Hifi Community dá novo compasso à Vila Leopoldina
Entre cozinha pan-asiática, listening bar de alta fidelidade e pista sem pressa, casa nasce como um lugar para ficar e não apenas passar
A Vila Leopoldina vem mudando de tom há algum tempo, mas poucos endereços captam essa transição com tanta precisão quanto o Hifi Community. Aberto em março com um set de Gui Boratto que ajudou a marcar o território, o espaço não chega como mais um capítulo da noite paulistana, e sim como um ajuste de frequência. Aqui, a ideia não é dividir a experiência em etapas, jantar, drinque, pista, e sim deixá-las acontecerem em fluxo, como se o tempo tivesse outra cadência.

O projeto nasce de uma sociedade que já entende o comportamento da cidade. Os irmãos Igor e Raoni Lucarini, conhecidos por bares que ajudaram a moldar a cena recente, se juntam ao ator Gabriel Rocha e à dupla Caio Alciati e João Gertel, do LosDos, para construir algo que se aproxima mais de um organismo do que de um endereço. A sensação aparece logo na entrada, onde as capas de discos nas paredes não funcionam como nostalgia decorativa, mas como uma espécie de memória viva, lembrando que ali a música não é coadjuvante.

O listening bar, de proporções raras no Brasil, é o coração silencioso do projeto. Silencioso no sentido mais preciso da palavra, porque tudo ali gira em torno de escutar melhor. O sistema de som, desenvolvido no Japão, distribui frequências com uma clareza que muda a relação com o ambiente, quase como se a música ocupasse o ar de maneira física. A poucos metros, o restaurante abre outra camada, com o terraço funcionando como transição natural entre a mesa e a noite. E quando a pista assume, ela não rompe com o resto, apenas acelera o pulso, costurando brasilidades, house e variações eletrônicas com DJs que transitam entre vinil e digital sem fazer disso um manifesto.

Na cozinha, a proposta pan-asiática encontra um ponto de equilíbrio que evita o excesso de discurso. Japão, Coreia, Tailândia, Vietnã e China aparecem mais como referências absorvidas do que como bandeiras. O resultado está em pratos que convidam ao compartilhamento sem perder identidade, como o polvo com kimchi e nori ou os dumplings de pato finalizados na grelha, que chegam com caldo e acidez medida . Entre os principais, o arroz frito com camarão e linguiça chinesa convive com o topokki de cogumelos em molho cremoso de curry, enquanto os baos, como o de frango frito com garam masala, funcionam como atalhos afetivos dentro do cardápio.

Durante o almoço, o ritmo muda, mas não perde intenção. O executivo aproxima o espaço de uma rotina possível, com combinações que cruzam referências sem esforço aparente, do pad thai ao steak béarnaise com leitura própria, em um formato que inclui entrada, prato e fruta . É nesse momento que o Hifi revela sua vocação mais interessante, a de não depender exclusivamente da noite para existir.

O bar segue a mesma lógica de construção sensível. A carta assinada por João Piccolo organiza os drinques a partir de ideias e não apenas de ingredientes. Ikigai, com gin e matcha, sugere um frescor contemplativo, enquanto o Wabi Sabi encontra elegância na imperfeição ao combinar shochu, gin e vermutes em um desenho enxuto . Há também uma boa leitura de não alcoólicos e uma adega conduzida por Gabriela Bigarelli, que reforça a sensação de cuidado em cada frente.
Tel. 11 91782-0896
Horários: segunda a sábado, das 11h30 às 15h; quarta e quinta, das 18h às 0h; sexta e sábado, das 19h às 4h
Entrada após 22h: R$ 70
Rolha: R$ 100
@hificommunity



