Vinhos

Diário de viagem

Por Carlos Cabral

Como se fosse a primeira, minha mulher Leda e eu seguimos para Portugal no final de maio pela 34ª vez. Há 15 anos, vamos para lá no final de maio para tomar parte das celebrações e encontro anual da Confraria do Periquita – Leda é Cavaleira de Condição, e eu, Periquita Clássico. Um encontro alegre em torno da família Soares Franco, hoje na sexta e sétima gerações de José Maria da Fonseca, o fundador da casa e pai da mais emblemática e antiga marca comercial de vinhos de Portugal.

Neste ano, como sempre, pudemos provar o novo Periquita que em breve estará no mercado: a safra 2006, que se apresentou macia, pronta para beber. O jantar de gala em torno dos novos confrades, em que do Brasil foi admitida Alexandra Corvo, foi mais uma vez servido na Adega do Periquita em uma mesa decorada para um banquete de Estado. Como não podia faltar, a sopa de ervilhas e hortelã da família Soares Franco e os magníficos queijos de Azeitão, foram as estrelas da noite. Entre os vinhos, como sempre, uma agradável surpresa: um Periquita Reserva 2005, o RA 2004, um Moscatel Roxo 1998, da Coleção Privada de Domingos Soares Franco, e uma Aguardente Velha Reserva 64. Tudo em perfeita harmonia.

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No dia anterior, almocei na sede da J. M. da Fonseca, onde no final do almoço degustamos alguns anos de moscatéis roxos que dias antes participaram de um concorrido leilão.

Em Lisboa, voltamos ao Pap’Açorda, que continua com uma gastronomia típica lusitana interpretada por uma nova leitura. Tudo leve, com muito azeite orgânico e um carpaccio de polvo e bacalhau sublime. Aqui, os vinhos das Caves Aliança marcaram presença. Carta primorosa, sempre atenta às novidades.

Nesse dia, à noite, fomos jantar no Eleven, no Parque Eduardo VII. Restaurante ultramoderno, com menu-degustação de primeira qualidade, em que os frutos do mar reinam absolutos. Os vinhos, todos brancos das Terras do Sado e Península de Setúbal nos acompanharam.

A Vinilusa nos deu seus vinhos para provar. Essa jovem empresa tem em seu portfólio os rótulos da Cavipor (leia-se, antiga Caves Dom Teodósio): as Caves Acácio e Moura Bastos. No conjunto, são vinhos de primeiro preço, porém com as qualidades típicas – de cada uma das tradicionais regiões produtoras de Portugal. Uma bateria de 13 vinhos das regiões do Dão, do Alentejo, do Douro e das Beiras se fez presente.

Igualmente fui visitar os amigos da Bacalhoa Vinhos, onde 23 vinhos nos aguardavam. Qualidades superiores, vinhos finos de primeira grandeza; um Moscatel de Setubal Superior 1983 foi o ponto alto da prova.

A caminho do Porto, paramos em Pombal, onde o grandioso restaurante O Manjar do Marquês nos aguardava. Somente os acepipes, antes da refeição, já satisfazem qualquer glutão. Destacam-se as pataniscas de bacalhau, devidamente bem acompanhadas do vinho verde Muralhas de Monção. Já no Porto, junto aos amigos da Casa Poças, almoçamos uma ementa elaborada por Lopes, proprietário da Presuntaria Trasmontana de Vila Nova de Gaia.

Os tintos e brancos do Douro, que são a nova aposta da casa, foram degustados antes e durante o almoço. Os tintos prometem, têm um futuro brilhante pela frente. Para as frutas e os doces nos acompanharam um Poças LBV 2000 (uma verdadeira salada de framboesas maduras) e um Poças 20 anos, Tawny, digno de silêncio monástico durante a degustação.

À noite, jantamos com o amigo Paulo Amorim no restaurante O Comércio, do Palácio da Bolsa. Paulo e Luis Duarte estão com um novo projeto, a Wine Vision, em que pretendem tirar, de uma moderna adega, recém-inaugurada no Alentejo, vinhos ícones, que darão ainda mais orgulho a Portugal. Competência não lhes falta e a julgar pelo que provamos, vale a pena esperar.

