‘Em vez de só expandir o negócio, escolhi produzir cultura e educar o mercado’
À frente da terceira geração do Rei da Cutelaria, Romeu Habib Ghattas Filho reúne seu conhecimento sobre o universo das facas em seu primeiro livro
Conhecido como o “Romeuzinho do Rei da Cutelaria”, Romeu Habib Ghattas Filho cresceu rodeado por facas e utensílios de cozinha. Hoje, está à frente da comunicação do Rei da Cutelaria, referência quando o assunto é facas, dando sequência à terceira geração do negócio de família.
Romeu decidiu reunir anos de experiência em seu primeiro livro, “AFIADO – Guia Prático de Afiação e Cutelaria”, lançado nesta semana. O relacionamento com os clientes foi o ponto de partida para começar a escrever as primeiras páginas. Confira a entrevista a seguir:
Quando você percebeu que a cutelaria deixaria de ser apenas um negócio da família e passaria a fazer parte da sua identidade?
Desde pequeno, as pessoas me conheciam como o Romeuzinho do Rei da Cutelaria, o Romeu das facas. Acho que a mudança começou por volta dos 20 anos, quando passei a ficar mais conhecido no YouTube. As pessoas começaram a me procurar como “o Romeu das facas”. Hoje, quando ando por restaurantes e sou reconhecido, percebo que, à medida que as pessoas passaram a me ver dessa forma, eu também passei a me reconhecer como parte do negócio.
Eu herdei muito do meu pai essa cultura de viver o trabalho. A gente nunca desliga completamente. Mesmo em um momento de lazer, o negócio acaba fazendo parte da conversa. Muita gente vê isso como algo negativo, e eu entendo esse ponto. É importante saber desacelerar. Mas, para nós, trabalhar faz parte de quem somos. É muito mais do que uma profissão; é parte da nossa identidade.

Qual foi a maior tradição familiar que você decidiu preservar e qual foi a primeira que resolveu quebrar?
Até hoje troco muito com o meu pai. A gente tem uma relação de muito respeito e cada um sabe o seu espaço. Claro que, como acontece em qualquer empresa e em qualquer família, existem divergências. A gente discute, mas isso faz parte e é saudável. É assim que a gente cresce. A maior tradição da família que eu decidi preservar, sem dúvida, foi o olho no olho com o cliente. Escutar o cliente está na alma do nosso negócio. E foi justamente daí que nasceu o livro.
Eu percebi que existia uma lacuna no mercado. Havia pouco conteúdo organizado sobre afiação e muita informação imprecisa sendo divulgada. Comecei a ensinar afiação na internet e em escolas de gastronomia e, depois, resolvi reunir esse conhecimento no livro. Ao mesmo tempo, acho que também quebrei uma tradição. Talvez esperassem que eu estivesse escrevendo planilhas, pensando apenas em expandir o negócio e abrir novas lojas. A gente até fez isso, mas eu também escolhi produzir cultura. Escrever o livro foi uma forma de educar o mercado. Eu acredito que cultura e negócios caminham juntos: um fortalece o outro.
Qual foi o momento mais difícil de assumir um negócio familiar e como conquistou espaço sem deixar de respeitar a geração anterior?
Os desafios aparecem todos os dias. Mas acredito que o segredo para conquistar esses passos, sem deixar o respeito pela geração anterior de lado, foi ser autêntico. Foi buscar em mim aquilo que só eu poderia entregar. Isso veio muito de um trabalho cultural. Eu vejo que fazer como todo mundo faria, apenas gerir o negócio sem pensar no que o cliente precisa além dos produtos, não seria suficiente. O que fez diferença foi justamente essa mentalidade de pensar diferente e construir o meu próprio caminho.
Não ser só uma peça dentro da empresa, mas ter individualidade, me respeitar e olhar para mim com atenção: o que eu sou capaz de fazer de verdade? A minha dica para todo mundo é essa. Às vezes a pessoa está meio perdida no trabalho, sem saber o que fazer da vida. No fundo, é preciso encontrar aquilo que só você é capaz de fazer com maestria. É o que os japoneses chamam de ikigai.

Em um mundo cada vez mais digital, por que as pessoas continuam fascinadas por um objeto tão antigo quanto uma faca?
A faca chama atenção porque é um objeto muito antigo, mas que continua totalmente atual. Uma faca de 200 anos, por exemplo, não é tão diferente de uma feita hoje. Na cozinha, ela acaba sendo quase um objeto sagrado. É o que garante precisão, segurança e qualidade no trabalho, por isso cria uma relação muito particular com quem usa.
No fim, o que me interessa é isso: valorizar um conhecimento antigo e fazer com que as pessoas entendam melhor o que estão usando. A afiação, por exemplo, é uma habilidade essencial desde sempre.
Quando pensa no futuro da empresa, imagina que ela continue sendo um negócio de família?
Penso o futuro como algo familiar, seja no papel ou no jeito de conduzir o negócio. Quando falo em familiar no estilo, é na forma como tratamos as pessoas. Aqui, o cliente não é só um CPF que entra e sai, mas alguém com história, que a gente respeita na individualidade. O mesmo vale para os fornecedores, muitos deles dizem que foram atendidos aqui há 20 anos da mesma forma que hoje.
Então, mesmo que um dia deixe de ser familiar no papel, precisa continuar sendo familiar no jeito de fazer as coisas. A empresa nasceu em 1963, está na terceira geração, e a ideia é seguir assim por muito tempo.
Rei da Cutelaria
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