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Os únicos colares

Colares é um caso evidente de uma região vinícola presa ao romantismo, uma espécie de monumento à perseverança do homem, um hino à loucura, um somatório de circunstâncias contraditórias

Pouco ou nada faz sentido na região vinícola de Colares e o desafio à lógica é uma constante na denominação. Por que é que alguém quereria plantar vinhas em chão de areia, com solos em tamanha profundidade? Por que é então que alguém plantaria vinhas em um clima de influência atlântica tão marcada no qual chove quase todos os dias? Por que é que alguém apostaria em uvas tão caprichosas como a Ramisco e a Malvasia de Colares, uvas de maturação tardia e de temperamento tão complicado? Por que é que alguém cultivaria vinhedos em um dos locais mais ventosos e agrestes da costa portuguesa, a escassos metros do Oceano Atlântico?

Se nos limitarmos a uma análise racional, Colares é um contrassenso. Os resultados deveriam ser desastrosos e os vinhos produzidos deveriam ser quase imbebíveis. No entanto, e desafiando toda a lógica, os vinhos de Colares estão entre os vinhos mais interessantes, singulares e temperamentais do mundo. Uma análise ausente de paixão e sustentada pela evidência patente na enorme complexidade e personalidade dos rótulos de Colares. Vinhos intemporais, francos e complexos, aparentemente ligeiros e de expressão dura que podem viver séculos, vinhos clássicos que conseguem se mostrar simultaneamente rudes e elegantes.

Vinhos que podem ser encantadores com a idade, mas que nunca escondem um lado duro e agreste, vinhos autênticos que combinam certa dose de ingenuidade com um carácter peculiar. São joias autênticas do património vinícola internacional, originais, de uma autenticidade e identidade espantosas. Por serem tão diferentes, poderão chegar a ser incompreendidos e injustiçados. Porque, há que dizê-lo, são vinhos quase sem fruta, terrosos no caráter, salinos, com baixíssimo teor alcoólico, ou seja, vinhos ao avesso das tendências enológicas contemporâneas.

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Internacionalmente reconhecida

Colares continua a ganhar prestígio internacional, com reportagens de página inteira no New York Times, despertando fascínio e uma capacidade de influência superior à real relevância da denominação. Cada vez se fala mais sobre Colares, se escreve mais sobre Colares, mas, infelizmente, ainda se bebe pouco Colares… porque a produção é muito escassa.

Porque em Colares, situada a escassos 30 quilômetros de Lisboa, tudo é diferente, tudo é estranho e as práticas que nos habituamos a reconhecer em todas as regiões do mundo, a “normalidade” do vinho, são conceitos estranhos à região. Nada faz sentido em Colares, dos vinhedos à adega, da filosofia à prática. A região é pequena e hoje subsistem poucas vinícolas, tal como tem sido a norma no decorrer de quase todo o último século. Se os tintos impressionam pela clareza, rusticidade, elegância, nobreza e inteligência, os brancos são ainda mais surpreendentes pela originalidade, salinidade, excentricidade e pela notável capacidade de resistência. Mais que singulares ou extraordinários, são vinhos memoráveis que retratam a loucura do homem, a singularidade de uma região que tem tudo para ser uma das referências de Portugal.

Excentricidades da região

Uma simples viagem turística a Colares é, então, mais que suficiente para explicar as excentricidades da região. Vinhas velhas, quase sempre muito velhas, centenárias, plantadas em solos de areia fina e solta. Areia tão fina que em muitos vinhedos só encontramos solo firme a 7 metros de profundidade. Plantar um vinhedo em tais condições, com fundações tão profundas e em solo tão instável, é uma aventura perigosa e custosa. Por as vinhas se situarem em cima do Atlântico, presa fácil dos fortes ventos marítimos, a vinha tem de assumir uma condução rastejante que lhe permita sobreviver à inclemência marítima. Apesar da condução rasa, tal prática, por si só, não constitui proteção suficiente para a sobrevivência da videira, obrigando a que a cada 5 metros se tenham de construir pequenos muros de canas, expediente simples para ser usado como barreira natural à força do vento marítimo.

A condução rastejante da videira faz com que os cachos das cepas fiquem em contato com a areia do chão, o que leva ao apodrecimento das uvas. Por isso, cada cacho tem de ser suavemente levantado com pequenas canas, cacho a cacho, em uma operação cara e demorada que é indispensável para a sobrevivência de cada cepa. Se a tudo isso somarmos duas castas tão difíceis como a Ramisco (tinta) e a Malvasia de Colares (branca), com rendimentos muito baixos e uma acidez pungente, maturações tardias e pouco aromáticas, percebe-se que, Colares, não é uma região para vinícolas sem coragem e, ao mesmo tempo, é a única região europeia que nunca sofreu com a filoxera e onde as vinhas continuam ainda hoje a ser plantadas em pé-franco, sem a necessidade de recorrer a porta-enxerto. Ainda hoje existem dezenas de cepas com mais de um século, patrimônio genético de valor incalculável.

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Rui Falcão

Jornalista português e fundador do Congresso Must-Fermenting Ideias

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