Fim de uma era

POR RENATO MACHADO (*)
Há menos de dois anos, numa breve visita ao Brasil, um tradicional produtor de vinhos de alto nível da região francesa da Borgonha se inquietava com o calor. Não o daqui, que ele adorou, estava sempre de bermudas. Mas o da França, do mundo, do planeta.
A falta de chuvas em toda a Europa descaracterizava a estação, nos dois hemisférios. Estávamos em março e o fim de inverno na França se mostrava doce e ensolarado. Moças de braços nus em Paris, brotos dando origem a flores nas vinhas dos campos.
Cedo demais. Felizmente, a previsão de estresse hídrico extremo (a seca que junto com a canicule fritou as uvas no pé em 2003) não se confirmou. Veio uma primavera fresca e os vinhedos se mantiveram. Foi a safra de 2007, que ainda não está no mercado.
Mas a preocupação de Etienne de Montille (é dele, vinificador em Meursault e Puligny-Montrachet que estamos falando) ia além. O planeta, se aquecendo, vai mudar o trabalho de quem faz vinho. E para sempre.
Essa inquietação é compartilhada por produtores de Bordeaux, por exemplo, que vêem assombrados as previsões do aumento médio da temperatura do continente nos próximos 50 anos. De um grau a um grau e pouco na Borgonha e nos vales do Ródano e Loire; 1,3 grau em Bordeaux; e mais de 1,5 grau nos vales da Mosela e do Douro e nas colinas de Chianti, na Toscana.
Em 2006 e 2007, as colheitas foram antecipadas em várias regiões. Mas há otimistas, como Michel Rolland, que não vêem grandes mudanças. “Estamos fazendo vinhos mais doces hoje porque queremos vinhos mais doces”, diz ele. Nada a ver com o aquecimento global. É uma opinião forte de quem sabe o que é um vinho doce e concentrado.
Na outra ponta, Ernst Loosen, produtor na Mosela, diz que tem de se adaptar. Seus vinhos estão mais doces e alcoólicos, de estilo diferente.
Os vinhos tintos estão mais encorpados e adocicados porque o mercado americano assim os prefere – e nisso Rolland tem toda a razão. O problema é como fazer os brancos frutados e cítricos de antigamente.
Uma solução – quando a safra permite, claro – são as tampas metálicas de rosca. Um branco jovem e aromático permanece conservado e fresco nos seus primeiros dois anos, se a garrafa for vedada nesse sistema. É um dos trunfos dos Rieslings australianos e alguns brancos dos Estados Unidos e da Itália – mas ainda há forte resistência. Aos poucos, essas tampas vão chegar aos tintos – já acontece com os Pinots Noirs da Nova Zelândia e do estado americano de Oregon.
No Novo Mundo apenas os australianos se preocupam com o planeta estar mais quente. Há anos o nível da bacia do Rio Murray vem baixando sob a estiagem que castiga o país. Plantar vinhas no deserto não é impossível nem segredo. A Califórnia, o Chile e a Argentina conhecem essa realidade. A irrigação tecnológica e os gelos da cordilheira salvaram essas regiões. Mas os australianos contam apenas com um pouco de chuva – que há mais de dois anos não cai.
A indústria do vinho se reconstruiu tecnologicamente nos últimos 20 anos. Ganhou dimensão. Passaram a girar em cada região vinícola – sobretudo no Novo Mundo – milhões de garrafas, fruto da tecnologia. Vão enfrentar o aquecimento global com computadores. Nem que seja mudando as uvas – o que já foi mencionado em Bordeaux.

(*) Renato Machado é jornalista da Rede Globo e grande conhecedor de vinhos, especialmente os do Velho Mundo



