Durante muito tempo, café filtrado foi tratado quase como gesto automático de cozinha. Água quente, pó, coador e rotina. Só que o universo dos especiais resolveu desmontar essa simplicidade aparente e transformar cada detalhe numa espécie de ciência sensorial. Hoje, alguns segundos a mais na extração, um ajuste mínimo na moagem ou poucos mililitros fora do eixo ideal conseguem mudar textura, acidez, doçura e até a memória que fica depois do gole. Foi exatamente essa tensão entre técnica e percepção que tomou conta do Chora Café, em Botafogo, escolhido para receber a etapa Sudeste da Hario Brewer’s Cup, competição internacional da tradicional marca japonesa Hario dedicada ao método V60.
A escolha do endereço carioca não aconteceu por acaso. Nos últimos anos, o Chora virou um dos pontos mais interessantes da nova geração de cafeterias brasileiras justamente por tratar o café menos como commodity e mais como ingrediente vivo. À frente da operação, o barista e sócio Rodrigo Neves construiu uma reputação baseada em microlotes, produtores de pequena escala, cafés de origem e perfis sensoriais menos previsíveis. Em vez da torra excessiva que dominou cafeterias durante décadas, entram em cena bebidas mais delicadas, vibrantes e cheias de nuances.
Competição
Na Copa Hario, porém, não basta ter repertório. É necessário controle absoluto. Todos os competidores utilizam exatamente o mesmo café, a mesma água e os mesmos equipamentos. O diferencial aparece nos detalhes quase invisíveis: velocidade do despejo, desenho da extração, granulometria, turbulência, temperatura e tempo. Parece pouco. Não é. “Pequenas mudanças na moagem, no fluxo da água ou no tempo de extração alteram completamente a percepção da bebida”, resume Rodrigo.
Existe também um lado curioso nessa história. O V60, criado pela Hario no Japão, virou um dos maiores símbolos da cultura contemporânea do café justamente por fazer o consumidor desacelerar. O método exige atenção, repetição, gesto calculado e leitura constante da bebida. O cone de 60 graus, com suas ranhuras em espiral, acabou se tornando quase um objeto de culto entre baristas e cafeterias que enxergam no filtrado uma forma mais transparente de revelar origem, altitude, variedade e torra.
A seletiva realizada no Chora definiu os nomes que seguem para a final nacional em São Paulo: Andreina Marin (@soybarista.ve), Caio Cerqueira (@caionoespresso) e Sill Melo (@sillmelo.akita). O campeão brasileiro representará o país no circuito internacional promovido pela Hario e participará da SCAJ, no Japão, uma das feiras mais relevantes do setor cafeeiro mundial.
A competição ajuda a mostrar como o café especial atravessa um momento curioso no Brasil. Quanto mais técnico fica, mais humano parece se tornar. Afinal, no centro de toda essa obsessão por milímetros, cronômetros e extrações perfeitas, ainda existe algo muito simples: a busca pela melhor xícara possível.
Chora Café
Rua Oliveira Fausto, 28, Botafogo, Rio de Janeiro
Terça a domingo, das 8h às 20h
Fechado às segundas
@choracafe



