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Gastronomia em ascensão: O sabor do Novo Equador

Durante muito tempo, a gastronomia equatoriana ficou à margem dos holofotes internacionais. Enquanto Peru e México ditavam tendências culinárias na América Latina, o Equador parecia permanecer em silêncio — rico em ingredientes, mas pouco explorado em experiências autorais e contemporâneas. Mas esse cenário vem mudando há alguns anos. Quito, a capital andina cercada por vulcões, vive hoje uma onda criativa que transformou a cidade em um destino imperdível para quem busca cozinha com identidade, ousadia e sabor autêntico.

A ascensão da gastronomia no Equador tem rostos, nomes e lugares bem definidos — e, acima de tudo, uma profunda conexão com o território. Aqui, a revolução acontece nos pratos, nos gestos e nas escolhas. Um bom exemplo disso é o restaurante Tributo, onde o chef Luis Maldonado provoca uma verdadeira reinterpretação da carne bovina. Nada de cortes nobres de gado jovem. No Tributo, quem brilha é a vaca velha — um ingrediente desprezado pela indústria, mas tratado com reverência e criatividade pelo chef.

Maldonado faz dela o fio condutor de um menu provocativo, onde a carne aparece crua, curada, grelhada e até como base para sobremesas e cosméticos. O tartar é intenso e delicado ao mesmo tempo, os cortes altos para compartilhar impressionam pela maciez e profundidade de sabor, e os pratos surf ‘n' turf misturam carne com frutos do mar em combinações que beiram o instinto. Tudo é aproveitado — ossos, gordura, colágeno — e tudo tem um propósito: contar uma história que respeita o animal e os ingredientes locais, como os temperos andinos e os vegetais nativos.

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O ambiente do Tributo reflete a proposta: moderno, informal e voltado para a partilha. É gastronomia para sentir, discutir e lembrar. Um verdadeiro manifesto sobre sustentabilidade, técnica e identidade.

Mas a cena em Quito vai muito além do Tributo. O grande pilar a desencadear essa revolução gastronômica é o Nuema, comandado pelo casal Alejandro Chamorro e Pía Salazar. Juntos, eles vêm elevando a cozinha equatoriana a novos patamares. Alejandro, com passagem por grandes cozinhas como Noma (Dinamarca) e Astrid y Gastón (Peru), criou um menu degustação que mergulha na biodiversidade do país. Ingredientes amazônicos como o neapia (um fermentado ancestral), mariscos de mangue e tubérculos andinos compõem pratos precisos, belos e cheios de alma.

Enquanto isso, Pía Salazar — que já foi eleita a melhor confeiteira do mundo pelo ranking 50 Best Restaurants — transforma o conceito tradicional de sobremesa. Suas criações utilizam frutas, especiarias e vegetais como elementos principais, fugindo do açúcar fácil para buscar sabores complexos e memoráveis. Sua confeitaria recém-inaugurada, Pía, é uma extensão lúdica do restaurante: um espaço delicado e criativo, com doces autorais que propõem uma nova forma de pensar a confeitaria latino-americana.

Ainda em 2025, o casal se prepara para lançar um novo restaurante com proposta mais casual, mas mantendo a essência: ingredientes locais, pesquisa constante e uma profunda sensibilidade em cada prato.

E se o fine dining de Quito impressiona, os espaços alternativos também ganham protagonismo. É o caso da Tabacaria Perro Negro, um lugar que desafia classificações. Criada pelo artista e destilador autodidata Andrés, a Perro Negro é ateliê, destilaria, tabacaria e refúgio espiritual no meio das montanhas. Ali, o rum artesanal é servido em copos simples, os charutos são enrolados à mão, e o tempo parece desacelerar.

A filosofia é simples e potente: fazer tudo com as próprias mãos, com matéria-prima local e muita alma. O rum, com notas de baunilha e madeira, é o símbolo de um Equador que valoriza a autenticidade e o fazer artesanal. A experiência de visitar a Perro Negro não está nas paredes ou nos rótulos, mas no clima: fumaça de charuto, histórias contadas ao pé do fogo e a sensação de estar em um lugar verdadeiramente único.

Outros endereços também ajudam a desenhar esse novo mapa gastronômico. O restaurante Clara, por exemplo, aposta em uma cozinha afetiva, com ingredientes sazonais e técnicas contemporâneas. O cardápio muda com frequência e revela uma sensibilidade aguçada na combinação de sabores e texturas, sempre com forte vínculo com o território. Já o Cardó, outro nome em ascensão, surpreende pelo uso de fermentações e técnicas ancestrais. São pratos que transitam entre o vegetal e o mineral.

Para os que buscam uma estadia à altura dessa cena vibrante, o hotel Casa Gangotena, em pleno centro histórico de Quito, é a escolha perfeita. Com arquitetura colonial restaurada, serviço impecável e um restaurante que dialoga com a nova gastronomia equatoriana, o hotel é um convite ao conforto com contexto. Seu terraço oferece uma das vistas mais impressionantes da cidade e seu café da manhã merece um bom tempo para ser degustado.

O que vem acontecendo no Equador é mais do que uma tendência culinária. É uma nova geração de chefs, confeiteiros, produtores e artesãos que está redesenhando a identidade do país com base em ingredientes nativos, saberes ancestrais e uma vontade genuína de inovar sem perder a raiz.

Quito, antes apenas uma bela capital andina, hoje se revela como um destino de sabores complexos, narrativas potentes e experiências que ficam na memória. Inesquecível!

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