Vinhos

Do Japão ancestral à taça paulistana

Nishiki Sake conecta vinícolas históricas, cultura milenar e rótulos que começam a ganhar espaço nas cartas da cidade

Com uma oferta de vinhos oriundos dos mais diversos países, o vinho japonês não poderia ficar de fora e agora chega ao Brasil por meio da Nishiki Sake, nos Jardins, que se insere menos como loja e mais como um espaço de tradução entre culturas.

Evento Nishiki Sake / Foto: Horst Kissmann

Para entender o que chega à taça, é preciso olhar primeiro para o mapa. A viticultura japonesa se organiza em algumas regiões-chave, cada uma moldada por condições bastante específicas. Yamanashi, aos pés do Monte Fuji, concentra a maior parte da produção e é considerada o coração do vinho japonês. Ali, o clima com verões úmidos e invernos frios exige adaptação constante, e foi justamente nesse ambiente que a uva Koshu encontrou seu equilíbrio ao longo de mais de mil anos. Ao norte, em Nagano, a altitude e as temperaturas mais baixas favorecem vinhos de maior acidez e precisão. Já Hokkaido, ilha mais fria, vem ganhando espaço com projetos mais recentes, impulsionados por um clima menos úmido e mais favorável à sanidade das uvas. Em menor escala, regiões como Yamagata e Niigata também contribuem para esse mosaico, ampliando o repertório com estilos que refletem suas particularidades climáticas e culturais.

Evento Nishiki Sake / Sushi e Sashimi Moriawase / Foto: Horst Kissmann

Foi em Yamanashi que essa história ganhou forma no fim do século XIX, quando o Japão começou a se abrir ao mundo e alguns produtores decidiram estudar a viticultura europeia. A Maruki Winery, fundada em 1891 por Ryūken Tsuchiya, nasce desse momento. Ele foi à França aprender técnicas e voltou com uma ideia que permanece atual: o vinho precisa fazer sentido à mesa, e não apenas na taça.

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Poucos anos antes, em 1885, a Lumière já estabelecia outro eixo importante. Também em Yamanashi, construiu uma trajetória marcada pela continuidade e pelo respeito ao processo. O tanque de granito de 1901, ainda em uso, resume bem essa filosofia, em que tradição e técnica caminham juntas sem pressa de modernização forçada.

Evento Nishiki Sake / Ebi Furai / Foto: Horst Kissmann

Dessas regiões e dessas escolhas nascem uvas que dificilmente se repetem fora do Japão. A Koshu, de perfil delicado e acidez precisa, parece moldada para acompanhar a comida sem interferir. A Muscat Bailey A, criada em 1927 por Zenbei Kawakami, traz fruta mais aberta e taninos suaves, desenhando tintos que fogem da lógica de potência e se aproximam mais da ideia de fluidez.

Esse repertório começa a se integrar com naturalidade à cena paulistana. No Aizomê Restaurante, a chef Telma Shiraishi abriu espaço para uma degustação dedicada a esses vinhos, em um movimento que antecipa a presença dos rótulos na carta da Japan House São Paulo. A condução ficou com a sommelière Gabriela Monteleone, que privilegiou um serviço atento, permitindo que cada vinho se revelasse no seu tempo.

Evento Nishiki Sake / Gindara Saikyo Yaki / Foto: Horst Kissmann

Na prática, o que se prova ajuda a entender essa estética. O La Feuille Taru Koshu 2024, da Maruki, mostra como a delicadeza pode ganhar camadas. Limão, maçã verde e flores aparecem primeiro, seguidos por notas discretas de manteiga e baunilha, resultado da fermentação em barrica. O vinho se constrói aos poucos, sem pressa.

O Koshu Sur Lie 2023, da Lumière, opta por outro caminho. Sem madeira, aposta na pureza e no frescor, com cítricos bem definidos e uma presença sutil de umami trazida pelo contato com as borras. Funciona quase como extensão da comida, mais do que como contraponto.

Evento Nishiki Sake / Foto: Horst Kissmann

Entre os tintos, o La Feuille Taru Bailey A 2023 equilibra fruta e madeira com naturalidade, trazendo violeta, cereja e framboesa em um conjunto de taninos macios e boa integração. Já o GABU 2023 segue leve, direto, com fruta fresca e acidez delicada, transitando com facilidade entre diferentes contextos, da cozinha japonesa ao cotidiano brasileiro.

O Ishigura Wine 2023, fermentado em um tanque de granito com mais de um século, carrega uma dimensão histórica que vai além do discurso. Combinando Mascat Bailey A e Black Queen, entrega um tinto de fruta viva e textura suave, que se sustenta mais pela harmonia do que pelo impacto.

Há ainda um fator prático que ajuda a explicar o avanço desses vinhos por aqui. Apesar da produção limitada e da origem pouco comum, os rótulos disponíveis na Nishiki Sake chegam ao consumidor final em uma faixa que gira, em média, entre 200 e 300 reais. É um posicionamento que os coloca em diálogo direto com outros vinhos importados de nicho, mas com uma identidade própria que começa a despertar interesse. Em especial por seu caráter frutado e baixo teor alcolico.

Nishiki Sake
Alameda Tietê, 185, Jardim Paulista, São Paulo
Segunda a sábado, das 11h às 18h
@nishikisake

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Horst Kissmann

Editor de Vinhos e Bebidas || @kissmann

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