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Só quero chocolate

A busca por um dos doces mais consumidos no mundo só aumenta. Mas você sabe de onde vem o chocolate que consome?

Por Ana Mosquera

Meu avô nunca comeu chocolate. Ele morreu sem saber o que era.” A fala do produtor agroecológico Edivaldo dos Santos, no início do documentário Dois Riachões, Cacau e Liberdade, dirigido por Fellipe Abreu e Patrícia Moll, é o mote da luta diária dos moradores do assentamento de mesmo nome, que integra a Fortaleza do Cacau Cabruca, no sul da Bahia.

Por muito tempo, naquela região, saborear o subproduto do fruto amazônico foi privilégio exclusivo dos coronéis, como comenta Wanderson Oliveira, responsável pela fábrica de chocolate local, inaugurada no final de 2020. Hoje, uma das maiores alegrias é quando o chocolate produzido por eles fica dentro da comunidade. Ele relembra, satisfeito: “O primeiro chocolate que fizemos foi com o cacau do Edivaldo, e doamos tudo para ele. Em menos de uma semana, já não tinha mais nada”.

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Além de comercializar o chocolate local em feiras da região, em pontos de orgânicos e por venda direta, o cacau do Dois Riachões também pode ser encontrado nos chocolates da marca Kalapa.

Ao norte do país, na comunidade Colônia Chicano, em Santa Bárbara, região metropolitana de Belém, Pará, desde 2014, o especialista em cacau César de Mendes, o De Mendes, se embrenha na floresta quase que diariamente em busca do sabor do chocolate amazônico, trabalhando com comunidades tradicionais e povos originários. “O chocolate é um veículo para contar a história dessas pessoas, seu impacto para os grandes centros urbanos, e delas e da floresta para o planeta”, diz ele.

Hoje, a De Mendes processa duas variedades de cacau e uma de cupuaçu, em parceria com quilombolas, ribeirinhos e indígenas. “É uma linguagem do gosto, a gente tenta associar o sabor ao território. E é uma agregação socioambiental, não apenas de técnica sofisticada”, diz o chocolateiro.

Foto: Fellipe Abreu

No mesmo ano de 2014, a chocolatière e filha de agricultores Arcelia Gallardo se mudou da Califórnia para o Brasil, para ficar mais perto de sua paixão: o chocolate. Na Mission Chocolate, além de priorizar o cacau de origem, ela valoriza o uso de outros produtos da sociobiodiversidade local, para compor os mais diferentes sabores. “Quando estava procurando castanhas e frutas para colocar no chocolate, embarquei em um estudo profundo do Brasil. Eu queria saber qual era a melhor forma de colocar os ingredientes nos chocolates, e se as pessoas iriam gostar”, diz Arcelia. O resultado foi a linha Biomas, que conta com cinco barras que levam baru, umbu, goiaba, laranja e cupuaçu. E a procedência dos ingredientes é fundamental. “Se eu encontrar um insumo legal, vou precisar conhecer a cooperativa, de onde ele vem, a família, as pessoas”, afirma Gallardo, que utiliza umbu da Coopercuc (BA) para o chocolate intenso 70%, com pedacinhos da fruta da caatinga, e baru do Sítio Boca do Mato (GO), para o chocolate intenso 70% com castanhas e também para a produção de barra cremosa.

Tudo isso faz parte da tal “linguagem do gosto”, à qual De Mendes se referiu, resultando em um produto que carrega as histórias, os sabores e as peculiaridades de cada povo e território, por meio dos produtos da sociobiodiversidade. É a cadeia boa, limpa e justa do alimento – da floresta, da árvore e da amêndoa até a barra.

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