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Cabo Verde chega à mesa em forma de afeto na Kasa Crioula

No restaurante comandado por Fátima Moreno, em Lisboa, a cozinha cabo-verdiana aparece em pratos fartos, muito saborosos e sem pressa

Há restaurantes em que a hospitalidade começa antes do primeiro prato. Na Kasa Crioula, em Lisboa, ela tem nome: Fátima Moreno. Durante o jantar, a chef faz questão de passar pelas mesas, conversar com os clientes, perguntar se todos estão gostando da comida e se já conhecem a culinária de Cabo Verde. O gesto é simples, mas ajuda a explicar a alma da casa. Ali, a refeição não é só servida. Ela é apresentada, partilhada, quase acompanhada de perto por quem cozinha.

Pastel de milho com recheio de atum à Kasa Crioula (€ 4,00), entrada que apresenta o milho como marca da cozinha cabo-verdiana / Foto: Valéria Bretas

Cultura à mesa

A Kasa Crioula fica em Benfica e tem um salão colorido, de toalhas azuis, tecidos estampados nas mesas e referências visuais que remetem à cultura cabo-verdiana. Na parede, figuras desenhadas sugerem música, dança e convivência. É um ambiente sem afetação, mais próximo da ideia de “estar em casa” do que de restaurante cenográfico. Um dos fios condutores da gastronomia da Kasa Crioula é o milho. O pastel de milho com recheio de atum à Kasa Crioula (€ 4,00) traz o ingrediente como uma marca da cozinha cabo-verdiana. O pastel chega simples, dourado e sem excesso de apresentação.

Arroz de pato com especiarias by Kasa Crioula (€ 13,00), servido em uma travessa de barro / Foto: Valéria Bretas

Depois vem a cachupa refogada com linguiça e ovo estrelado (€ 12,90). A chef explica que o prato nasce da cachupa preparada no dia anterior. No refogado, o caldo da versão tradicional é absorvido pelos ingredientes, concentrando sabor e dando outra textura ao prato. Servida com ovo e linguiça, a cachupa refogada tem presença de comida de sustância, feita para acolher. Há algo de bonito em ver uma cozinha que reaproveita, transforma e dá continuidade ao prato de um dia para o outro. Mais do que uma técnica, parece um jeito de entender e respeitar a comida.

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Cachupa refogada com linguiça e ovo estrelado (€ 12,90), versão preparada a partir da cachupa do dia anterior / Foto: Valéria Bretas

Sem pressa

Essa talvez seja a melhor palavra para definir a experiência. A comida da Kasa Crioula tem sabor, mas também oferece memória. É uma cozinha que parece feita para alimentar sem pressa, em porções generosas, com uma alegria discreta que vem tanto do prato quanto de quem trabalha na sala.

Outra sugestão que se destaca é o arroz de pato com especiarias by Kasa Crioula (€ 13,00). Servido em travessa de barro, com rodelas de linguiça por cima, chega impecável. É um prato de conforto, daqueles que se sustentam mais pela execução correta do que por qualquer tentativa de reinvenção.

Bolo de banana com sorvete de baunilha (€ 2,50), sobremesa simples e afetiva da Kasa Crioula, em Lisboa / Foto: Valéria Bretas

Na sobremesa, o bolo de banana com gelado (€ 2,50) leva a refeição para um registro ainda mais afetivo. O sorvete, muito cremoso, é feito na própria casa. Já o bolo me traz aquele gosto de infância: lembrou bolos simples, úmidos e familiares, que parecem feitos para acompanhar uma conversa. Há ainda a Kasa Crioula (€ 12,90), prato emblemático da culinária cabo-verdiana e que também leva milho. Depois da versão refogada, a curiosidade pela cachupa tradicional é natural.

Por ali, Cabo Verde não aparece como uma ideia distante ou folclórica. Aparece no prato, na conversa da chef, na fartura da mesa e no cuidado de perguntar, um a um, se todos estavam felizes com o jantar.

Kasa Crioula

Rua Guiomar Torresão, 128, 1500-425, Lisboa, Portugal
@kasacrioula

Por Valéria Bretas (@valeriabretas)

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