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Bate-papo com Viviana Navarrete, enóloga-chefe da Viña Leyda

A chilena responsável pelos consagrados rótulos da vinícola fala sobre seus vinhos e sobre a profissão

Uma das profissionais mais competentes da América do Sul, a chilena Viviana Navarrete é responsável, desde 2007, pelos vinhos da Viña Leyda, uma das mais importantes vinícolas do Chile. Formada em agronomia pela Pontificia Universidad Católica de Chile, passou pela gigante Concha y Toro, com o mestre Ignacio Recabarren, quando começou a conhecer o terroir do Valle de Leyda. Depois, trabalhou com outra fera, o italiano Alberto Antonini.

Além dessas experiências, ela se apaixonou e, claro, especializou-se em vinhos de clima frio, mostrando as características e as expressões únicas desse terroir. Seus Pinot Noir estão entre os melhores da América do Sul, bastante parecidos com os do estilo da Borgonha, muito difíceis de se conseguir.

Viña Leyda
Viña Leyda

Ricardo Castilho – O que você acha da conversa de que existem determinados vinhos para mulheres?

Viviana Navarrete – Não acredito nesse conceito, pois existe uma diversidade de gostos e preferências que, a meu ver, não estão associados se o consumidor for mulher ou homem. Hoje, mais do que nunca, penso que haja uma grande diversidade de estilos de vinhos, o que faz aumentar a oferta e evitar a classificação dos estilos em vinhos femininos ou masculinos. Hoje, vejo mulheres que não gostam tanto de vinhos brancos e preferem os tintos, ou homens que, realmente, gostam de beber espumante. Adoro ver isso acontecendo, porque ampliam-se os horizontes para o vinho – os gostos pessoais não se classificam com relação a gênero.

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Quando você elabora um vinho, pensa separadamente no paladar feminino ou no masculino?

Nunca considero isso. Na elaboração dos vinhos, meu principal objetivo é respeitar a pureza e a variedade da fruta e, assim, poder mostrar sua origem. Nesse sentido, procuro assegurar que os vinhos da Viña Leyda – independentemente da vinha – sejam todos capazes de refletir o clima frio de onde provêm, com forte influência marinha. Por isso, certifico-me de que os vinhos tenham grande intensidade aromática, sejam minerais, muitas vezes salinos, e com uma acidez muito fresca, estaladiça e picante. Penso que, quando se atinge esse objetivo, os vinhos vão agradar tanto aos homens como às mulheres, porque afinal são vinhos com identidade.

Quais os conselhos para as mulheres que querem estudar sobre vinho?

No caso das que desejam estudar enologia (agronomia, no Chile), eu diria que é uma profissão bonita e muito completa, que é muito exigente e muitas vezes estressante na época de colheita, mas é cheia de adrenalina, esforço e gratificações, que nos enchem a alma. Nada mais bonito do que trabalhar com a natureza para obter um produto tão nobre, completo e complexo como o vinho.

Para as mulheres que gostariam de estudar para ser sommelières, eu recomendo estudar sobre vinhos, pois temos muito a contribuir para o setor. E para as mulheres que queiram estudar de forma mais informal ou descontraída, recomendo que comecem comprando bons livros. Hoje, existem muitos no mercado com uma linguagem mais didática, como os da inglesa Jancis Robinson. Esses também têm excelente fotografia e mapas nos quais pode-se aprender sobre cada uva e sobre as diferentes regiões. Por exemplo, começando com Sauvignon Blanc e estudando Bordeaux, Loire, Vale do Leyda, Casablanca, Marlborough etc., é mais fácil entender os diferentes estilos e começar pelas comparações.

E para as mulheres que apenas querem saber mais sobre vinho?

Eu também recomendaria comprar guias e livros que se possam usar não apenas para estudar os diferentes conceitos, mas também para comprar os vinhos recomendados. A melhor maneira de aprender é saborear, ter memória e registrar aquelas de que mais se gostam e, depois, aprofundar-se naquele tipo particular, investigando outras variedades.

