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Cordeiro uruguaio: do campo à parrilla

Criação extensiva e domínio do fogo formam um conjunto que define a maneira como essa carne chega ao prato no país

No Uruguai, a cultura da carne começa muito antes da cozinha. Ela nasce no campo, em um sistema de criação que se mantém estável há décadas e que continua sendo um dos pilares da produção agropecuária do país. Entre bovinos e ovinos, o cordeiro ocupa um espaço particular: menos difundido internacionalmente, é muito presente na tradição culinária local.

A base da produção está no modelo extensivo. Diferente de sistemas adotados em outras regiões do mundo, grande parte dos animais cresce solta em campos naturais. E passam toda a vida ao ar livre, alimentando-se de uma grande diversidade de grama e ervas nativas. Essa dieta variada influencia diretamente o perfil da carne, que apresenta gordura equilibrada, textura macia e sabor definido, mas sem excesso de intensidade.

Outro fator determinante é o ambiente. O território possui vastas áreas de pastagem e acesso constante à água, em uma região abastecida por importantes reservas de água doce. Essa combinação cria condições favoráveis para uma criação estável, com baixa necessidade de intervenções artificiais.

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Na prática, isso significa intervenções mínimas. Sal grosso e fogo controlado costumam ser suficientes para revelar as características naturais do produto. Marinadas e temperos mais elaborados aparecem, mas geralmente depois que o cozinheiro conhece bem o comportamento da carne.

Fumaça discreta

 

A técnica de cocção mais associada continua sendo a parrilla. A grelha aberta, posicionada sobre brasas de lenha, permite controlar a distância entre o calor e a carne. O processo costuma ser mais lento do que em muitos churrascos tradicionais. O objetivo é permitir que a gordura derreta gradualmente e que o calor penetre de forma uniforme. A escolha da lenha também influencia o resultado final. No país, é comum o uso de madeiras locais. A fumaça discreta acrescenta aroma sem encobrir o sabor da carne.

Embora fora do Uruguai o corte mais associado ao cordeiro seja o rack, o consumo interno revela um repertório mais amplo. Diversas partes do animal aparecem no cotidiano das cozinhas e das parrillas. Paleta, perna, pescoço e picanha de cordeiro são utilizados com frequência, cada um adaptado a uma técnica específica.

Os miúdos também têm presença relevante. Os rins, por exemplo, são preparados rapidamente sobre a grelha. Quando bem trabalhados, apresentam textura macia e sabor delicado. Depois da selagem, podem ser finalizados com cebola, cogumelos, mostarda, mel e vinho branco, formando um molho cremoso que envolve a carne e concentra os aromas defumados.

Alguns cortes pedem tempo maior de cocção. A perna de cordeiro costuma ser destinada a preparações lentas, como braseados, que permitem integrar a carne a vegetais e caldos aromáticos. Nesse processo, o colágeno se dissolve gradualmente, criando textura mais macia e sabor concentrado.

Lo de Terre: do mar ao campo

Cordeiro do restaurante uruguaio Lo de terre, em Punta del Este

Esse repertório também aparece na gastronomia contemporânea do país. Em Punta del Este, o restaurante Lo de Tere oferece um exemplo de como ingredientes tradicionais continuam presentes em cozinhas que ampliaram o olhar para novos produtos. A casa funciona há mais de três décadas no mesmo endereço e, em 2024, foi eleita o melhor restaurante do Uruguai pelo ranking Latin America’s 50 Best Restaurants. À frente da cozinha está a chef Maria Elena Marfetan. O contato direto com produtores e pescadores orienta a construção do menu, que muda de acordo com o que chega à cozinha.

Nos últimos anos, a chef passou a explorar mais profundamente os produtos do mar, incentivada pela proximidade do litoral e pela qualidade da pesca local. Ainda assim, a carne continua presente em diferentes preparações.

No caso do cordeiro, o prato é elaborado a partir do animal inteiro. A carne passa cerca de oito horas em cocção lenta até atingir textura extremamente macia. Depois é desfiada, prensada e levada novamente ao forno para ganhar consistência e leve crosta externa. O acompanhamento é um purê de batata-doce, que cria contraste entre a doçura do tubérculo e a intensidade da carne.

O cordeiro uruguaio pelo mundo

A produção de cordeiro uruguaio se tornou relevante ainda no mercado internacional. O país desenvolveu um sistema de rastreabilidade considerado um dos mais completos da pecuária mundial. Cada animal pode ser identificado desde o nascimento até o abate, oferecendo transparência para importadores e controle sanitário rigoroso.

Apesar da expansão das exportações, o consumo doméstico continua forte. Durante o inverno, pratos de cordeiro aparecem com frequência em ensopados e preparações de cozimento prolongado. No verão, especialmente nas regiões litorâneas, a parrilla volta ao centro da mesa, muitas vezes acompanhada por saladas simples e vinhos produzidos no próprio país.

Campo aberto, criação extensiva e domínio do fogo formam um conjunto que define a maneira como essa carne chega ao prato. O resultado é uma cozinha em que o protagonismo continua sendo do ingrediente. O trabalho começa no pasto e termina na brasa. Entre esse processo, existe uma cadeia que atravessa gerações de criadores, assadores e cozinheiros.

 

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