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Dentro do primeiro mercado cooperativo da América Latina 

Como hortaliças e trabalho voluntário fazem um supermercado virar comunidade

São Paulo tem feiras, mercados, empórios, lojas especializadas, mas nada me preparou para ser dona de um supermercado. Eu explico. Há um mês eu entrei para o primeiro supermercado cooperativo da América Latina – modelo em voga há mais de 50 anos nos Estados Unidos –, a Gomo Coop. Eu comprei uma cota-parte, que me dá direito a comprar e participar das decisões da Gomo e, em troca, faço um turno por mês. Enquanto eu fizer parte daquela comunidade, tenho voz na escolha dos produtos que estão na prateleira, na definição dos sistemas implementados no dia a dia e, mais importante, em como aquela comunidade se forma. 

São 13h45 de uma terça-feira e eu chego para fazer a minha parte. Na porta, um cartaz com o logo da Gomo e o nome das pessoas que contribuíram para o financiamento coletivo que viabilizou a compra do primeiro estoque de produtos da loja. Ao lado, uma placa que diz que até agora são 370 pessoas cooperando na loja, mas para o modelo se sustentar são necessários no mínimo 700. É a partir desse número que todos os consumidores se tornam também trabalhadores, isto é, só quem for cooperante vai poder comprar.

E lá estava eu, a algumas quadras de onde a Avenida Ipiranga cruza a São João, no imóvel que um dia abrigou uma mecânica e agora abre as portas como um espaço de compra e de convívio. É um pouco longe de onde eu moro, mas enquanto esse modelo não começa a germinar pela cidade, vejo como uma chance de visitar o Centro. Ao contrário de quando vou a museus e restaurantes, tenho a chance de viver o bairro, conhecer gente e experimentar minha cidade de outro jeito. 

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Eu passeio pelas gôndolas checando os produtos, algumas ainda estão vazias, outras já têm missô orgânico e molho de tomate. Vejo um maço de brócolis um pouco triste na geladeira, penso que eu devia comprá-lo para não estragar! Esse pensamento me diverte, porque em qualquer outro supermercado eu iria procurar o mais bonito, mas aqui tenho a sensação de que aquilo também é um problema meu. Lembro que no grupo de WhatsApp dos cooperantes – sim, um grupo com quase 400 pessoas – vira e mexe alguém fala que tem um produto perto do vencimento e aí um mutirão de gente sai comprando para não ter desperdício. 

A líder do turno me chama. Ela é uma das quatro pessoas de colete vermelho, as únicas que são contratadas pela Gomo. Está na hora do check-in. Ultrapasso a área dos consumidores e entro no lugar permitido só para cooperantes em período de turno: ela diz que a gente vem do trabalho, do trânsito, da chuva, e quando chegamos lá precisamos de um tempinho para chegar de verdade. Nos reunimos embaixo da escada, na frente de uma parede de azulejo, onde se lê a lista das funções de cada turno, o que já foi feito e o que falta fazer. Cada um dos quatro cooperantes compartilha como está se sentindo e de onde está vindo, depois vem a divisão de tarefas. Alguns estão animados para trabalhar duro, dizem que querem carregar caixas e fazer limpeza pesada. Então, para mim, sobrou o trabalho mais tranquilo: etiquetar produtos. 

Nesse processo me familiarizo com os produtos e tento reconhecer as plantas mais diversas. Mas, na hora de etiquetar o almeirão, quem disse que eu sabia qual é o comum, qual é o roxo e qual é o pão de açúcar? Aí chamo um para ajudar, esse um chama outro, até que o Google nos salva. E depois: é azedinha ou é rúcula? Aí tem que experimentar, e pela careta já dá para saber que é azedinha, o nome não engana. E a lista não para por aí, vai de poejo a ora-pro-nobis, peixinho e muito mais, Panc (Plantas Alimentícias Não Convencionais) que precisam de documento com foto, mas que são tão importantes em nossos pratos e nos campos. Contam a história da alimentação paulista, fortalecem a biodiversidade e seus benefícios nutricionais são imensos. O hortifruti, que às vezes vemos como aquele lugar só para comprar cebola, alho e uma saladinha, ali também conta uma história. É a única parte da Gomo onde os produtos são exclusivamente orgânicos e agroecológicos, priorizando a agricultura familiar e produtores locais. 

