
POR GUTA CHAVES
Belém desperta os sentidos antes mesmo de se sentar à mesa. O calor úmido envolve, o cheiro ácido do tucupi paira nas feiras, o colorido das frutas salta aos olhos e o som dos rios acompanha nossos passos. Esse cenário de diversidade amazônica pulsou ainda mais com os eventos e projetos realizados na cidade e arredores no segundo semestre de 2025: o Intercâmbio Amazônia e o 15º Festival Ver-o-Peso da Cozinha Paraense, ambos realizados pelo Instituto Paulo Martins e parceiros, além da COP-30, que acendeu o alerta para a crise climática e sua relação com os sistemas alimentares, sua cultura. “É impossível falar da cozinha paraense sem passar por identidade, memória e futuro”, afirma Joanna Martins, diretora do Instituto e filha do chef Paulo Martins, idealizador do Festival Ver-o-Peso, há 25 anos.
A cidade que recebeu os olhares do mundo nos últimos dias, tem a cena gastronômica ativa o ano todo: de mercados a áreas rurais, de bares a restaurantes, de museus a produtores. Confira um guia para continuar aproveitando Belém.
Casa do Saulo das Onze Janelas

Instalada numa bela construção histórica, a Casa do Saulo das Onze Janelas, une gastronomia e cultura com o Trio tapajônico – Dadinho de Farinha de Tapioca, Bolinho de Piracuí, isca de peixe com geleia de cupuaçu apimentada, geleia de bacon e maionese de pirarucu defumado – e drinques como o Banho de Cheiro, com espuma de jambu e perfume de patchouli; @casadosauloonzejanelas
Celeste

Se a cozinha paraense nasce da tradição, ela também encontra expressão na cozinha profissional. O Celeste, da chef Esther Weyl, aposta em narrativas autorais com ingredientes locais, que se mostram em preparos como o Patê de Fígado de Pirarucu e o Peixe com Pirão de Tomate; @celesteorestaurante
Filha do Combu
A 15 minutos de barco de Belém, a Ilha do Combu se dedica ao turismo ecológico de base comunitária. Lá encontramos um tesouro amazônico, a Casa do Chocolate Dona Nena, onde a marca Filha do Combu produz a iguaria a partir do cacau selvagem, resgatando a biodiversidade e práticas sustentáveis. O visitante é recebido com brigadeiro de massa de cacau 100% e chocolate quente 85%, além de ser levado a conhecer o cacau nativo, que convive em harmonia com outras plantas amazônicas; @filhadocombu
Manioca

Unindo tradição, segurança alimentar e inovação, a Manioca, hoje referência no setor, nasceu para valorizar os ingredientes locais. Criada por Joanna Martins, a fábrica desenvolve produtos como o “Shoyu Amazônico”, feito de tucupi preto e já incorporado à cozinha nipo-brasileira. Na loja da fábrica, o visitante encontra desde clássicos como tucupi e farinhas até especiarias como cumaru e puxuri, além de farofas e o feijão manteiguinha de Santarém, todos de pequenos produtores; @maniocabrasil
Mercado Ver-o-Peso

A maior feira a céu aberto da América Latina, às margens do rio Guamá. Entre barcos, garças e o aroma intenso do peixe fresco – o famoso pitiú –, o visitante se perde com gosto de cupuaçu, bacuri, taperebá, camapu (ou physalis), jambu e maniva. Vale reservar um tempo para sentar e apreciar o açaí moído na hora, servido tradicionalmente nas barracas em cumbuca com farinha d’água e um pouco de gelo, acompanhado de peixe frito, mistura de quente e frio que intensifica os sabores. No Mercado de Ferro, pirarucus e filhotes gigantes dividem espaço com micro camarões aviú. A ala das ervas medicinais e das garrafadas – preparos ancestrais à base de plantas da floresta para tratar tanto problemas de saúde, como para atrair amor, prosperidade e emprego –, evidencia o saber indígena e a pajelança. “O mercado é uma síntese da Amazônia: diversidade, espiritualidade e alimento”, define Joanna.
Meu Garoto

Na fábrica Meu Garoto Cachaçaria, em Ananindeua, com agendamento prévio, a estrela é a cachaça de jambu, envelhecida por um ano. O fundador Leo Porto mantém uma fazenda com árvores nativas, incentiva pequenos produtores e desenvolve técnicas que conciliam produção e biodiversidade. No boteco que originou a marca, em Belém, a cachaça é servida em combinações como com torresmo; @meugarotooficial e @botecomeugaroto
Museu da Mandioca

Na comunidade quilombola Espírito Santo do Itá, em Santa Izabel do Pará, o Museu da Mandioca homenageia a rainha da mesa não só amazônica, como brasileira. Tipitis, urupemas e panelas tupinambás contam histórias de engenhosidade indígena e resistência comunitária. Na Casa de Farinha, o visitante acompanha o processo artesanal: raízes descascadas, massa prensada, tucupi extraído e farinha torrada. Cada etapa guarda memória e afeto, base de pratos como tacacá e maniçoba. A comunidade também realiza o Festival da Mandioca, já em sua 10ª edição, reafirmando o alimento como cultura e resistência; @museudamandioca
Saldosa Maloca
Também na Ilha do Combu, o Saldosa Maloca Eco Restaurante, Dona Prazeres mostra o cuidado com o açaí – da lavagem ao branqueamento e moagem dos frutos –, garantindo uma polpa densa e cremosa. Ela também adota biodigestores para transformar resíduos em gás de cozinha e fertilizante, aproximando-se do ideal de um restaurante “lixo zero”. O passeio até a samaumeira centenária da ilha, com mais de 400 anos, completa a visita, entre macacos-de-cheiro, aves e reflexões sobre a força da floresta; @saldosamaloca
Santa Chicória

Privilegiando fogo e brasa, o Santa Chicória, de Paulo Anijar, serve Filhote Grelhado com Escabeche de Taperebá e a sobremesa Bacuri Brûlée. Sua sorveteria, a Mel & Sal Gelateria Botânica, localizada na parte de baixo da mesma casa, traz releituras em sabores como açaí com farinha; @santachicoria