Hoje, existem vários cursos on-line que podem ser seguidos e seminários abertos (webinars) muito interessantes, de diferentes regiões. Atualmente, com a pandemia, há muito mais acesso a informações técnicas rápidas, educacionais e de boa qualidade. Se alguém as seguir, pode se tornar um grande conhecedor de vinhos.

Com qual uva você gosta mais de trabalhar?

Sou apaixonada pela Sauvignon Blanc, sempre gostei muito de ir à vinha provar os frutos silvestres, fermentá-los e, depois, misturar. É uma uva que me seduz pelos aromas e grande frescor. E no Vale do Leyda, conseguimos fazer maravilhas devido ao clima frio e a proximidade com o Oceano Pacífico. Então, gosto muito da Sauvignon Blanc, porque é incrível a qualidade das daqui.

Outra variedade de que gosto é a Pinot Noir, porque para um enólogo é, de longe, a uva mais desafiadora. É muito delicada na vinha, tem uma pele muito frágil, que se desidrata facilmente, gosta de certos solos específicos e, na adega, também tem de receber um tratamento muito cuidadoso para se obter vinhos elegantes, minerais e tensos. Não é fácil e, pelo mesmo motivo, adoro o desafio que ela me impõe.

Em qual outra região do mundo gostaria de trabalhar?

Gosto muito de trabalhar em Viña Leyda, mas se tivesse de escolher outra região, adoraria trabalhar no Loire, especificamente em Sancerre ou Pouilly Fume. Adoro a Sauvignon Blanc dessas denominações, elas têm um tremendo terroir, solos muito interessantes e seus brancos são de grande caráter.

Tirando os vinhos que elabora, cite alguns que, sempre que pode, tem na adega.

Os vinhos do Chambolle Musigny ou Volnay (Borgonha-França) me atraem. Eles são ótimas referências para quem, assim como eu, gosta de Pinot Noir. Adoro o estilo deles.

Os vinhos da Viña Leyda são importados para o Brasil pela Grand Cru, uma das melhores empresas do setor. Confira alguns rótulos:

Leyda Single Vineyard Las Brisas Pinot Noir 2017
  • 93 pontos | R$ 200,90

Cheio de frescor e fruta, lembrando cerejas e framboesas. No final, deixa certa mineralidade no paladar.

Leyda Single Vineyard Las Brisas Pinot Noir 2017
Leyda Single Vineyard Las Brisas Pinot Noir 2017
Leyda Reserva Cabernet Sauvignon 2019
  • Valle del Maipo
  • 88 pontos | R$ 110,90

Mostra a tipicidade da Cabernet Sauvignon do Chile, com taninos muito finos.

Leyda Reserva Cabernet Sauvignon 2019
Leyda Reserva Cabernet Sauvignon 2019
Leyda Reserva Merlot 2019
  • Valle Central
  • 89 pontos | R$ 110,90

Um belo Merlot do Chile, com nuances de ameixa e cereja, notas de chocolate e tabaco. Taninos maduros e muita fruta ao paladar.

Leyda Reserva Merlot 2019
Leyda Reserva Merlot 2019
Leyda Reserva Syrah 2019
  • Valle de Leyda
  • 90 pontos | R$ 110,90

Vinho que mostra o potencial da uva no Chile. Intenso, fresco e suculento. Delicioso.

Leyda Reserva Syrah 2019
Leyda Reserva Syrah 2019
Leyda Reserva Pinot Noir 2019
  • Valle de Leyda
  • 89 pontos | R$ 110,90

Sem muito corpo, mas com muita elegância e intensidade. Combina bem até com pizza.

Leyda Reserva Pinot Noir 2019
Leyda Reserva Pinot Noir 2019
Leyda Lot 4 Sauvignon Blanc 2013
  • Valle de Leyda
  • 93 pontos | R$ 317,90

Vinho grandioso quando é lançado, mas que continua envelhecendo com muita qualidade. Passa três meses por barricas de carvalho, nas quais ganha mais complexidade, principalmente aromática. Notas florais e cítricas são seu cartão de visitas.

Leyda Lot 4 Sauvignon Blanc 2013
Leyda Lot 4 Sauvignon Blanc 2013

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Ricardo Castilho

Ricardo Castilho é diretor editorial de Prazeres da Mesa

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