Enquanto eu escrevia as etiquetas e encontrava os preços dos produtos, ouvia meu colega – designado a passar a palavra da Gomo aos curiosos – conversando com quem queria saber mais sobre a cooperativa. Alguns diziam que viram na TV, que leram no jornal, outros só estavam passando por ali. Ouvi contarem as histórias de suas vidas para ele, entravam em conversas profundas sobre variados assuntos, e eu pensei que nesta cidade de 12 milhões de habitantes, onde quase ninguém tem tempo de se cumprimentar na rua, eu tinha encontrado um pedacinho de interior. 

No meio disso, um amigo meu apareceu por ali, e eu disse para um colega: deixa comigo que esse eu coopto! Comecei mostrando como os preços para cooperantes eram mais baratos do que aqueles para o público geral, e que para ser cooperante bastava pagar R$ 100 (restituídos, se você decidir sair) e trabalhar três horas por mês. “Ah, três horas por mês! Achei que era por semana”, disse ele. E fui vendo o olho começando a brilhar. Mas o que convenceu mesmo foi quando ele percebeu que, além dos produtos orgânicos, tinham também os convencionais. “Eu não preciso vir aqui para depois passar em outro mercado para complementar”, afirmou meu amigo. E aí eu entendi por que a Gomo preza tanto por essa variedade: além de ter produtos com preços que sejam acessíveis para todos, é para que você possa fazer todas as suas compras do mês em um só lugar. Até porque, para a cooperativa pagar toda sua estrutura, ela depende dos cooperantes comprarem os produtos. 

E assim, as três horas foram passando, entre trabalhos e conversas, e eu fui conhecendo as pessoas ao meu redor, que também fizeram a escolha de estar ali. O tempo voou, talvez não para o rapaz que passou duas horas limpando o mezanino, mas ele se voluntariou a fazer aquilo e parecia estar imerso na música que tocava em seus fones de ouvido. Era o último turno do dia, então a loja fechou, mas mesmo assim os cooperantes daquele turno ainda puderam fazer suas compras. E aproveitar o desconto do cogumelo que ia vencer no dia seguinte: “Vai vencer amanhã, alguém quer levar com 50% de desconto?”, verbalizou um colega. Ninguém disse não. 

E depois das folhas serem levadas para dormir na câmara fria e do lixo ser carregado para fora, é a hora do check-out. O momento de nos reunirmos e contarmos o que foi bom, o que não foi e o que podia melhorar. Abrimos cadeiras de praia sobre o mezanino da loja, agora limpo, o silêncio e os portões fechados dando aquela sensação de bastidores. 

Alguém aqui já sentou com os trabalhadores do mercado que frequenta para falar como foi o dia? Pois eu já, e daqui para frente será todo mês. Eu e meus colegas de turno nos reclinamos em nossas cadeiras, prontos para compartilhar experiências, com aquele ar de fim de expediente. Um contou que estava cansado, tinha trabalhado duro e foi ótimo, outro sugeriu melhorias no estoque, outro queria saber como fazia para mudar o dia do turno, e as ideias iam rolando: vamos fazer painel de fotos para reconhecer as Panc? Que tal usar saco de juta para conservar melhor os alimentos? E a líder escrevia cada uma delas. 

Lembrei do primeiro momento que eu entrei aqui, antes do meu turno, e como eu ainda não sentia que aquele espaço era também um pouco meu. Mas é isso que o trabalho e a convivência com aquelas pessoas faz, você começa a pertencer, você ocupa aquele espaço, e passa a fazer parte dele também. O nome Gomo vem da mexerica: várias partes formando um todo. Ali dentro, a lógica não é outra. 

GOMO COOP – Rua Santa Isabel, 172, República, São Paulo, SP;
[email protected]

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Gabriella Bruno

Gabriella Bruno é jornalista gastronômica e pesquisadora de sistemas alimentares, com atuação em projetos editoriais no Brasil e na Itália.

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