EUA entram em nova fase no consumo de vinho
Mercado projeta estabilidade em volume e aposta em experiências, inovação e diálogo com novas gerações
O mercado de vinhos nos Estados Unidos atravessa um realinhamento silencioso, desses que não fazem barulho imediato, mas mudam o jogo. Em 2023, o país consumiu cerca de 890 milhões de caixas de nove litros, segundo o Wine Institute, número praticamente estável, com queda inferior a 1% em relação ao ano anterior. A leitura dos relatórios da IWSR é clara: até 2027, o volume deve seguir nesse mesmo compasso, enquanto o crescimento migra para o valor, estimado entre 1% e 2% ao ano.
O pano de fundo dessa virada está no perfil de quem bebe. Os consumidores acima dos 55 anos ainda sustentam mais da metade do volume total, mas reduzem frequência e quantidade com o passar do tempo. Millennials e Gen Z, por sua vez, não bebem menos por rejeição, mas por escolha. Consomem menos vinho no dia a dia, porém se mostram mais curiosos, seletivos e abertos a estilos, origens e propostas específicas. Hoje, os consumidores abaixo dos 35 anos respondem por menos de 15% do volume total do mercado americano, segundo a Wine Intelligence.
Esse novo comportamento desloca o vinho do centro da mesa para o centro da conversa. Ele passa a disputar espaço com destilados premium, bebidas prontas para beber e opções de baixo ou zero álcool. Dados da Nielsen mostram que, entre 2022 e 2024, o volume total de vinhos vendidos no varejo alimentar caiu cerca de 4%, enquanto categorias de ready to drink avançaram mais de 10% ao ano. O impacto aparece com mais força nos rótulos de entrada: vinhos abaixo de 15 dólares perderam mais de 7% em volume no período.
No outro extremo, o premium resiste com elegância. Regiões como Napa Valley e Sonoma seguem firmes, apoiadas por enoturismo, hospitalidade e venda direta. Em 2023, mais de 32 milhões de visitantes circularam pelas regiões vinícolas da Califórnia, alimentando um ecossistema onde a experiência vale tanto quanto a garrafa. Vinhos acima de 25 dólares mostram desempenho mais estável e, em alguns canais, crescimento em valor.
A inovação entra em cena não como tendência, mas como linguagem. Rosés e espumantes são hoje os estilos que melhor traduzem o novo momento. Segundo a IWSR, o rosé é a categoria de vinho que mais cresce em valor nos Estados Unidos, com avanço médio próximo de 3% ao ano. Espumantes seguem trajetória semelhante, impulsionados tanto por Prosecco quanto por rótulos americanos de perfil mais leve e acessível. Latas, garrafas menores e embalagens alternativas ainda são minoria, menos de 5% do mercado, mas crescem em ritmo acelerado, acima de dois dígitos.
A venda direta ao consumidor, inflada durante a pandemia, deixou de ser exceção e virou estratégia. Hoje, cerca de 15% das vendas de vinhos premium acontecem fora do varejo tradicional, fortalecendo o vínculo entre produtor e consumidor e devolvendo ao vinho algo que ele parecia ter perdido: contexto.



