade de separar esses grandes vinhos que não estavam contemplados na lei de denominação de origem da época.

Os supertoscanos

Assim, na década de 1980, convencionou-se chamar de supertoscanos esses vinhos feitos com castas francesas (não apenas bordalesas) com ou sem a presença da Sangiovese no blend. A métrica era dada pelos críticos segundo a expressão na taça. E a história prova que a reputação era justificada. A até então costa tirrena da Toscana, sem tradição na produção de grandes vinhos, passou a ser o berço de tintos fabulosos, que, com a amplitude térmica dada pelo calor do dia e os ventos que sopram constantemente do mar, em uma altitude bastante superior aos vinhedos de Bordeaux, criam um ciclo ótimo de amadurecimento das tintas Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Syrah e Merlot. O solo argilo-calcário com cascalhos de diferentes tamanhos guarda semelhanças com algumas zonas de Bordeaux e permite boa drenagem e acúmulo de água no subsolo.

Em 1994, a burocracia italiana reagiu e criou a categoria de Indicação Geográfica Típica para os vinhos que englobou os tintos produzidos em Bolgheri. Embora ainda não estivessem na qualificação merecida, já se considerava um pedigree. Claro que a reputação e a pontuação alcançada por esses vinhos falavam mais alto, acompanhadas pelo aumento de preço, mas a merecida classificação de D.O.C. (Denominação de Origem Controlada) veio em 1983.

Um degrau ainda mais específico veio em 1994 quando Sassicaia ganhou o status de sub-região na Bolgheri. E, em 2013, a Tenuta San Guido, propriedade onde nasce o Sassicaia recebeu o status de D.O.C. autônoma. Os cerca de 90 hectares de vinhedos da propriedade da família Incisa della Rochetta hoje pertencem à D.O.C. Bolgheri Sassicaia, onde o vinho deve conter o mínimo de 80% Cabernet Sauvignon e deve estagiar pelo menos por 18 meses em barricas de carvalho e lançado apenas dois anos após a safra.

A vertical

A inédita degustação foi idealizada e realizada por Flávio Souza, fundador da Wine’s Life, que reuniu cerca de 20 aficcionados do mundo do vinho na Library’s Room do Copacabana Palace, os únicos no mundo que puderam acompanhar a trajetória completa de Sassicaia desde a safra inaugural, em 1968, até a atual 2016. Foram nada menos que 47 rótulos (o vinho não foi produzido nas safras de 1969 e 1973) degustados em quatro sessões.

Para facilitar a leitura, agrupamos as safras conforme as famílias de estilo dos vinhos. Lembrando a máxima que, quando tratamos de maduros, com décadas de vida na garrafa, não falamos de grandes vinhos, mas sim de grandes garrafas, já que alguma oscilação de uma garrafa para outra é previsível e até certo ponto esperada, uma vez que é um produto vivo.

Vinhos jovens

As safras jovens exibem muito equilíbrio, embora com aromas ainda fechados. A última década se mostra dourada para Sassicaia, em que os vinhos são cristalinos, com extração precisa de taninos, fruta e acidez em harmonia. São safras que mostram fôlego para ficar ainda melhores.

Safras: 2016 (94 pontos), 2015 (93 pts.), 2012 (93 pts.), 2011 (91 pts.) e 1985 (97 pts.). 

A safra mais recente, 2016, marcou o ano de falecimento de Giacomo Tachis. O vinho mostra extrema elegância e pureza de fruta (licor de cereja, amora, violeta e ervas frescas no nariz), ante a potência e concentração da premiada safra 2015. A 2012 se mostra austera e longeva. Enquanto a 2011, apesar de ainda fechada nos aromas, tem expressão clássica e integrada. A Sassicaia 1985 entrou para a história por receber os cobiçados 100 pontos de Wine Advocate, publicação de Robert Parker, e mostra textura sedutora com intensidade para ir mais alguns anos em plena forma. Uma das melhores do painel.

Em seu momento

Essas safras mostram o vinho em sua plenitude. Claro que não se trata de um pico íngreme, mas de um platô em que os vinhos devem permanecer por alguns anos. Aromas abertos, com boa mescla entre notas de fruta, madeira e evolução na garrafa, com boca integrada, taninos bem resolvidos, acidez natural e sem arestas.

Safras: 2010 (96 pontos), 2009 (96 pts.), 2008 (94 pts.), 2007 (95 pts.), 2005 (94 pts.), 2001 (95 pts.), 2000 (93 pts.), 1997 (95 pts.), 1992 (93 pts.), 1988 (96 pts.) e 1982 (95 pts.).

