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Chefs de mercados

Na capital europeia da gastronomia, recheada de restaurantes Michelin, cozinheiros brilham em espaços pouco convencionais

FOTOS: BEEHYPE MEDIA E DIVULGAÇÃO

Eleita a Capital Europeia da Cultura Gastronômica de 2025, Madri vive dias consagrados no quesito turístico e gastronômico. Muito além do renomado Madrid Fusión e do Salón Gourmets, organizado pela revista Gourmet – que em abril recebeu 2.100 expositores de 31 países do mundo. A cidade soma 29 restaurantes com estrelas Michelin, incluindo o DiverXO, do internacional e performático chef Dabiz Muñoz, único com a distinção máxima.

Debaixo do céu estrelado de Madri, contudo, há uma série de chefs qualificados se destacando em lugares menos convencionais. E nem por isso indignos de premiação: basta se lembrar da tailandesa Jay Fai, que atingiu o estrelato ao vender omelete de caranguejo em uma barraca de rua. Em mercados municipais da cidade, ao lado de tendas de ingredientes de origem, estão os restaurantes de alguns deles. 

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Roberto Martínez Foronda, que já passou pelo El Celler de Can Roca, é um desses chefs. No Tripea, aberto em 2017, no Mercado Valle Hermoso, e no Triperito, inaugurado no último ano, no Mercado de La Paz, ele executa uma cozinha que mescla Sudeste Asiático e Peru. “Necessito ter pessoas locais que equilibrem o sabor de receitas mais específicas”, diz o chef, que conta com peruanos na equipe. “Nunca em minha vida tinha provado algo parecido com a comida peruana autêntica. A combinação de sabores ácidos, doces, amargos, picantes… é uma festa na boca. Você sai da sua zona de conforto.”

Particularmente apaixonado pelo país latino-americano – em que trabalhou no Malabar e no Maido – e por suas salsas (molhos), no segundo restaurante Roberto segue a mesma linha, mas com ceviches e tiraditos. No primeiro, dotado de mais ousadia, ele só (eu disse: só) serve menu degustação. São oito tempos, com a possível adição de extras do dia, entre ostras com salsas itinerantes e variações sobre o bikini, tipo de misto muito consumido no país europeu. Como em quase toda a Espanha, os vinhos e vermutes vencem os coquetéis e há opções de rótulos de pequenos produtores, sem harmonização formal, que podem ser pedidos de forma descontraída. Em uma mesa longa, alta e compartilhada por 20 comensais, entre jovens descolados e senhores vestindo blazers, são servidas criações complexas em sabor e técnica, e o serviço é tão orquestrado quanto entre quatro paredes. Há um turno no almoço, outro no jantar.

Premiada ou não, para Roberto, a comida deve ter, acima de tudo, sabor. O bao recheado de lomo saltado foi um dos meus pratos preferidos do menu, ao trazer lembranças distantes do buraco quente brasileiro. Fora da zona de conforto, porque é importante, a alcachofra confitada e frita com béarnaise de huacatay (erva aromática andina) e o polvo com leite de tigre e parmesão também ficaram na memória.  

Outro latino

Os chefs Genaro Celia e Agustín Mikielievich

A poucos metros dali – 1.200 metros e 16 minutos a pé, para ser mais exata –, o Insurgente, dos chefs Genaro Celia y Agustín Mikielievich, formados na Le Cordon Bleu e com passagens por restaurantes estrelados, fica dentro do Mercado de Chamberí. Enquanto o Tripea funciona com reservas, ali a regra é só chegar – porém, cedo. Basta deixar passar 10 minutos das 13h, de uma quinta-feira, que a fila cresce. 

A agilidade na entrega dos pedidos beira a de uma lanchonete ou restaurante tradicional. Os pratos fogem da convencionalidade. Com influências argentina e colombiana, terra de Agustín e Genaro, respectivamente, há, no cardápio, empanadas e molleja (timo), mas também pão de queijo (sim!) com curry e coco, bao de brisket e tartar de atum com maionese de missô. São 15 pratos, incluindo duas sobremesas. O fato de estar em um mercado faz com que muitas pessoas diferentes circulem por ali – para elas, todo prato é novidade. “Nós vamos incluindo sugestões, como as ostras, ceviches, tiraditos, aspargos, e pratos de influência chinesa e coreana”, diz Agustín. Entre os pratos novos estão: tiradito de peixe curado com labneh picante, taco de frango crocante tandoori glaceado com manga picante e udon com molho e pó de chouriço ibérico e limão fresco.

No Insurgente, o cliente faz o pedido e ele mesmo o retira, ao apito e à luz da comanda eletrônica, como em um shopping. Ao redor das muitas mesas largas e extensas que ocupam a praça de alimentação, há cervejaria artesanal, casa de lámen e afins. Dali, é possível ver os boxes de produtos frescos, prestes a fechar para a siesta. “O guanciale que usamos na massa é de uma charcutaria daqui, o queijo parmesão também. Aqui se consegue o que se quer. Há trufas, na peixaria da frente, lagosta…”, diz ele. “Se você quer comer uma ostra ali, eles a abrem para você. Temos produtos de boa qualidade.”

Com um dia livre em Madri, vale a visita a esses restaurantes – e por que não também às lojas dos mercados? Só não vale chegar na hora da siesta

Insurgente – Mercado de Chamberí, Calle de Alonso Cano, 10, Puesto 6, Chamberí, Madrid, Espanha; @insurgente.cocina

Tripea – Mercado de Vallehermoso Mercado Vallehermoso, Calle de Vallehermoso, 36, Chamberí, Madrid, Espanha, tel.: (+34) 918 28 69 47; @tripea_madrid

Triperito – Mercado de La Paz, Calle de Ayala, 28, Salamanca, Madrid, Espanha; @el.triperito

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Ana Mosquera

Redatora-chefe | @al.mosquera

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