Champagne além dos clássicos
Entre Maisons históricas, vignerons e novas leituras do terroir, Champagne revela um universo que vai muito além dos rótulos mais conhecidos e convida a ampliar o repertório sem abrir mão da tradição.
Tenho uma confissão a fazer antes de começar: eu adoro os clássicos. Gosto da tradição, da história e de tudo aquilo que resistiu ao tempo. E, quando falamos de Champagne, é praticamente impossível tratar desse legado sem passar pelas grandes Maisons. Ruinart, fundada em 1729 e reconhecida como a primeira Maison de Champagne, é um ótimo exemplo. Dom Thierry Ruinart pertence à mesma história beneditina que nos leva a Dom Pérignon, dois personagens que nos transportam às origens e à construção da história da região. Talvez seja justamente essa capacidade de atravessar os séculos que transforme alguns nomes em algo maior do que marcas. Eles se tornam referências.
Bernard Arnault, CEO da LVMH, resumiu isso de uma maneira que adoro ao colocar lado a lado dois ícones de universos completamente diferentes: o iPhone e Dom Pérignon. “Can you say that in 20 years people would still use the iPhone? Maybe not. What I can say today is that, in 20 years, I’m quite convinced that people will still drink Dom Pérignon.” Em tradução livre: “Você pode afirmar que daqui a 20 anos as pessoas ainda usarão o iPhone? Talvez não. O que posso dizer hoje é que estou bastante convencido de que, daqui a 20 anos, as pessoas ainda estarão bebendo Dom Pérignon.” Eu tendo a concordar. Clássicos são clássicos justamente porque sobrevivem ao tempo.
Mas os grandes nomes de Champagne não atravessaram o tempo apenas dentro das caves. Eles entraram na arte, na moda, no esporte e, principalmente, na nossa maneira de celebrar. Perrier Jouët Belle Epoque talvez seja um dos exemplos mais românticos. Poucas garrafas conseguem nos transportar para uma época antes mesmo de serem abertas. As anêmonas brancas desenhadas por Émile Gallé, em 1902, parecem nos levar diretamente ao universo da Art Nouveau. Há algo de poético em pensar que, mais de um século depois, aquelas flores continuam envolvendo uma garrafa de Champagne e contando uma história sobre arte, natureza e beleza.

G.H. Mumm nos leva para outro lugar. Se Belle Epoque nos convida para um salão Art Nouveau, Mumm nos coloca no pódio. Durante anos, sua imagem esteve ligada às grandes celebrações esportivas e, de maneira especialmente marcante, à Fórmula 1. A garrafa aberta no alto do pódio, o Champagne lançado ao ar e a vitória compartilhada diante das câmeras formam uma das imagens que traduzem mais imediatamente essa associação entre Champagne e celebração. Talvez seja exatamente esse o ponto. As grandes Maisons não se tornaram grandes por acaso. Elas construíram histórias, símbolos, estilos e rituais que atravessaram gerações.
Não tenho nenhuma intenção de convencer alguém a deixar de pedir Dom Pérignon, Krug, Ruinart, Veuve Clicquot, Perrier Jouët, Mumm ou Moët & Chandon. Eu mesma não deixaria. A questão é outra: o que pedir depois deles? Talvez uma das partes mais divertidas de gostar de Champagne seja justamente descobrir que, depois que reconhecemos os grandes clássicos, existe um universo enorme esperando para ser explorado. E ele nunca esteve tão interessante.
Nas últimas décadas, Champagne se tornou um território de enorme diversidade. Diferentes terroirs, filosofias de vinificação, interpretações das três principais uvas, trabalhos com madeira, reservas perpétuas, parcelas específicas e produtores com identidades cada vez mais marcantes passaram a dividir a atenção de quem deseja compreender a região um pouco além dos rótulos mais conhecidos. Isso não significa trocar tradição por novidade. Significa ampliar repertório. É como gostar de Chanel e, ainda assim, querer saber quem são os novos nomes interessantes da moda. Uma coisa não elimina a outra. Pelo contrário: quanto mais referências temos, melhor entendemos por que determinados clássicos se tornaram clássicos.

