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Dia da Mulher – Viva as magas da gastronomia e coquetelaria

Conheça as histórias por trás das chefs e mixologistas que estão ganhando espaço e conquistando o paladar

No cenário gastronômico brasileiro há uma riqueza de aromas, cores e sabores entrelaçados com a história e a cultura do nosso país. No entanto, por trás desse complexo manto de sensações, há uma narrativa que está ganhando o devido destaque: a presença e importância das mulheres na gastronomia. 

É fundamental reconhecer o papel fundamental das mulheres na construção e evolução da gastronomia brasileira. São elas que, com talento, dedicação e paixão, moldam os sabores que celebram nossa identidade cultural e nossa diversidade gastronômica. É hora de reconhecer e celebrar a contribuição das mulheres nesse cenário como protagonistas dessa história, que estão sempre se reinventando, incorporando novos sabores, técnicas e influências culturais. 

A gastronomia brasileira transcende a mera preparação de alimentos, e transforma-se em uma arte. Uma que envolve não apenas o paladar, mas todos os sentidos, onde cada ingrediente é escolhido com cuidado para compor uma sinfonia de sabor, desde uma delicada entrada, uma forte bebida ou uma complexa sobremesa. 

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Quem diz que “lugar de mulher é na cozinha”, na maioria das vezes tem a intenção de inferiorizar e ditar qual a sua posição na sociedade. Mas todo dia as grandiosas mulheres dentro e fora do cenário gastronômico mostram que lugar de mulher é onde ela quiser, inclusive comandando uma cozinha. 

Permita-me apresentar algumas dessas visionárias que estão moldando o panorama gastronômico brasileiro com sua criatividade, paixão e dedicação. Não importa em qual praça elas estejam, digo com confiança que magia acontece. Essas mulheres transformam até mesmo os mais simples ingredientes em obras primas. 

Bianca Mirabili (EVVAI)

Foto: Tadeu Brunelli

 

Se contassem a Bianca Mirabili, no início de sua carreira, que um dia se tornaria chefe de confeitaria, ela provavelmente teria rido. “Quando entrei na faculdade, a última coisa que passava pela minha cabeça era trabalhar com confeitaria; achava toda essa precisão um tanto entediante”, relembra Bianca, que vem de uma família italiana onde a comida sempre foi uma parte importante da vida.

No entanto, a vida tem um jeito peculiar de surpreender as pessoas. Enquanto cursava a faculdade de gastronomia, Bianca conseguiu um estágio no renomado Fasano, uma experiência que aos poucos começou a abrir seus olhos para os encantos da confeitaria.

Mas foi durante seu período de estágio no EVVAI que Bianca finalmente encontrou sua verdadeira paixão. “No EVVAI, me apaixonei perdidamente pela confeitaria, e desde então não consigo me ver fazendo outra coisa”, comenta.

Atualmente, aos 27 anos, Bianca Mirabili ocupa o cargo de chefe de confeitaria no EVVAI, onde continua a surpreender a todos com suas sobremesas excepcionais.

Bia Freitas (Shihoma)

Foto: Nani Rodrigues

“A primeira memória de infância que tenho é dentro de uma cozinha, com minha avó e minha mãe, absorvendo tudo o que acontecia. Sempre foi o meu lugar”, conta Bia, refletindo sobre sua paixão pela culinária desde os primeiros anos de vida.

Embora tenha optado por cursar publicidade após prestar vestibular, a gastronomia sempre permaneceu como um chamado adormecido em sua vida. Após alguns anos trabalhando na área, uma demissão fez Bia repensar seus objetivos e desejos profissionais, levando-a a buscar novamente sua verdadeira vocação.

Determinada a seguir seus sonhos, Bia ao visitar seu irmão em Nova York, decidiu arriscar e pediu um estágio em um restaurante que almoçou. Além de ter dado super certo, ficou alguns meses estagiando no local.

Ao retornar ao Brasil, estava certa de que seu lugar era na cozinha, onde poderia expressar sua criatividade e paixão pela gastronomia.

Durante a pandemia, uma oportunidade  surgiu na vida de Bia com o convite de Marcio Shihomatsu para uma conversa sobre um certo negócio que ele estava abrindo. Assim, o Shihoma nasceu, inicialmente operando na casa de Marcio. Desde o início dessa jornada até os dias atuais, Bia tem sido uma peça fundamental na trajetória de sucesso do Shihoma, deixando sua marca nos pratos servidos.

Rhaiza Zanetti (Tuju)

Foto: Julia Rodrigues.

Rhaiza Zanetti compartilha que, aos 14 anos, teve sua primeira percepção sobre a gastronomia como uma profissão possível. Naquela época, ela não tinha noção de que ser cozinheiro poderia ser uma graduação; para ela, cozinheiro era apenas cozinheiro. Apesar da resistência inicial de sua família, que não via com bons olhos sua escolha, Rhaiza decidiu seguir seu desejo e se formou em gastronomia, indo contra a maré.