Valendo-se do paradigma de grandes vinhos modernos, Sassicaia atinge o apogeu de forma mais rápida que os grandes bordaleses. E se mantém nesse ápice por longo período. As 2010 e 2009 mostram ótima complexidade, com tostados integrados, fruta em primeiro plano e textura de taninos bem resolvida, com ótimo frescor. Um espelho do que ocorreu em Bordeaux nesses dois anos. A 2008 é de um ano de concentração de fruta. Enquanto a 2007 foi a última safra em que Tachis trabalhou na Tenuta San Guido, e a expressão elegante começa a despontar as especiarias da evolução do vinho. Em 2000, 1997 e 1992, há bom equilíbrio de fruta e evolução (tabaco, couro e especiarias). As safras 1988 e 1982 se destacam pela vivacidade (fruta e frescor) e ainda mostram disposição para se manter bem nos próximos anos.

Mediterrâneos

Vinhos descritos como mediterrâneos representam condições de clima mais quente e árido; no qual a fruta mostra maior potência e maturação, com taninos e acidez mais extremos, retrato do perfil de um tinto da zona mediterrânea. Embora estejam entre as feições mais rústicas, são vinhos com grande vocação para a mesa.

Safras: 2006 (91 pontos), 1999 (93 pts.) – replantio de vinhedo; 1991 (95 pts.), 1990 (88 pts.), 1984 (93 pts.), 1981 (93 pts.), 1980 (91 pts.), 1978 (86 pts.), 1977 (92 pts.), 1970 (87 pts.) e 1968 (95 pts.).

Destaque para as safras de 1999, 1991, 1984 e 1981, quando a fruta negra madura é concentrada e recebe as especiarias e tostados de forma integrada. Os taninos são compactos, mas há frescor para sustentar o conjunto. As 1990, 1978 e 1970 mostram fruta sobremadura e passas, com alguma aresta de tanino e frescor apenas mediano. Um caso à parte foi a safra inaugural de 1968. O vinho ainda traz notas frutadas (frutas negras cristalizadas, como um Porto da família Ruby), com taninos compactos e com toque de rusticidade. O vinho se encontrava mais íntegro que muitas amostras da década seguinte.

Bordaleses

Em teoria, todos são frutos de uma mescla de variedades bordalesas (Cabernet Sauvignon com Cabernet Franc). Porém uma expressão bordalesa na taça está no lado oposto da estética mediterrânea. Na parte aromática, a fruta se mostra mais fresca (por isso a presença de safras consideradas até certo ponto difíceis pela incidência de umidade ou chuva), com tostados mais discretos, que mostra a sabedoria enológica aplicada por Tachis e, embora os vinhos pareçam mais “magros”, mostram vigor e elegância. Nos melhores casos, as amostras estiveram entre as preferidas de todo o painel.

Safras: 2014 (91 pontos), 2013 (94 pts.), 2002 (93 pts.), 1996 (92 pts.), 1994 (92 pts.), 1989 (96 pts.) e 1983 (94 pts.)

Esse grupo talvez reúna os vinhos menos típicos de Sassicaia, por terem uma expressão de fruta vermelha e mais fresca que a habitual. No entanto, ao olhar as safras de 1989 e 1983, essa do ano marcado pelo falecimento de Mario Incisa della Rochetta, está claro que são vinhos que amadurecem mais lenta e elegantemente, como os grandes de Bordeaux. Além da fruta vermelha, há cedro, canela, folhas secas e páprica, com taninos finos e firmes e o frescor aparece em primeiro plano. Pela pontuação, é possível notar que são muito consistentes e estáveis. Em uma vertical podem parecer mais simples pela elegância e sutileza de suas expressões.

Maduros

Aqui estão os chamados vinhos evoluídos. Na prática, significa que essas safras trazem os aromas terciários – que se desenvolvem na garrafa, como especiarias, couro e frutos secos e cristalizados); bem presentes, com taninos amaciados. Em alguns casos também mostram notas de oxidação que lembram o vinho do Porto.

Safras: 2004 (89 pontos), 2003 (88 pts.), 1998 (87 pts.), 1995 (90 pts.), 1993 (91 pts.), 1987 (89 pts.), 1986 (93 pts.); 1979 (-), 1976 (88 pts.), 1975 (-), 1974 (86 pts.), 1972 (88 pts.)  e 1971 (-).

Como faz parte do jogo, algumas safras já passaram de seus melhores momentos. Nelas, as notas de evolução e oxidação começam a dominar, como as de 1979, 1975, 1974 e 1971. Outras estão nesse caminho, como a de 1998 (mais rápido do que deveria) e 1972. Pelo lado positivo, 1995, 1993 e 1983 mostram uma bela maturidade. Têm textura cremosa, taninos bem amalgamados, e repleto de aromas de especiarias (cravo, pimenta da jamaica, tabaco), couro, terra e toque de frutas negras e ervas secas.

 

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