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Brasileiro entra em cena com vinho e música em Mendoza

Carlos Sanabria assina safra na Argentina e transforma a experiência em algo que começa na uva e termina no som

Mendoza sempre teve fama de lugar certo, onde tudo parece já ter sido calibrado entre altitude, sol e técnica. Mas de uns tempos para cá, o cenário começa a abrir espaço para um outro tipo de vinho, menos institucional, mais autoral, feito por quem chega sem vinícola, mas com ideia. É aí que entra Carlos Sanabria.

Sanabria não finca bandeira, circula. Trabalha como um enólogo em movimento, desses que preferem seguir a uva em vez de esperar por ela. Vai de terroir em terroir como quem muda de cozinha, ajustando mão, tempo e escuta. Em Mendoza, esse deslocamento ganhou corpo ao lado de Maurício Vegetti, nome experiente que abriu as portas para uma safra conjunta depois de uma conversa que começou despretensiosa e terminou em barrica.

O que vem daí são três vinhos que ainda nem chegaram ao mercado, mas já dizem bastante. Um Pinot Noir e dois Bonarda, escolhidos menos pelo óbvio e mais pela possibilidade de leitura. A ideia não é mostrar potência mendocina no volume máximo, mas trabalhar o que ela tem de mais interessante quando segurada na medida certa. Fruta viva, textura mais limpa, um certo frescor que não costuma ser o primeiro adjetivo da região.

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Mendoza / Foto: divulgação

Mendoza entra com tudo aquilo que já se espera, altitude, ar seco, noites frias, solo que drena rápido e concentra. Mas aqui esse pacote não vira peso, vira tensão. O vinho cresce, mas não grita. Fica mais na elegância do que na força, o que já diz bastante sobre a mão de quem está por trás.

O projeto funciona como um laboratório em tempo real. Nada de receita pronta. Cada lote nasce de tentativa, erro, ajuste fino e, principalmente, observação. Há uma recusa quase silenciosa em impor estilo antes de entender o que a uva quer dizer naquele lugar específico.

Mendoza / Foto: divulgação

E tem um detalhe que escapa do copo. Cada vinho vem acompanhado por uma trilha própria, playlists pensadas junto com os rótulos, como se a experiência precisasse de som para se completar. Pode soar acessório, mas não é. É uma forma de ampliar o vinho para além da técnica, puxando para o campo da sensação.

O pré-lançamento acontece em setembro, mas o movimento já está dado. Um brasileiro em Mendoza não como visitante, mas como parte ativa de uma cena que vem mudando rápido. Menos estrutura, mais assinatura. Menos fronteira, mais linguagem.

@sanabriavinhos

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Horst Kissmann

Editor de Vinhos e Bebidas || @kissmann

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