É com esse espírito que proponho sair, por alguns minutos, do circuito mais óbvio dos grandes grupos e olhar para Champagnes que já estão disponíveis no Brasil, mas que talvez ainda não sejam os primeiros nomes que vêm à cabeça quando alguém decide pedir uma garrafa. Alguns são pequenos produtores. Outros, curiosamente, são Maisons históricas e importantes que permanecem menos conhecidas do consumidor brasileiro. Há ainda nomes comandados por personagens que ajudaram a escrever a história recente de algumas das casas mais famosas de Champagne. É o caso de Dominique Demarville, uma das figuras mais respeitadas da região, que esteve durante anos à frente das caves da Veuve Clicquot e hoje conduz a elaboração dos Champagnes Lallier.
É aí que a história começa a ficar divertida, porque a ideia aqui não é descobrir “o novo Dom Pérignon”. Dom Pérignon já existe e está muito bem onde está. A ideia é descobrir o que mais vale a pena colocar na taça. Hoje pertencente ao Campari Group, Lallier chega ao Brasil com sua coleção Réflexion e uma proposta particular: a numeração ajuda o consumidor a entender o que está bebendo. Na R.020, por exemplo, o “020” indica 2020, sua safra base predominante, complementada por vinhos de reserva. No Brasil, estão disponíveis Réflexion R.020 Brut e Rosé, uma ideia que parece conversar justamente com um público cada vez mais atento ao que coloca na taça.
“Por muito tempo, o consumidor brasileiro se satisfez com as grandes Maisons que chegavam ao país e que tiveram um papel fundamental na construção do mercado. Hoje, porém, vemos um consumidor muito mais maduro, informado e curioso, que busca ir além dos nomes mais conhecidos e se interessa por diferentes estilos e interpretações. A nova geração também impulsiona essa transformação, trazendo um olhar mais interessado em Maisons menos óbvias, mas igualmente autênticas, relevantes e capazes de oferecer novas experiências”, afirma Victoria Sarro, Brand Manager da Maison Lallier no Brasil.

Charles Heidsieck talvez seja a prova de que tradição e irreverência podem, sim, dividir a mesma taça. A Maison chegou ao Brasil este ano em um evento que já anunciava suas intenções: gastronomia, boas mesas e bolhas que prometem fazer barulho pelo país. Charles, afinal, nunca foi exatamente um personagem discreto. O célebre Champagne Charlie atravessou o Atlântico no século XIX, conquistou a América e deixou como herança uma Maison que até hoje carrega seu nome e, principalmente, sua personalidade. Por aqui, Brut Réserve, Rosé Réserve e Blanc de Blancs começam essa história, com um estilo profundamente gastronômico e pensado para a mesa. A expectativa é que, até o final do ano, novos rótulos e safras consagradas movimentem ainda mais a jornada de Charles Heidsieck no Brasil.
Entre os últimos nomes desta seleção, dois Champagnes carregam um código cada vez mais presente entre aqueles que gostam de olhar para além das bolhas: o da menor intervenção. Esse caminho vem ganhando cada vez mais espaço em Champagne, mas, para mim, precisa vir acompanhado de responsabilidade. Gosto da liberdade e da busca por uma expressão mais pura, desde que isso não signifique abrir mão da tipicidade. Essa é uma das minhas condições para reconhecer um grande Champagne: ele pode surpreender, provocar e até fugir do convencional, mas precisa continuar sendo Champagne.
Leclerc Briant traduz muito bem esse universo ao atuar como precursor de muitas inovações sem perder sua ligação com a tradição. Fundada em 1872, em Cumières, e hoje estabelecida em Épernay, a Maison foi uma das pioneiras em Champagne na viticultura orgânica e biodinâmica, com um olhar voltado ao solo, à biodiversidade e a uma elaboração menos intervencionista. Desde 2012, sob o comando do casal americano Denise Dupré e Mark Nunnelly, preserva essa essência enquanto mantém aberta a via da experimentação, incluindo estudos com o envelhecimento de Champagne no fundo do mar. Andrea Santos, consultora da Cellar Vinhos, igualmente entusiasmada com esse consumidor atento às mudanças, cita Leclerc Briant Réserve Extra Brut como uma porta para novos horizontes em busca de algo diferente, um ótimo exemplar de Champagne que carrega uma história conectada à modernidade.

Eu não poderia terminar este artigo sem falar dos Champagnes de Vignerons. Mais do que uma categoria, esse modelo nos aproxima de uma leitura muito particular de Champagne, construída a partir da identidade de quem cultiva, interpreta e transforma seu próprio terroir. E vale fazer a distinção: vigneron não é necessariamente sinônimo de natural ou de baixa intervenção. O termo fala, antes de tudo, dessa relação direta entre produtor, vinha e elaboração.
Bérêche & Fils é um bom exemplo dessa filosofia. À frente do domaine familiar, os irmãos Raphaël e Vincent Bérêche são obcecados pela ideia de terroir e colocam a identidade de cada parcela no centro de seu trabalho. O Campania Remensis Rosé traduz bem esse olhar e foge do convencional: ao vinho base é acrescentada uma pequena proporção de Coteaux Champenois Rouge, vinho tinto tranquilo produzido em Champagne. Para Anna Rita Zanier, consultora da Anima Vinum, o Pinot Noir é uma “uva mãe” que, mesmo despida de sua casca escura, mantém força, estrutura e complexidade. Nesse assemblage, ele contribui para um Champagne mais sedutor, complexo e gastronômico.
Se, ao final destas linhas, nosso repertório ficou um pouco maior, então a ideia deste artigo está cumprida. O que vem depois fica por conta das próximas taças.
Santé!
Por Daniella Abad (@daniellaabad)



