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Bollinger: conheça a história e os champanhes da Maison

Maison revela seu estilo marcado pela Pinot Noir, barricas antigas e longos períodos de maturação. Conheça sua história e quatro champanhes importados pela Mistral

Bollinger construiu ao longo de quase dois séculos uma assinatura difícil de confundir em Champagne. São vinhos de presença, com textura, fruta madura e uma estrutura que os coloca naturalmente à mesa, muito além do brinde. Essa personalidade nasce de escolhas mantidas geração após geração, com a Pinot Noir no centro da produção, o uso criterioso de barricas antigas e longos períodos de maturação nas caves. Uma combinação que faz do tempo parte essencial do estilo da Maison.

Essa identidade ficou clara durante a passagem por São Paulo de Morgane Renaud, diretora comercial da Bollinger, que apresentou quatro rótulos capazes de mostrar diferentes faces da casa: Special Cuvée, PN TX20, La Grande Année 2015 e La Grande Année Rosé 2014. No Brasil, os champanhes da Maison são importados pela Mistral.

Bollinger / Morgane Renaud, diretora comercial da Maison / Foto: Horst Kissmann
Bollinger / Morgane Renaud, diretora comercial da Maison / Foto: Horst Kissmann

Fundada em 1829 por Athanase de Villermont, Joseph Bollinger e Paul Renaudin, a Bollinger cresceu em torno de Aÿ, endereço histórico da Pinot Noir em Champagne. A variedade continua no centro de tudo e representa mais de 60% dos vinhedos da Maison. Na Special Cuvée, responde por 60% do corte. “Gostamos de falar dos pilares da Bollinger. O primeiro é a Pinot Noir”, explicou Renaud. Não é difícil entender o motivo depois de algumas taças. A casta aparece menos como uma assinatura aromática e mais como a espinha dorsal sobre a qual a casa constrói seus vinhos.

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Outro desses pilares está na madeira. Bollinger conserva cerca de 4 mil barricas, muitas delas bastante antigas, e mantém seu próprio tanoeiro, uma raridade em Champagne. Não se trata, porém, de buscar aquele carvalho ostensivo que chega antes da fruta. “Usamos muito carvalho pela textura e pelo perfil que ele dá ao vinho. Não usamos barricas novas”, contou Renaud. A madeira já bastante rodada permite uma troca lenta com o oxigênio e participa da construção da textura sem transformar o champanhe em vitrine de aromas tostados.

Talvez nenhuma imagem explique melhor a relação da Bollinger com o tempo do que sua coleção de vinhos de reserva. Nas caves repousam mais de 1 milhão de magnums, algumas guardadas durante muitos anos para alimentar futuros assemblages. É uma espécie de memória líquida da Maison, formada por vinhos de diferentes safras que entram em pequenas proporções nas novas cuvées e ajudam a manter a identidade da casa apesar das diferenças naturais entre cada colheita.

Bollinger / Foto: Horst Kissmann
Bollinger / Foto: Horst Kissmann

A primeira taça, Bollinger Special Cuvée, mostra justamente como essa engrenagem funciona. O brut sem safra leva 60% de Pinot Noir, 25% de Chardonnay e 15% de Meunier, com mais de 85% das uvas provenientes de Grands e Premiers Crus. Até o nome nasceu de uma pequena insubordinação. Em 1911, o agente britânico de Georges Bollinger considerou a expressão non vintage brut pouco elegante para o vinho que tinha diante de si e sugeriu Special Cuvée. O inglês ficou, assim como a grafia sem acento em Cuvée. Na taça, aparecem maçã madura, pera, especiarias e brioche, mas é a textura que chama mais atenção. Há cremosidade e estrutura suficientes para fazê lo avançar pela refeição sem ficar restrito ao aperitivo.

