Gastronomia como ferramenta de transformação social
João Diamante se divide entre o restaurante Dois de Fevereiro, no Centro do Rio de Janeiro, e a ONG Diamantes Na Cozinha

“Não temos como mudar o passado. Precisamos resistir para ressignificar o nosso futuro”, ouviu o chef João Diamante, repetidas vezes, quando esteve na Porta do Não Retorno na cidade de Uidá, no Benim, na África, para gravar um documentário. O monumento foi erguido em memória dos milhões de escravizados que foram embarcados exatamente ali e nunca mais voltaram.
Com aquela frase martelando na cabeça, Diamante ligou logo depois para o empresário Raphael Vidal, dono de empreendimentos como o Bafo da Prainha e o Dois De Fevereiro, no Centro do Rio de Janeiro. Ligou para dizer que tinha mudado de ideia e, sim, estava disposto a assumir a cozinha do restaurante. Isso porque o Dois de Fevereiro fica ao lado do Cais do Valongo, a principal porta de entrada no Brasil de africanos escravizados.
Já deu para entender o que o estabelecimento passou a simbolizar para Diamante. “Ganhou outro significado”, resume ele, que batizou o documentário gravado na África da seguinte maneira: “Origens – Um chef brasileiro no Benin, com João Diamante”. Ele quase perdeu o timing para assumir as rédeas do negócio. Naquela ligação, Vidal revelou que já estava pensando seriamente em colocar um ponto final no restaurante, pela falta de alguém para tocá-lo.
Sob o comando de Diamante desde julho de 2024, o Dois de Fevereiro serve aperitivos como coxinha de bobó e bolinho de joelho de porco. A moqueca de peixe do dia com camarão é um dos pratos que mais saem — incrementada com banana-da-terra e lascas de coco, é guarnecida de arroz, farofa de dendê e pirão. O bolo de coco molhado é servido com sorvete de dendê e creme de milho.

Tanto o Dois de Fevereiro quanto o Bafo da Prainha —, além do Casa Porto, outro negócio de Vidal — circundam o Largo de São Francisco da Prainha, mais conhecido como Largo da Prainha. Sinônimo de abandono por anos e anos, a região ganhou status de descolada e hoje vive cheia graças a esses empreendimentos e outros que surgiram a reboque.
“A aposta de empresários do ramo em áreas que estavam relegadas a segundo plano é muito positiva para a cidade”, diz Fernando Blower, presidente do Sindicato de Bares e Restaurantes do Rio de Janeiro, o SindRio. “É um movimento que ajuda a criar novos hubs de entretenimento em regiões que quase ninguém queria frequentar. A retomada do Largo da Prainha foi benéfica não só para Vidal e seus parceiros, mas também para os estabelecimentos que já estavam por lá e para os que poderão surgir”.
“Minha trajetória serve de prova”

Nascido em Salvador, na Bahia, Diamante está com 34 anos. Radicado no Rio de Janeiro desde os 6 meses de vida, foi criado na favela Nova Divineia, no Complexo do Andaraí, no Rio de Janeiro. Lá, frequentou mais de 20 projetos sociais. “Fiz desde aulas de capoeira até de ballet, música, teatro e futebol”, recorda ele, que diz ter construído sua autoestima com a ajuda dessas vivências. “Quem mora em comunidade costuma ter muito medo de sair dela pelo receio de deparar com uma porção de preconceitos. Por meio dos projetos sociais que frequentei, fui saindo dela aos poucos, sem me dar conta, e fortalecido”.
Fundada por ele em 2016, a ONG Diamantes Na Cozinha é fruto dessa constatação. O chef promove cursos de culinária, nutrição e hospitalidade para jovens que vivem em favelas do Rio de Janeiro e se encontram em situação de vulnerabilidade. Graças a essa iniciativa, o chef foi um dos vencedores da edição de 2024 do prêmio Champions of Change, concedido pelo ranking The World's 50 Best Restaurants.
A ONG já impactou mais de 6 mil famílias e, atualmente, só promove novos cursos quando consegue angariar apoio financeiro para eles. “Temos aberto duas novas turmas por ano, cada uma delas para 30 alunos”, explica o fundador, que declarou o seguinte na época da pandemia: “A gastronomia é uma das ferramentas mais completas de transformação social, oferecendo um mundo de possibilidades a todos”.
Ele foi um dos selecionados para representar o Rio de Janeiro na edição deste ano do maior encontro de gastronomia contemporânea do mundo, o Madrid Fusión, organizado em janeiro. Mais oito chefs do Rio participaram. São eles: Kátia Barbosa (Aconchego Carioca), Monique Gabiatti (Polvo Bar), Gerônimo Athuel (Ocyá), Paula Prandini (Empório Jardim), Rafa Costa e Silva (Lasai), João Paulo Frankenfeld (casa 201), Claude Troisgros e Jessica Trindade.
Diamante debutou no mundo das panelas na Marinha do Brasil, onde começou a trabalhar como ajudante de cozinha. “No mundo militar, a cozinha geralmente é vista como um castigo, mas eu trabalhava lá por opção”, lembra ele, que cursou gastronomia na Estácio. Para arcar com as mensalidades, Diamante recorreu ao FIES. Não foram anos fáceis. “Enfrentava uma rotina insana para me manter e, não raro, acabava dormindo nas aulas, de tanto cansaço”, registra.
Mesmo assim, terminou o curso classificado como um dos três melhores alunos da turma. Foi o que lhe abriu as portas para um estágio no Le Jules Verne, o restaurante de Alain Ducasse na Torre Eiffel, em Paris — a Estácio, na época, era conveniada ao centro de formação do célebre chef francês. Quando assumiu a cozinha do Refettorio Gastromotiva, no Rio de Janeiro, ao lado de Massimo Bottura, Ducasse chamou Diamante para cozinhar com eles.
Na cerimônia do The World's 50 Best Restaurants na qual o baiano abocanhou o prêmio Champions of Change, em Las Vegas, nos Estados Unidos, lá estava Ducasse — aplaudindo o ex-estagiário que enxerga a gastronomia como uma poderosa ferramenta de transformação social. “Minha trajetória serve de prova”, diz Diamante.