Visitamos a Sogevinus – holding que é dona de quatro casas emblemáticas do Porto: Calém, Burmester, Kopke e Barros e Almeida, cujo patrimônio vínico é emblemático. Possui hoje a Sogevinus, um grande número de vintages e colheitas muito antigas. Nessa visita, Leda e eu fomos aquinhoados com um Porto Colheita 1950, ano em que nascemos.
Fomos ao Douro e nos hospedamos por um dia na Quinta de São Luiz, antiga propriedade da Casa Kopke. A visão do Douro, do alto da Quinta, é um espetáculo para os olhos, os majestosos terraços nos cercam por todos os lados.

O engenheiro agrônomo José Manso, senhor daquelas terras, nos acomodou em uma carrinha com tração nas quatro rodas e rodou conosco por quase três horas naquelas montanhas, de terraço em terraço, parando e explicando tudo. Parecia conversar com as videiras. Se alguém julga as montanhas russas de Orlando o “must” é porque ainda não andou pelo Douro. Na Quinta de São Luiz, entre um jantar e um almoço, degustamos um arroz de pato, salada, bacalhau em postas com batatas, torta de laranja e torta de nozes, tudo regado a tintos do Douro e Porto muito velhos.

À tarde, encontramos o pequeno grande homem Domingos Alves de Souza, que, após um passeio por uma de suas Quintas – a que visitamos pertencia a Antonia Ferreira –, levou-nos ao Porto, onde muito próximo ao Aeroporto jantamos um majestoso cabrito assado no O Fernando. A garrafeira desse restaurante é um templo. Só para ilustrar, há muitas garrafas de todas as safras de Barca Velha.

Na tarde do dia seguinte, meu amigo Manuel Pintão e eu fomos ao Solar do Vinho do Porto, no Solar das Macieirinhas, para dar a última revisada no Dicionário Ilustrado do Vinho do Porto, que lançaremos neste fim do ano. Acompanhou-nos na revisão, por sinal bem-feita, um Porto Poças 30 anos.

À noite jantamos no Majestic, o café mais simpático e antigo do Porto. Lá se tem a idéia de que estamos em 1850, pela riqueza de detalhes da decoração autêntica.
Ficamos surpresos com o restaurante Artemisia, na escondida rua Adolfo Casais Monteiro. Ambiente jovem, mesas impecáveis, serviço e comida nota 10. Aqui, prestigiamos o amigo Jorge Rosas, provando seu vinho Quinta da Toriga Chã, produzido na Foz do Coa, no Douro Superior, quase fronteira com a Espanha. Trata-se de um Douro tinto emblemático, que nada deve aos hoje conhecidos ícones do Douro. Dessa Quinta, guardo com carinho a notícia manuscrita de sua formação, criada e idealizada pelo meu maior professor de vinhos, o saudoso José Antonio Ramos Pinto Rosas, pai do Jorge, seu atual proprietário. Quem gosta de vinho com “V” maiúsculo não deve deixar de provar essa iguaria dos deuses.

Para encerrar, nada como um bom cabrito assado, com alecrim, no restaurante da Alzira, quase uma gruta encravada nas muralhas de pedra de um dos becos da Ribeira do Douro. Não chega a dez mesas e a família de dona Alzira pilota o fogão com galhardia. Aqui provei – e vale uma viagem de regresso – um toucinho do céu que até agora foi o melhor dos melhores. Sentem-se os grãos de amêndoas e a torta é úmida. Melhorou ainda mais com o banho de Porto 10 anos que apliquei nela. Fomos conhecer na Bairrada a Quinta do Encontro, mas isso é conversa para o próximo mês, tamanha a distinção que lá vimos. No momento, estamos preparando a 35ª viagem e, acreditem, já estamos com fome e sede!

Carlos Cabral estuda vinhos há 38 anos.
É consultor e um apaixonado do tema.

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Lançada em 2003, a proposta da revista é saciar o apetite de todos os leitores que gostam de cozinhar, viajar e conhecer os segredos dos bons vinhos e de outras bebidas antecipando tendências e mostrando as novidades desse delicioso universo.

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