Califórnia arranca vinhedos enquanto Napa tenta colocar o vinho de volta à mesa
Queda nas vendas deixa produtores sem compradores para as uvas, enquanto uma das regiões mais prestigiadas dos Estados Unidos lança campanha de três anos para recuperar espaço na rotina dos americanos
A vindima californiana deste ano traz uma imagem incômoda, com produtores chegando aos vinhedos sem saber se terão para quem vender as uvas, enquanto questões como maturação, qualidade e momento ideal da colheita acabam dividindo espaço com uma preocupação bem mais urgente. Em Lodi, uma das regiões que historicamente abastecem a indústria de vinho dos Estados Unidos, parte das uvas permanece nas plantas e há quem aceite preços abaixo do custo ou simplesmente arranque áreas cultivadas há gerações. A mudança já aparece na paisagem, onde videiras começam a dar lugar a amendoeiras, pistacheiros, nogueiras e oliveiras.
Os números ajudam a dimensionar o problema. Segundo dados publicados pela Associated Press, as vendas de vinho nos Estados Unidos recuaram 23% nos últimos cinco anos, enquanto os gastos dos consumidores com a categoria caíram 22%. A estimativa é que aproximadamente um quarto dos vinhedos da Califórnia já tenha sido retirado de produção, resultado de uma equação difícil entre excesso de oferta, preços baixos e demanda menor.
O que acontece no campo é reflexo de uma mudança mais ampla. Durante décadas, a indústria americana cresceu apoiada em um público fiel, especialmente os baby boomers. À medida que essa geração envelhece, o vinho encontra mais dificuldade para ocupar o mesmo espaço entre consumidores mais jovens, que bebem menos e distribuem suas escolhas entre cervejas, destilados, coquetéis, bebidas prontas e opções sem álcool.
A cerca de 130 quilômetros de Lodi, Napa Valley procura responder ao mesmo cenário por outro caminho. A Napa Valley Vintners, associação que reúne produtores da região, aprovou uma campanha de marketing de três anos criada para ampliar as ocasiões de consumo. O projeto foi desenvolvido por representantes de 12 vinícolas e terá seus primeiros 15 meses de ações concentrados em aproximar novamente as garrafas da vida cotidiana.
Uma das frentes, batizada de “Tonight, It’s Napa”, parte de uma ideia simples: vinho não precisa esperar aniversário, jantar especial ou grande celebração para ser aberto. Outra levará experiências e eventos de Napa a mercados considerados estratégicos, invertendo a lógica tradicional de esperar que o visitante viaje até o vale. A estratégia também prevê maior aproximação com profissionais do comércio e da restauração, justamente quem está na linha de frente da recomendação.
Há certa ironia nessa mudança. Napa construiu parte de seu prestígio transformando seus grandes Cabernet Sauvignon em objetos de desejo, garrafas caras associadas a ocasiões especiais, coleções e adegas particulares. Agora, a região procura ampliar essa conversa e mostrar que seus vinhos também podem encontrar lugar em momentos menos solenes.
As duas Califórnias acabam contando a mesma história por ângulos diferentes. Em Lodi, o ajuste já aparece na paisagem, com vinhedos dando lugar a outras culturas. Em Napa, a força da marca permite reagir com comunicação, experiências e novas maneiras de se aproximar do público.



