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Dia Mundial do Vinho revela um Brasil que bebe melhor e com mais curiosidade

Consumo amadurece, novas categorias ganham espaço e o vinho se firma como escolha cultural

No Dia Mundial do Vinho, celebrado em 18 de fevereiro, os números ajudam a contar uma história que vai além da taça. Um levantamento da Neogrid mostra que, mesmo diante de ajustes de preço, o vinho seguiu presente no carrinho dos brasileiros ao longo de 2024. A incidência do vinho fino nacional cresceu 3,7% em relação a 2023, ao mesmo tempo em que o tíquete médio passou de R$ 34,70 para R$ 34,75. Um avanço discreto no valor, mas simbólico na permanência do hábito.

Outras categorias ajudam a desenhar esse novo retrato. O chopp de vinho teve crescimento expressivo, com aumento de 21,7% na presença nos carrinhos de compra. O preço médio acompanhou a tendência, saltando de R$ 15,48 para R$ 17,18 no período analisado. Já o vinho de mesa seguiu caminho oposto, com queda de 1,6% na incidência e reajuste de 3,1% no valor médio, que passou de R$ 22,45 para R$ 23,16. O dado revela um consumidor mais seletivo, disposto a pagar um pouco mais por categorias percebidas como superiores.

Clementina / Foto: Bruno-Geraldi

O Sul do país segue como principal polo de consumo, mantendo a maior incidência de compra, com 1,90 ponto percentual, além de ter registrado aumento significativo no tíquete médio, que subiu de R$ 32,97 para R$ 36,98 em 2024. O Sudeste aparece logo atrás, com 1,80 ponto percentual, seguido por Nordeste, Centro Oeste e Norte, todos em patamares próximos, sinalizando uma expansão mais homogênea do consumo pelo território nacional.

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Na escolha do canal, o atacarejo continua liderando como principal ponto de compra de vinho, com incidência de 2,40 ponto percentual, apesar de leve retração em relação a 2023. O super e hipermercado mantém estabilidade, enquanto o pequeno varejo apresenta um movimento curioso: embora tenha registrado o maior aumento de tíquete médio, perdeu frequência de compra, caindo de 1,10 para 0,90 ponto percentual.

No Tre Bicchieri o chef Rodrigo Queiroz faz sua leitura de clássicos italianos / Foto: divulgação

Esse amadurecimento do consumo dialoga diretamente com a forma como o brasileiro se aproxima do vinho. Para a sommelière Stephani Mercado, da Cantu Grupo Wine, descobrir o próprio estilo é um processo que envolve curiosidade e liberdade. Para quem está começando, vinhos leves e aromáticos costumam ser a porta de entrada. Brancos vibrantes, espumantes delicados e rosés jovens ganham espaço em encontros informais, dias quentes e refeições leves. Rótulos como Mar de Frades Albariño e Maraví Brut Branco exemplificam esse perfil acessível e versátil.

Com o tempo, o paladar pede mais estrutura. Vinhos de perfil intermediário equilibram frescor, fruta e complexidade, acompanhando desde um almoço descontraído até um jantar especial. Exemplos como Susana Balbo Signature Malbec e Casa Relvas Herdade de São Miguel representam bem essa transição. Para quem busca intensidade, tintos encorpados como Escudo Rojo Gran Reserva Blend e Ramón Bilbao Edición Limitada entregam profundidade, concentração e vocação gastronômica. Já os apaixonados por aromas expressivos encontram identidade em rótulos como Callia Torrontés e Ventisquero Grey Chardonnay, ideais para culinária asiática, pratos levemente apimentados e encontros ao ar livre.

Cantu Grupo Wine / Foto: divulgação

Esse novo consumidor também encontra suporte em um mercado mais atento à curadoria. Importadoras boutique ganham protagonismo ao oferecer portfólios com identidade clara. Fundada em 2022 por Fernando R. Moreira, a Santo Vino Importadora nasce dessa leitura madura do mercado. Com quase duas décadas de experiência na Mistral Importadora e atuação prévia na Divinho Vinhos, Fernando construiu uma curadoria focada em vinícolas premiadas, procedência e expressão de terroir. Hoje, a Santo Vino representa 19 vinícolas de seis países, com mais de 65 rótulos no portfólio, incluindo nomes do Chile, Argentina, Portugal, Espanha, Itália e França.

O Brasil também deixou de ser um mercado restrito ao eixo Rio São Paulo. Capitais como Belo Horizonte, Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, Recife e Salvador, além de cidades do interior, passaram a consumir vinho de forma mais curiosa e qualificada. Esse movimento vem acompanhado por restaurantes que assumem um papel educativo fundamental. Cartas autorais, taças rotativas e equipes preparadas ajudam a apresentar pequenos produtores, uvas menos óbvias e estilos de mínima intervenção.

Em São Paulo, exemplos não faltam. O Tre Bicchieri, no Itaim, consolidou se como uma embaixada da enogastronomia italiana. Fundado em 2010, o restaurante reúne cozinha clássica e contemporânea sob o comando do chef Rodrigo Queiroz e uma carta premiada pelo guia Gambero Rosso, com cerca de 200 rótulos organizados por regiões da Itália. Já o Clementina Bar de Vinhos, em Pinheiros, traduz o espírito da nova geração. Aberto em 2023, a casa aposta em uma seleção ousada, com mais de cem rótulos que passeiam por origens pouco óbvias como Eslovênia, Croácia e Geórgia, em um ambiente descomplicado, afetivo e acolhedor.

 

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Horst Kissmann

Editor de Vinhos e Bebidas || @kissmann

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