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Château de Reignac e a arte de desafiar as certezas de Bordeaux

À frente do château, o casal Yves e Stéphanie Vatelot construiu uma trajetória pouco convencional em Bordeaux, marcada por experimentação, degustações às cegas e pela ambição de entregar qualidade acima do que sugere a classificação no rótulo

Bordeaux talvez seja a região vinícola do mundo em que o endereço mais pesa sobre uma garrafa. Pauillac, Margaux, Saint Émilion e Pomerol chegam à mesa acompanhados por séculos de reputação, classificações, safras históricas e preços que muitas vezes começam a contar a história antes mesmo de a rolha sair.

O Château de Reignac vive em outro pedaço desse mapa e talvez seja justamente aí que as coisas fiquem interessantes. Yves e Stéphanie Vatelot, que estiveram recentemente no Brasil para apresentar os vinhos da propriedade, importados pela Clarets, chegaram a Reignac em 1990, quando compraram o château em Saint Loubès, na região de Entre Deux Mers. A propriedade tem origens no século XVI, mas o casal não desembarcou ali apenas para conservar o passado.

Empresário e inventor antes de se tornar homem do vinho, Yves levou para os vinhedos a mesma curiosidade de quem desmonta uma máquina para descobrir como ela pode funcionar melhor. Nas décadas seguintes, praticamente tudo entrou em observação. Vinhedos foram reorganizados, instalações renovadas e experiências começaram a aparecer dentro e fora da adega.

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Em 1993, um lago foi criado na propriedade e passou também a colaborar na proteção dos vinhedos contra geadas. Cinco anos depois, um antigo pombal do século XVI ganhou uma segunda vida bastante apropriada à personalidade de Reignac e foi transformado em uma torre dedicada a degustações às cegas.

Há ainda uma estufa desenhada por Gustave Eiffel, uma daquelas curiosidades que acrescentam outra camada a um château que nunca pareceu muito interessado em seguir apenas o roteiro esperado. Michel Rolland passou a atuar como consultor enológico, enquanto Yves e Stéphanie aprofundavam o estudo das parcelas e das diferenças existentes dentro da propriedade.

Château de Reignac / Foto: Horst Kissmann

O encontro das margens em Reignac

A maior surpresa de Reignac, afinal, está debaixo dos pés. Seus cerca de 80 hectares reúnem composições de solo bastante distintas. Em determinadas parcelas aparecem argila e calcário, combinação imediatamente associada à margem direita de Bordeaux e especialmente favorável à Merlot.

Em outras, os cascalhos remetem às condições encontradas na margem esquerda, território clássico da Cabernet Sauvignon. Em uma região cuja identidade foi construída em boa medida a partir da divisão entre as duas margens, Reignac encontrou dentro dos limites de uma mesma propriedade características normalmente associadas aos dois lados. É explorando esse mosaico que os Vatelot desenham seus vinhos, trabalhando Merlot, Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc nos tintos e reservando áreas específicas para as variedades brancas.

Château de Reignac / Foto: divulgação

Inovações na vinícola

É também na adega que aparece com mais clareza a inquietação de Yves. O melhor exemplo é Balthus, elaborado exclusivamente com Merlot e nascido de uma ideia que levou Vatelot a desenvolver e patentear um sistema de fermentação em barricas de carvalho.

Em vez de o vinho encontrar a madeira apenas depois de fermentado, parte do processo acontece dentro dela, com barricas que podem ser movimentadas para aumentar o contato com as borras.

A experiência começou em 2002 e acabou influenciando também a elaboração de outros vinhos da casa. Balthus tornou se uma espécie de laboratório para as ideias de Reignac, embora a palavra laboratório não deva ser confundida com um vinho experimental na taça.

A proposta é ambiciosa, com concentração, textura, fruta, madeira e capacidade de evolução, além da intenção de mostrar até onde a Merlot cultivada naquele endereço pode chegar.

Château de Reignac / Foto: divulgação

Entre os mais consagrados

Se existe, porém, uma história capaz de resumir o espírito de Reignac, ela envolve garrafas encobertas. Em 2009, o Grand Vin de Reignac 2001 entrou em uma degustação às cegas organizada pelo Grand Jury Européen, em Paris. Na mesa estavam alguns dos nomes mais reverenciados de Bordeaux, entre eles Petrus, Château Latour e Château Lafite Rothschild. Quando as identidades foram reveladas, Reignac havia terminado em segundo lugar.

É uma história tentadora para qualquer produtor e, naturalmente, passou a fazer parte da narrativa da propriedade. Mas seu interesse vai além da ideia simplista de que um vinho teria derrotado outro. Uma prova às cegas não reescreve as classificações de Bordeaux e tampouco transforma Reignac em Petrus ou Lafite. Ela faz algo mais divertido: bagunça nossas certezas e coloca novamente na mesa a velha questão sobre quanto da percepção de um grande vinho está efetivamente na taça e quanto chega antes dela, carregado pelo nome, pela denominação, pela classificação e pelo preço.

Château de Reignac / Foto: divulgação

Não por acaso, a recente apresentação brasileira começou justamente mostrando que Reignac não vive apenas de seus tintos mais ambiciosos. A sequência abriu com Reignac Blanc 2023 e Reignac Rosé 2024, antes de avançar para Château de Reignac 2019 e R de Reignac 2021. Duas garrafas com maior tempo de evolução fecharam o percurso, Château de Reignac 2014 e Balthus 2016. O branco nasce de Sauvignon Blanc, Sémillon e Sauvignon Gris cultivadas em uma área de grandes cascalhos escolhida pelos Vatelot para essas variedades. O rosé leva a propriedade para uma leitura mais fresca, enquanto a passagem aos tintos deixa mais evidente a construção do portfólio e, principalmente, o papel do tempo naquilo que Reignac pretende mostrar.

Château de Reignac / Foto: divulgação

Château de Reignac funciona como uma das portas de entrada para o estilo da propriedade, enquanto R de Reignac segue por outro caminho dentro da coleção. Grand Vin de Reignac sobe o tom em seleção, estrutura e pretensão de guarda, e Balthus ocupa o topo dessa construção, concentrando a aposta de Vatelot na Merlot e em sua maneira particular de vinificá la.

Colocar Château de Reignac 2014 e Balthus 2016 na mesma sequência dos vinhos mais jovens também foi uma escolha importante. Bordeaux não é feito apenas para ser compreendido no lançamento, e alguns anos de garrafa mudam consideravelmente a conversa. A fruta começa a dividir espaço com aromas de evolução, a madeira se integra, os taninos mudam de textura e aquilo que inicialmente poderia parecer força começa a revelar outras camadas.

@chateaudereignac
@claretsbrasil

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