Brasil invade o omakase com ingredientes e experiência
No The Oriental Sushiya, Vini Ikeda costura um menu sazonal que cruza memória brasileira com técnica japonesa em 19 atos
No balcão enxuto do The Oriental Sushiya, onde tudo acontece a poucos centímetros do cliente, o Japão segue como método, mas o Brasil agora dita o repertório. Em cartaz até maio, o omakase “Brasilidades” é menos uma coleção de pratos e mais uma narrativa que percorre o país com sotaque próprio, sem folclore e sem caricatura.
Antes de chegar ao Brasil com essa liberdade criativa, o omakase percorreu um caminho curioso. A palavra vem do verbo japonês *makaseru*, que significa confiar ou deixar nas mãos de alguém. Surgiu no pós-guerra, quando os sushiyas de Tóquio lidavam com escassez e variação diária de ingredientes. Em vez de escolher peça por peça, o cliente aceitava o que o chef tinha de melhor naquele dia. Era, ao mesmo tempo, pragmatismo e gesto de confiança. Com o tempo, esse formato evoluiu para uma experiência autoral, quase performática, onde técnica, sazonalidade e sensibilidade definem o ritmo do serviço.

Outra curiosidade pouco óbvia é que, no Japão, o omakase tradicional não era pensado como algo longo ou ritualizado como vemos hoje fora do país. Muitas vezes, era direto, quase silencioso, com poucas peças servidas rapidamente no balcão. A ideia de menus extensos, com etapas quentes, sobremesas e harmonizações, é uma expansão contemporânea, muito influenciada por mercados como Estados Unidos e Brasil, onde o jantar se transforma em experiência.
É justamente nesse território ampliado que o chef e sake sommelier Vini Ikeda opera. Depois de um mergulho amazônico no ano passado, decidiu agora percorrer o país em múltiplas direções. O resultado é um menu de 19 etapas, que atravessa regiões brasileiras filtradas por técnica japonesa e memória pessoal.

Não há concessões fáceis. O mexilhão defumado à moda sulista chega com vinagrete de raiz forte e a delicadeza da alga mozuku. O akami de Blue Fin ganha outra leitura com goiaba e shiso crocante. Em um dos momentos mais emblemáticos, o dadinho de tapioca abandona o lugar de comfort food e encontra o uni, escoltado por masago e maionese de tinta de lula. Já a lula com purê de mandioquinha e ponzu de cupuaçu traduz bem o espírito da casa, onde contraste é linguagem, não efeito.
À frente do balcão, o chef Caio Kanai conduz o tempo do serviço com precisão. Cada etapa entra no ponto certo, com cortes limpos e cadência controlada. Ao lado de Ikeda, constrói uma cozinha que respeita a liturgia japonesa, mas não se intimida diante da mistura.

O cuidado com o shari é tratado como assunto sério. Não é um só arroz, mas dois, às vezes três, escolhidos conforme o peixe, preparados em donabe, com textura e acidez ajustadas milimetricamente. Entre uma peça e outra, entram pratos quentes que mudam o eixo da experiência e evitam qualquer monotonia.
No copo, o discurso segue afinado. A harmonização com saquês, pensada pelo próprio Ikeda, não é acessório, é parte da narrativa. Há precisão, mas também liberdade, inclusive para quem prefere explorar cervejas artesanais.

Com apenas nove lugares e serviço em horários fixos, o omakase mantém escala íntima e atenção integral. A experiência custa R$ 380 por pessoa e pede reserva antecipada. No fim, “Brasilidades” não trata o Japão como moldura nem o Brasil como tema exótico. É um encontro onde confiança, técnica e repertório caminham juntos, como pede a própria essência do omakase.
The Oriental Sushiya
Rua Luís Góis, 1499 – Saúde, São Paulo
Terça a sexta às 19h e 21h
Sábado às 13h, 15h, 19h e 21h
@theoriental.sushiya