O PN TX20 coloca a Pinot Noir ainda mais sob os holofotes. Elaborado exclusivamente com a variedade, integra uma coleção criada pela Bollinger para explorar diferentes terroirs de Pinot Noir em Champagne. O código do rótulo funciona quase como uma coordenada: TX remete a Tauxières, na Montagne de Reims, protagonista desta edição, enquanto 20 indica 2020, sua safra base. Vinhos de reserva de anos anteriores entram no assemblage para acrescentar complexidade. “É uma celebração da Pinot Noir e do terroir de Tauxières”, disse Renaud. “É um Blanc de Noirs e mostra outra expressão da nossa variedade emblemática.” Na taça surgem cítricos, frutas de caroço e notas minerais, seguidos por fruta vermelha e uma boca ampla, fresca e precisa. É uma leitura da Pinot Noir marcada mais pela elegância e pela tensão do que pela potência.

Com La Grande Année 2015, a degustação ganha outra dimensão. A cuvée só é elaborada nas safras que a Maison considera excepcionais e passa por fermentação integral em barricas. O corte reúne 60% de Pinot Noir e 40% de Chardonnay provenientes de 11 crus, com Verzenay, Aÿ e Mareuil sur Aÿ entre as principais origens da tinta e Chouilly e Avize para a branca. O longo período sobre as borras completa a construção de um vinho em que a textura assume papel central.

Bollinger / Foto: Horst Kissmann
Bollinger / Foto: Horst Kissmann

A safra 2015 guarda ainda uma curiosidade particularmente Bollinger. A Maison possui uma floresta familiar em Cuis e passou a selecionar carvalho dali para produzir parte de suas próprias barricas. A ideia de acompanhar não apenas a origem das uvas, mas também a das árvores que participarão da vinificação, diz bastante sobre o grau de detalhe envolvido. Na taça, La Grande Année 2015 traz notas aromáticas de ameixa, frutas vermelhas, amêndoas e um tostado fino, tudo amarrado por acidez e uma longa sensação mineral. Tem volume sem peso e mostra por que certos champanhes ganham outra dimensão quando chegam à mesa.

La Grande Année Rosé 2014 leva essa vocação gastronômica adiante. O corte tem 63% de Pinot Noir e 37% de Chardonnay e recebe uma pequena parcela de vinho tinto da Côte aux Enfants, parcela histórica de Pinot Noir em Aÿ pertencente à Bollinger. É um detalhe importante para entender por que esse rosé não se comporta simplesmente como uma versão cor de rosa de La Grande Année. Framboesa, morango, cereja, pêssego e especiarias aparecem apoiados por estrutura, acidez e persistência. É um rosé de grande presença à mesa, capaz de acompanhar pratos que normalmente escapariam do repertório mais óbvio de um Champagne rosé.

As caves da Bollinger, aliás, guardam histórias extraordinárias. Em 2010, durante um inventário, a equipe encontrou uma adega que havia permanecido esquecida. Entre as garrafas descobertas estavam exemplares de 1830, apenas um ano posteriores à fundação da Maison. A descoberta ajudou a dar origem à Galerie 1829 e à La Réserve, espaços dedicados ao patrimônio histórico da casa. Poucas maisons conseguem transformar uma conferência de estoque em arqueologia líquida.

Outra personagem fundamental dessa história é Elisabeth “Lily” Bollinger. Viúva aos 42 anos, assumiu o comando da empresa em 1941, em plena Segunda Guerra Mundial, e permaneceu à frente da Maison durante três décadas. Sob sua gestão nasceram dois vinhos que ampliaram ainda mais a reputação da casa: o R.D., lançado em 1967 depois de longo envelhecimento sobre as borras e dégorgement recente, e o raríssimo Vieilles Vignes Françaises, elaborado a partir de Pinot Noir de vinhas que sobreviveram à filoxera.

A relação com a Inglaterra também rende um bom capítulo. Bollinger recebeu seu primeiro Royal Warrant da rainha Victoria em 1884, ligação com a família real britânica que atravessou gerações e chegou a Charles III. Depois veio outro inglês célebre, embora fictício. Desde Moonraker, de 1979, Bollinger mantém uma associação com James Bond que atravessa diferentes intérpretes de 007. É provavelmente uma das poucas maisons capazes de reunir na mesma biografia vinhas pré filoxera, uma floresta própria, a monarquia britânica e o agente secreto mais famoso do cinema.

@champagne_bollinger

@mistralvinhos

 

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