Durante sua jornada acadêmica, Rhaiza teve a oportunidade de estagiar no World Trade Center,  inicialmente na área de confeitaria, que não despertou muito seu interesse na época. Mais tarde, Rhaiza teve a chance de trabalhar sob a liderança de Carla Pernambuco, que a convidou para integrar a equipe do Carlota. Paralelamente, Rhaiza decidiu expandir seus horizontes e fazer um curso de gestão, acreditando na importância de ter conhecimentos além da gastronomia, especialmente do ponto de vista financeiro.

Rhaiza eventualmente decidiu desistir da gastronomia e se dedicou a um curso de inglês em Malta. No entanto, o destino tinha outros planos para ela, e essa viagem a levou de volta ao mundo da culinária.

De volta ao Brasil, Rhaiza decidiu buscar uma oportunidade de estágio no Tuju, que conseguiu prontamente. Permaneceu lá até o fim do estágio, na esperança de que surgisse uma vaga efetiva. E surgiu, mas na área da confeitaria. “Eu só queria continuar trabalhando no Tuju e essa oportunidade me fez descobrir que eu verdadeiramente gostava disso e nunca mais saí. E olha que eu tentei muito mudar de área, mas a vida me mostrou que a confeitaria é meu lugar”, comenta, lembrando-se de que no início de sua carreira ela costumava torcer o nariz para essa área.

Thais Alves e Brenda Freitas (Grupo Maní)

Foto: carolina vianna

Brenda Freitas, natural de Goiânia, teve seu primeiro contato com a gastronomia aos 17 anos, quando decidiu iniciar seus estudos na área. Determinada a buscar novos horizontes, mudou-se para São Paulo com o objetivo de realizar uma pós-graduação em gastronomia.

Embora tenha planejado cursar a pós-graduação, Brenda acabou se envolvendo em trabalhos que ocuparam grande parte de seu tempo, todos relacionados à confeitaria, sua verdadeira paixão. Seu interesse pela delicadeza da confeitaria francesa foi despertado após conhecer Bertrand Busquet, o que a levou a economizar e investir em cursos na França, onde passou um ano se aprimorando na área, estagiando no famoso Le Meurice sob a mentoria de Cédric Grolet.

De volta a São Paulo, Brenda foi em busca de uma oportunidade de se juntar à equipe do Maní, onde começou a trabalhar como confeiteira. Admiradora do estilo livre de trabalho e da atmosfera inspiradora proporcionada por Helena Rizzo, Brenda já acumula oito anos de dedicação e talento na equipe da Maní.

Foto: Liriade

A jovem Thais se considera muito sortuda por sua vida profissional ter começado estagiando, aos 19 anos, no restaurante Maní, “É uma cozinha que sempre abraçou muito e agregou diversas pessoas, de uma diversidade muito grande e muita organização, então eu construí uma base muito boa na minha vida profissional”.  Mas por ter iniciado muito nova em uma cozinha muito concorrida, Thaís decidiu dar um passo para trás e se mudou para a Chapada Diamantina.

Após um período de reflexão e crescimento pessoal, Thais recebeu uma indicação pessoal da chef Helena Rizzo para trabalhar com o chef Rafael Costa e Silva no Rio de Janeiro. Essa experiência foi fundamental para expandir seu horizonte gastronômico, permitindo-lhe explorar novos ingredientes e técnicas culinárias, especialmente focadas em produtos vegetais e frescos, uma abordagem que ela carrega consigo até hoje.

Com uma bagagem repleta de aprendizados, Thais foi convidada a retornar ao restaurante em 2016. Desde então, Thais tem comandado com sensibilidade e firmeza a cozinha do Maníoca.

Cafira e Renata Adorácion (Fitó)

Cafira revela que a cultura gastronômica do Piauí sempre foi uma presença marcante em sua vida. “A cultura gastronômica no Piauí é muito rica, e isso sempre esteve em mim. Quando criança de merenda eu queria levar arroz com galinha caipira ao invés de um lanchinho”, relembra.

Embora a gastronomia fizesse parte de seu cotidiano, nunca havia considerado seguir esse caminho profissionalmente, pois sua família raramente saía para comer fora, o que limitava sua visão sobre as possibilidades na área. Foi somente quando se mudou para São Paulo que Cafira começou a enxergar a gastronomia de uma perspectiva diferente, percebendo seu potencial como uma profissão promissora.

Uma viagem à França foi um momento crucial para Cafira, onde sua paixão pela gastronomia se intensificou. Durante os passeios gastronômicos dessa viagem, ela teve uma epifania e percebeu que queria dedicar-se integralmente à culinária, tornando-se uma cozinheira e eventualmente inaugurando o Fitó.

