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De vinho de mesa a ícone italiano

A exemplo dos supertoscanos, o Ornellaia encanta com assemblages de uvas francesas

Por Celso Masson (@celsomasson)

Por cultivar variedades como Merlot, Cabernet Sauvigon e Petit Verdot, a região de Bolgheri, no litoral da Toscana, é inevitavelmente comparada a Bordeaux. “Nada mais equivocado”, afirma Patrick Lachapèle, com a autoridade de um bordalês que trabalha para vinícolas da Itália especializadas em elaborar grandes vinhos com uvas da França. “Bolgheri se assemelha mais ao Languedoc, devido à influência mediterrânea. E as condições de solo e clima agregam notas que definem sua tipicidade, como azeitonas pretas e ciprestes.”

Lachapèle é General Manager da Tenute di Toscana, escritório de representação dos vinhos da família Frescobaldi distribuídos na Place de Bordeaux: Ornellaia, Masseto, Tenuta Luce e Tenuta CastelGiocondo. Ele esteve em São Paulo para conduzir uma inédita masterclass de diferentes rótulos da vinícola Ornellaia, a vinícola fundada pelo marquês Lodovico Antinori em 1981 e que foi mudando de sócios (Robert Mondavi foi um deles) até passar às mãos dos Frescobaldi.

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No Brasil, as safras de Ornellaia importadas pela World Wine custam entre R$ 3.990 (2015) e R$ 4.460 (2021)

Além de comentários sobre os sete vinhos degustados por especialistas no hotel Emiliano, Lachapèle contou um pouco da história da região, que ele define como “uma bagunça” – não no que diz respeito à qualidade dos vinhos, mas sim das denominações definidas pela legislação italiana.
Resumindo a história. A Toscana é o território da Sangiovese, cujos clones Grosso e Piccolo resultam respectivamente nos Brunello e Chianti – estes podem ser Classico, Nobile di Montepulciano ou Morellino di Scansano. Por muito tempo, nenhuma outra casta era admitida na região. Até que a decadência dos vinhedos dessa variedade obrigou os produtores a tentar outros cultivares. Na década de 1960, introduziram uvas internacionais, sobretudo francesas, como Cabernet Sauvignon e Merlot, para elaborar vinhos de corte. Pelas regras da Itália, os vinhos resultantes dessas uvas não poderiam ser classificados dentro da Denominação de Origem Controlada da Toscana. “Não se sabe quem teve a ideia de contornar essa limitação chamando-os de Supertoscanos. Embora não queira dizer nada, foi uma grande ideia de marketing. Em pouco tempo os Supertoscanos ganharam o mundo”, disse Lachapèle.

Patrick Lachapèle, general manager da Tenute di Toscana e diretor de exportações da Ornellaia

Há controvérsias sobre qual foi o primeiro Supertoscano. Há quem defenda a primazia do Sassicaia. Outros consideram o Tignanello como pioneiro. Por não cumprir os requisitos legais da DOC, ambos foram classificados como Vino di Tavola (vinho de mesa). Apesar da rotulagem considerá-los produtos inferiores, o que para o mercado se traduz em preços baixos, ambos obtiveram excelentes avaliações da crítica. O Sassicaia obteve 100 pontos de Robert Parker em 1985. A partir daí, os supertoscanos passaram a proporcionar um retorno financeiro impensável para o vinho de mesa. Antes, eram como Maserati a preços de Fiat.

O ano dos 100 pontos de Parker coincide com a primeira safra do Ornellaia – nome que homenageia uma árvore da região, a ornella. Ele nasceu de uvas típicas de Bordeaux: Cabernet Sauvignon, Merlot e Cabernet Franc. Elas ainda predominam no corte das safras mais recentes, com diferentes proporções e uma participação discreta de Petit Verdot.

Vinhedo Ornellaia

Desde 1994 existem três denominações para vinhos de Bolgheri: Rosso DOC, Superiore DOC e uma subzona, Bolgheri Sassicaia DOC. No caso dos vinhos da Ornellaia, são usadas também Toscana IGT Bianco (para o Poggio Alle Gazze Dell’Ornellaia) e Toscana IGT Rosso (caso do tinto Le Volte Dell’Ornellaia).

“Uma peculiaridade é que cada safra de Ornellaia recebe um nome próprio. Ele é escolhido de acordo com as características daquela vindima em particular”, disse Lachapèle. A colheita de 2021 foi batizada La Generosità devido à abundância de notas de ervas, bagas de cipreste, amoras e frutas escuras. Já a safra seguinte, bastante desafiadora devido a uma seca que perdurou por 75 dias a partir de maio, recebeu o nome La Determinazione.

Entre as garrafas importadas para o Brasil pela World Wine, merecem atenção as de 2015 – Il Carisma. Na opinião de seu enólogo-chefe Axel Heinz, é certamente uma das grandes safras de Ornellaia. “A cor intensa habitual indica um vinho de grande textura e intensidade, seguido por um aroma frutado, maduro e fresco ao mesmo tempo, enfatizado por notas balsâmicas e picantes clássicas. No paladar, é rico, denso e encorpado, com uma textura tânica excepcional, aveludada e de grande refinamento, que se estende por toda a boca.” Custa R$ 3.990 – pouco menos que o da safra 2021, vendido a R$ 4.460 (ambos são Bolgheri DOC Superiori). Para quem quer provar os vinhos da Ornellaia sem gastar tanto, os rótulos Le Serre Nuove (Bolgheri DOC Rosso) giram em torno de R$ 1 mil.

 

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