Cozinheiro e diretor
O chef sulmatogrossense Paulo Machado fala sobre sua estreia na direção de documentário sobre a formação da culinária pantaneira a
FOTOS HIGOR MARANHO

Do bioma conhecido por sua natureza selvagem, brotam histórias de cozinha de mãos variadas (e femininas). Pesquisador da culinária do Pantanal há mais de 20 anos, o chef Paulo Machado, nascido em Campo Grande (MS), acaba de se lançar como diretor em um documentário sobre sua região. “Mulheres da Fronteira – Uma Comitiva de Sabores pelo Pantanal” aborda essa gastronomia por meio de sete mulheres, entre indígenas, ribeirinhas, japonesas, pantaneiras. Recém-lançado no YouTube, no canal Mulheres da Fronteira, o filme segue para festivais nacionais e internacionais a partir de 2026. Paulo contou a Prazeres da Mesa um pouco mais sobre o projeto.
A cozinha pantaneira ainda é pouco abordada no Brasil e ela tem uma diversidade imensa de influências. O que você espera com a divulgação deste documentário?
Para mim, o documentário Mulheres da Fronteira é uma forma de mostrar que a gastronomia não está apenas em uma região ou bioma, nem restrita ao que imaginamos como o lugar próprio de um produto, uma receita ou um ingrediente. As cozinhas permeiam fronteiras, atravessam caminhos humanos e revelam que pertencem muito mais às histórias das pessoas do que aos limites geográficos.
O que eu espero é que as pessoas entendam que as fronteiras existem de acordo com os movimentos de quem vive nessas localidades. São sete mulheres que compartilham episódios importantes de suas vidas relacionados às suas cozinhas. Mulheres genuínas e fortes, com histórias carregadas de emoções e vivências, que revelam nestes 90 minutos a expressividade da cozinha dos lugares de onde vêm, todos profundamente entranhados na cultura pantaneira.
Se puder dar um spoiler do documentário, como se fosse a prévia de um menu, o que você diria que as pessoas vão descobrir ao assisti-lo?
Um spoiler que não é para desconstruir expectativas, mas para preparar o olhar do público: este não é um documentário baseado em receitas. É um filme de relatos, memórias e imaginação. A proposta é que o espectador vá ao cinema, assista no streaming ou canal preferido, já que o filme foi pensado para circular amplamente, e saia da experiência entendendo que sempre existe uma mulher que protagoniza a gastronomia das fronteiras do Pantanal, do Brasil e do mundo.
A cozinha do Pantanal e de suas fronteiras nasce da sensibilidade, do cuidado e do carinho presentes em cada preparo e em cada modo de pensar essa gastronomia. É um aspecto pouco discutido e que merece reflexão. Em Mulheres da Fronteira, as pessoas percebem essa essência com clareza e ainda por cima com uma trilha sonora belíssima, criada exclusivamente para o filme.
Como foi sua estreia na direção? Você já sonhava com isso?
Quando conseguimos equilibrar essa matemática entre escolher e fazer, podemos realizar um sonho depois do outro. Assim venho conduzindo minha jornada desde que me entendi como um ser ligado ao universo da comensalidade. Entrei de cabeça na cozinha, transformei meu estudo e minha prática em profissão, e me tornei um chef.
Paralelamente, fui entendendo o turismo gastronômico, trabalhando bastante com isso e entendendo a força de apresentar toda essa paixão, tanto por meio das mídias como pela cozinha. Dentro desse grande livro de receitas da vida, reservei um espaço para o cinema.
A minha aptidão para a sétima arte nasceu cedo. Na infância, ganhei do meu pai uma câmera de fita VHS (hoje em dia ninguém mais sabe o que é isso!) e já fazia meus primeiros esboços de criações audiovisuais. Mais tarde, quando estudei em São Paulo, trabalhei em mostras de cinema e mergulhei naquele universo. A gastronomia veio como paixão central, mas o cinema sempre caminhou ao meu lado. Há cerca de cinco anos, já vivendo em Barcelona, encontrei uma escola de cinema e finalmente pude aprofundar esse chamado. Dois anos atrás, inscrevi no edital da Lei Paulo Gustavo o projeto do documentário.
E como suas outras experiências colaboraram nesse processo?
Depois de quase 20 anos de pesquisa sobre a gastronomia pantaneira, compreendi que as áreas das humanidades são generosas, estão interligadas e se enriquecem mutuamente. No filme, revelo isso por meio do capítulo chamado ñanduti, palavra guarani que significa “teia de aranha”. Elas se conectam exatamente assim, como uma teia, que sustenta e relaciona tudo o que faço. E é essa rede que fortalece o processo vivo e extraordinário da cozinha pantaneira e brasileira.
@chefpaulomachado



