Culinária japonesa além do peixe cru: quando o fogo, o caldo e o tempo conduzem a experiência
Um encontro em Curitiba revela a profundidade cotidiana, afetiva e pouco explorada da gastronomia nipônica no Brasil
Por Alexandre Iida (@adegao)
A culinária japonesa é, sem exagero, uma das mais queridas do Brasil. Os números apenas confirmam o que o paladar já sabe: segundo a ABGJ — Associação Brasileira de Gastronomia Japonesa — cerca de 17 mil estabelecimentos espalham pelo país aromas, sabores e gestos que carregam um pouco do Japão em cada prato servido.
Mas, diante dessa abundância, surge uma pergunta quase inevitável: quantos desses restaurantes revelam, de fato, a verdadeira profundidade da gastronomia nipônica? Quantos conseguem ir além do eixo já conhecido de sushi, sashimi, yakissoba e gyoza para apresentar a riqueza silenciosa, cotidiana e profundamente humana da comida japonesa? Será que o público imagina a vastidão desse universo que se estende muito além do peixe cru?
Nas redes sociais, é comum ouvir a frase: “Não gosto de comida japonesa, não como peixe cru.” Uma afirmação compreensível, mas que carrega um equívoco. Assim como o brasileiro não vive de churrasco todos os dias, o japonês também não se alimenta diariamente de sushi e sashimi. Esses pratos pertencem ao campo do especial, do ritual e da celebração. O dia a dia no Japão é preenchido por uma infinidade de preparações — simples ou elaboradas — pensadas para nutrir o corpo e aquecer a alma, sempre com atenção aos detalhes, respeito ao ingrediente e profunda ligação com as estações.

Foi para revelar essa face menos óbvia — e muito mais generosa — da culinária japonesa que Daniel Honda, sócio do Ippai Ramen, em Curitiba, teve a sensibilidade de idealizar um evento que rompesse com os clichês. Em uma conversa durante um jantar, apresentou essa visão ao cônsul-geral do Japão na capital paranaense, Yasuhiro Mitsui, que prontamente abriu as portas da Residência Oficial para acolher um encontro dedicado a pratos que vão muito além dos peixes crus.
Ali ficou evidente que sushi e sashimi são apenas a ponta do iceberg. A cozinha japonesa é, em essência, uma cozinha de fogo, vapor, caldo e tempo. Uma culinária em que a cocção é protagonista. São massas e caldos que confortam: ramen, udon, sōmen, soba — cada qual com suas variações, temperaturas e modos de servir. Pratos assados, refogados, fritos. O tempura leve como brisa, o takoyaki fumegante, o karê profundo e reconfortante. De cada base surgem incontáveis possibilidades, capazes de dialogar com todos os paladares.
Muito antes de o vegetarianismo se tornar uma tendência global, a gastronomia japonesa já oferecia caminhos plenos de sabor sem o uso de proteína animal. Os monges budistas, guiados por preceitos espirituais, moldaram uma cozinha vegetal rica em técnica e sensibilidade. Preparações como o dengaku de berinjela ao missô, o nishimê e o ohitashi atravessam gerações e continuam presentes na mesa cotidiana japonesa, provando que simplicidade e profundidade podem caminhar juntas.
O encontro só foi possível graças à articulação de Daniel Honda com a REN Paraná — Rede de Empreendedores Nikkeis — e ao apoio de sua presidente, Bruna Hara, que, com visão e prontidão, viabilizou os recursos necessários para tornar o jantar realidade. Empresas e importadoras de alimentos japoneses, como JFC Tradbras e Kronos Alimentos, contribuíram com produtos que temperaram a experiência, reunindo representantes e difusores da cultura japonesa no Paraná, todos encantados com os pratos cuidadosamente selecionados e preparados sob a curadoria de Honda e da equipe consular.
Mas, assim como um país, uma cultura ou um restaurante, nada se constrói sozinho. Atendendo a esse chamado do washoku, chefs de casas renomadas e premiadas de Curitiba revelaram aquilo que está na base da cultura japonesa: a humildade. Profissionais do Haiyô, Gyoza Bar, Restaurante Yamato e Ippai Ramen deixaram seus próprios balcões e cozinhas para servir a uma missão maior, coletiva e profundamente simbólica.
Estive presente como convidado, mas também como Embaixador da Boa Vontade para a Difusão da Gastronomia Japonesa — título que, em breve, o Brasil ganhará novamente.
Mais do que um evento, aquele encontro foi um gesto. Uma semente lançada com cuidado, para que outras floresçam. Que Curitiba seja apenas o começo, e que o Brasil siga descobrindo, prato a prato, a verdadeira alma da culinária japonesa.



