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Esporão: coragem, criatividade e raízes portuguesas

Tradição, resistência e um futuro sustentável para o vinho português

Em uma conversa franca e profunda, João Roquette, CEO do Grupo Esporão, reflete sobre os caminhos da empresa fundada por seu pai, José Roquette, em 1973, em plena efervescência política de Portugal. Hoje, com presença em 57 países, a Esporão representa não apenas um case de sucesso vitivinícola, mas uma filosofia de negócio marcada por coragem, sustentabilidade, identidade e inovação.

“A coragem sempre esteve com a gente”, diz João, ao lembrar dos primeiros passos da vinícola. “Meu pai investiu tudo no Alentejo, perdeu tudo no ano seguinte e ainda foi preso. Mesmo assim, seguiu adiante.” Essa resiliência, quase um traço de família, tornou-se parte do DNA da empresa. Desde que assumiu a liderança em 2005, João vem conduzindo uma transformação que equilibra expansão internacional, agricultura biológica e o fortalecimento de uma marca hoje reconhecida como sinônimo de terroir.

Com formação em gestão e música, João confessa ter sempre vivido entre dois mundos: o da razão e o da emoção. “O vinho acabou juntando esses dois lados”, comenta. Essa visão híbrida foi essencial para decisões estratégicas importantes, como a conversão total da viticultura para o modo orgânico. Mais do que acompanhar uma tendência, o movimento refletiu uma escolha ética e um compromisso com a qualidade. “Os melhores vinhos do mundo já eram biológicos há 20 anos. Fizemos o nosso caminho, com tempo e critério.”

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O resultado dessa virada é expressivo: hoje, a Esporão responde por 18% da produção de vinhos orgânicos de Portugal. João, porém, faz questão de valorizar cada capítulo da história da empresa. “O que fazíamos antes também era bom. Estamos em constante transformação, sempre em busca de qualidade.”

Esporão Reserva Tinto 2022

Essa busca inclui uma presença sólida nos mercados internacionais. Portugal, Estados Unidos e Brasil concentram 80% das vendas da empresa. O Brasil, em especial, ocupa um lugar afetivo e estratégico. Foi lá que o tio de João, também chamado João Roquette, criou a Qualimpor, distribuidora que estreitou os laços entre os dois países. “Somos uma das poucas vinícolas com distribuição própria no Brasil”, destaca. Produzir vinhos em solo brasileiro, no entanto, não faz parte dos planos. “O Esporão é português. E é assim que queremos continuar.”

A filosofia da empresa vai além do vinho. O grupo também atua com azeites, cervejas, vinagres e enoturismo — sempre com uma abordagem de gestão quase artesanal, onde cada unidade tem autonomia para se desenvolver com identidade própria. O azeite, que já representa 25% do faturamento, é um bom exemplo dessa expansão bem pensada. “Olhei para o azeite e pensei: se tratarmos como tratamos o vinho, podemos criar algo novo”, conta João.

Essa visão integrada se reflete também no restaurante da propriedade, que ostenta uma estrela Michelin e uma estrela verde. “Usamos ingredientes do nosso próprio quintal. A experiência é total”, resume ele, com orgulho de quem vê a sustentabilidade na prática, do campo à mesa.

Casa dos Murças, Douro, Portugal / Foto: divulgação

As mudanças climáticas também vêm provocando ajustes na estratégia da empresa. Recentemente, 180 hectares de vinhas foram convertidos em olival. “Foi uma decisão estratégica. Precisávamos de mais área para azeite, e aquelas vinhas já estavam no fim do ciclo”, explica. Ao mesmo tempo, a Esporão reforça o investimento em castas autóctones e quase esquecidas, como Trincadeira e Moreto, que mostram maior resiliência às novas condições climáticas e ajudam a expressar, com autenticidade, o terroir do Alentejo.

A aposta em vinhos mais leves e com menor teor alcoólico também ganhou força, especialmente no mercado brasileiro. O sucesso do Bico Amarelo por aqui comprova que há espaço para rótulos fáceis de beber, frescos e descomplicados. E João já prepara a próxima novidade: um vinho ainda mais ousado, com apenas 11% de álcool e muita personalidade. “Queremos vinhos que deem prazer”, afirma.

Olhando para o futuro, João acredita em um mercado cada vez mais consciente, em que o vinho precisará reafirmar seu valor cultural e sensorial. “Vamos seguir com vinhos mais leves, naturais, mas sem perder a alma. Estamos abertos a novos formatos, desde que não percamos quem somos.”

A visita recente ao Brasil também teve um tom pessoal e afetivo: prestar homenagem ao tio João Roquette, fundador da Qualimpor. “Ele é uma referência. Construiu algo admirável. Vim para celebrar esse legado.”

Com um pé no passado e os olhos bem atentos ao futuro, o Esporão segue brindando a vida com coragem, criatividade e, nas palavras de João Roquette, “com razão de sobra para brindar”.

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Horst Kissmann

Editor de Vinhos e Bebidas || @kissmann

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