Já Renata conta que fez um curso de bartender por pura curiosidade, sem nunca ter imaginado transformar aquilo em uma carreira. Esse curso, realizado em uma agência de eventos, tornou-se sua porta de entrada para o mundo da hospitalidade, levando-a a viajar e trabalhar em diversos eventos. No entanto, ela buscava por algo mais, algo que realmente a preenchesse profissionalmente.

Renata Adoración tem uma trajetória de 15 anos no ramo de restaurantes e bares, uma jornada que começou por identificação pessoal. Desde cedo, ela encontrava prazer em fazer coquetéis simples em sua casa, um hobby que já despertava seu interesse pelo universo dos sabores.

“Eu acabei no Fitó por uma indicação de um amigo e eu tenho muito orgulho da minha jornada, da minha história. Comecei como bartender e hoje sou sou coordenadora de todos os bares do grupo.”, finaliza Renata.

Dri Pino (Bartenderia)

Foto: Mario Rodrigues

“Eu não acordei um belo dia e decidi ser mixologista, acho que isso não se planeja igual se planeja ser médico, advogado…”, compartilha Adriana. Formada em técnico de contabilidade, ela percebeu que não queria se prender em bancos; ansiava por algo mais lúdico, mais criativo. Foi então que decidiu estudar para se tornar comissária de bordo.

Durante esse período, Adriana trabalhava em um bar como uma forma de ganhar dinheiro extra, mas logo percebeu que era isso que ela queria para a vida. Com o tempo, decidiu dedicar-se integralmente à mixologia. “Ser mixologista engloba toda a experiência, cada ingrediente é pensado para a ocasião e momento”, diz ela, optando então por se especializar ainda mais nessa área.

Em 2018, Adriana ganhou o World Class e foi a única mulher entre os 10 finalistas. “Eu sentia a torcida brasileira e feminina comigo, e estava tranquila”, relembra. Esse reconhecimento garantiu seu lugar como uma figura importante no mundo da mixologia brasileira.

Hoje em seu “laboratório”, como gosta de chamar a Bartenderia, Dri Pino tem uma missão clara como mixologista: ensinar ao Brasil sobre os sabores sensacionais que temos para explorar, muitos dos quais são nativos e não recebem a devida valorização em comparação com os sabores estrangeiros. Para Adriana, é crucial priorizar e valorizar os ingredientes locais, pois acredita que perdemos muito quando não reconhecemos a riqueza dos nossos próprios sabores.

As vozes das mulheres na cenário

A presença e o impacto das mulheres emergem como uma força poderosa e transformadora. Está claro que as mulheres não apenas encontraram seu merecido lugar nas cozinhas profissionais do Brasil, mas também estão moldando ativamente o cenário gastronômico com sua criatividade e paixão. “As mulheres hoje no cenário estão se apoiando mutuamente, pois ainda enfrentamos desafios únicos. É uma jornada difícil, pois é notável que as mulheres precisam se esforçar o dobro para serem reconhecidas”, comenta Rhaiza Zanetti.

Este movimento de reconhecimento e celebração da contribuição feminina não apenas busca destacar o talento e a resiliência das mulheres na gastronomia, mas também a desafiar os estereótipos de gênero. “Eu constantemente era colocada em prova no começo da minha carreira em bares, e fui me tornando reativa no cenário pois achava que sozinha era a forma que eu conquistaria meu espaço e isso é muito custoso”, comenta Renata relembrando diversos momentos onde se recusou a pedir ajudar com receio de não ser levada a sério.

“A gente cresce vendo em nossas casas a mulher cozinhando, mas no ambiente profissional é complemente diferente. Muitas pessoas já entraram aqui e quando me viram acharam que eu era a confeiteira ou a mocinha do balcão e não a chef da casa”, comenta Bia Freitas.

A história das mulheres na gastronomia brasileira ecoa não apenas suas habilidades culinárias excepcionais, mas também suas lutas e triunfos em um campo muitas vezes marcado pelo machismo e pela desigualdade. Thais Alves, somando-se ao coro, comenta: “Estamos cansadas, não tem o que dizer. É cansativo ter que se provar o tempo todo”.

Ao refletir sobre a importância das mulheres na gastronomia e na coquetelaria brasileiras, é essencial olharmos ao nosso redor e nos questionarmos: quantas mulheres enxergamos em posições de destaque?

Celebrar a contribuição das mulheres nesse cenário não é apenas reconhecer seu talento, mas também destacar sua resiliência em um campo que historicamente foi dominado por homens e valorizar suas conquistas. A cozinha tem um papel importante que é de criar possibilidades e oportunidades inspirando novas gerações de chefes, confeiteiras e mixologistas e continuarem sempre em busca de reconhecimento do talento e da igualdade na gastronomia ( e na vida).

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Luiza Pires

Jornalista que vive entre pautas, garfadas e viagens. Instagram: @luizarpires

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