Canaã dos Carajás mostra a sua vocação gastronômica
Cidade do sudeste paraense aposta no desenvolvimento de seu potencial turístico e apresenta anualmente um festival que celebra a gastronomia regional
Conhecida como um dos polos nacionais da mineração, Canaã dos Carajás, cidade localizada a mais de 700 quilômetros da capital, Belém, no Pará, costuma ser mais lembrada por sua principal atividade econômica do que por belezas naturais. Não é para menos. Afinal, o município, com cerca de 90 mil habitantes, surgiu de um assentamento agrícola criado em 1982 e tornou-se autônomo somente em 1994.
E com a descoberta das jazidas de cobre, níquel e ferro, passou a receber uma infinidade de trabalhadores de outros estados, para atuar no setor da mineração — e isso representou um grande impacto para a cultura local. “Aqui tem um pouco de tudo que o Brasil pode oferecer em técnica, ingredientes e cultura”, explica Marcos Médici, curador da Cozinha Show do Festival Canaã Gastronomia, que acontece anualmente na cidade paraense.
Nos últimos anos, o município localizado no sudeste paraense iniciou um movimento para desenvolver o potencial turístico e gastronômico da região. E uma das ações locais é o festival gastronômico, que reúne produtores e estabelecimentos locais. Iniciativa da prefeitura de Canaã dos Carajás em parceria Associação Comercial, Industrial e Agropastoril de Canaã dos Carajás (Aciacca), o evento tem feirinha gastronômica e praça de alimentação, além de manter uma programação repleta de shows e palestras. E a nona edição, que aconteceu entre os dias 30 de abril e 3 de maio, teve como tema “Sabores que nos unem: diversidade e memórias”.

O Pará em Canaã
O festival gastronômico trouxe uma seleção de pequenos produtores locais, que, em sua maioria, utilizam matéria-prima regional. Entre os expositores estava a Montecristo, que produz trufas a partir de chocolate bean to bar, elaborado com cacau da região. Outra é a Égua do Chip’s, que comercializa chips de banana e de raízes fornecidas por pequenos produtores e disponíveis em diversos sabores. Já a Laticínio Soberano, que produz lácteos como leite, iogurte, manteiga e queijos como mussarela é um dos poucos laticínios artesanais da região. “O nosso maior desafio é a escassez de matéria-prima, porque as grandes indústrias absorvem boa parte da produção de leite local”, diz Cleo Pires, que é proprietária da marca.
Além de apresentar as suas especialidades, estabelecimentos como bares, restaurantes, hamburguerias e pizzarias também trouxeram criações exclusivas para o evento — elaboradas com ingredientes tipicamente paraenses. Enquanto a pizza lombo “canaense” (massa de longa fermentação, molho de tomate, mussarela, lombo canadense, geleia de tucupi e orégano de jambu) foi apresentada pela Naps Pizzaria Artesanal, o Sr. Petisco levou para o festival o bolinho de pirarucu com geleia de flor de jambu. Já o pastel com recheio de maniçoba e geleia de cupuaçu foi a sugestão da Pastel da Dona Neuzila. E o Jazz Burgers apresentou o burger pai d’égua (camarão, mussarela, disco empanado de cream cheese, jambu, tucupi e geleia de pimenta no pão de brioche) — o sanduíche conquistou o primeiro lugar em concurso realizado durante o evento.
Destaques da programação
O evento também contou com a Cozinha Show, onde aconteceram uma série de palestras. A programação teve chefs convidados, como Regina Tchelly, que é idealizadora do projeto Favela Orgânica, no Rio de Janeiro, e falou sobre o aproveitamento integral dos alimentos. “Essa é a melhor forma de retribuir o que a terra nos dá”, disse ela, durante a sua palestra.
A atração principal foi Saulo Jennings, da Casa do Saulo, com sede em Santarém (PA), que foi eleito chef do ano em 2024 pela Prazeres da Mesa. Para uma plateia lotada, ele compartilhou um pouco de sua trajetória profissional e celebrou a busca da cidade por sua identidade gastronômica. “Ver essa iniciativa de colocar a gastronomia de território em primeiro plano é emocionante”, afirma Jennings, que é embaixador gastronômico da ONU Turismo no mundo.
O chef também ressaltou a importância de se valorizar os produtos da região. “A nossa maior responsabilidade é sermos difusores dos produtores locais. Para isso, é essencial mapear tudo que tem de melhor na região e trazer para dentro do restaurante”, aconselhou.

Próximos passos
Além de eventos como o Canaã Gastronomia, diversas ações vêm sendo realizadas no município, com o objetivo de transformá-lo em um destino turístico e gastronômico. “A gente sabe que o minério é finito e, com isso, o investimento no turismo se torna necessário”, explica o chef Rafael Seabra, que é docente do curso de gastronomia da Universidade do Estado do Pará (UEPA).
Um exemplo dessas mudanças é o Parque Municipal Veredas dos Carajás. Instalado em uma antiga fazenda de gado, a reserva ambiental reúne 29 nascentes e, em 15 anos, teve mais de 70% da sua área reflorestada. Outra iniciativa local é o Parque do Mirante, complexo que está em construção e promete se tornar um dos cartões-postais de Canaã dos Carajás. Com elevadores panorâmicos e vista privilegiada para a cidade, o local terá uma área de alimentação, que contará com restaurantes locais.
A Feira do Produtor Rural e Mercado Municipal Clarindo Moraes da Silva passou por um processo de revitalização e, em breve, voltará a ser ocupado por comerciantes de frutas, hortaliças e diversos produtos regionais. E também terá um espaço para aulas de capacitação profissional.
Para além das políticas públicas, é preciso desenvolver a identidade gastronômica de Canaã dos Carajás (PA). “Isso vai fazer com que as pessoas comecem a valorizar o que é nosso. É a forma de desenvolver a cadeia produtiva e a produção local”, diz Seabra, que também ministra aulas de gastronomia na Usina da Paz da cidade, complexo mantido pelo governo estadual que promove oficinas voltadas para pessoas em situação de vulnerabilidade social.
Por Cintia Oliveira*
* A jornalista viajou a convite do Festival Canaã Gastronomia



