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Hospitalidade clássica em diálogo com o presente

Mais do que histórico, o Le Meurice se afirma pela cozinha de Alain Ducasse e pela pâtisserie de Cédric Grolet em Paris

Entre o Jardim das Tulherias e a Rue de Rivoli, o Le Meurice se impõe. De um lado, o Museu do Louvre; de outro, a Torre Eiffel ao fundo. O Hotel Palacio não se trata apenas de um endereço privilegiado, mas do ápice ideia de hospitalidade francesa.

Fundado em 1835 por Charles-Augustin Meurice, o hotel surgiu em um momento de transformação da cidade e do turismo europeu. Desde o início, sua proposta era clara: oferecer aos viajantes britânicos de alta classe um ambiente que reproduzisse o conforto doméstico junto ao refinamento parisiense. Funcionários fluentes em inglês, apartamentos para estadias prolongadas, serviço estruturado com mordomos — elementos hoje banais, mas que à época configuravam um novo modelo de hotelaria.

Rapidamente se tornou um ponto de passagem da aristocracia europeia. Reis, rainhas e membros da nobreza ocupavam seus salões ao longo do século 19, atraídos por uma combinação de discrição e excelência em serviço. Daí surge o apelido “Hotel des Rois”.

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Suíte presidencial do Le Maurice
Suíte presidencial do Le Maurice

Transformações elegantes

Ao longo do século 20, o perfil dos hóspedes mudou, e com ele o ambiente do hotel. A realeza deu lugar a artistas, escritores e intelectuais. Entre eles, Salvador Dalí, presença recorrente durante mais de três décadas, ocupando anualmente uma das suítes do primeiro andar. A escolha tratava-se de um antigo apartamento real.

Esse legado artístico permanece visível e aparece em detalhes: uma escultura contemporânea posicionada no lobby, um espelho interativo em gelo que convida o visitante a intervir e criar sua própria arte que no dia seguinte derrete fazendo com que mais pessoas possam criar, referências discretas ao surrealismo espalhadas pelos espaços que contrastam com sua arquitetura clássica.

O edifício é classificado como “Palácio” — distinção concedida pelo governo francês a hotéis de excelência. Cada habitação tem desenho próprio, mas com um padrão comum: proporções generosas, acabamento artesanal e uma leitura contemporânea do classicismo francês. A Belle Étoile Penthouse, por exemplo, propõe uma leitura cinematográfica da cidade, com vista de 360 graus.

Fachada do hotel
Fachada do Le Maurice

Precisão no detalhe

A gastronomia segue o padrão do conjunto: o restaurante Le Meurice Alain Ducasse, com duas estrelas Michelin, fica sob a supervisão de Alain Ducasse e execução do chef executivo Amaury Bouhours. A cozinha segue uma linha que o próprio Ducasse define como “essencial”: foco no produto e construção de sabor a partir da matéria-prima.

O espaço, redesenhado por Philippe Starck, mantém referências diretas ao Salão da Paz do Palácio de Versalhes. Elementos contemporâneos — luminárias, esculturas, intervenções pontuais — funcionam como contraponto.

Em paralelo, o restaurante Le Dalí opera de maneira menos formal. Aberto ao longo de todo o dia, abriga desde o café da manhã até o jantar, passando por um chá da tarde que ganhou relevância pelo trabalho do chef pâtissier Cédric Grolet, cuja produção — especialmente as frutas em trompe-l’oeil — se tornou um fenômeno de público.

Estar no chá da tarde é também ter a possibilidade de acessar essas criações dentro do próprio hotel, evitando aguardar nas filas gigantescas da sua boutique externa, que em algumas ocasiões podem chegar a mais de uma hora de espera. Reservas no salão ou no horário do chá permitem uma experiência mais controlada, com serviço completo e sem a lógica de consumo rápido que se estabeleceu do lado de fora. A outra possibilidade de degustar algum de seus famosos doces é pedir que o concierge os envie para a própria habitação, já que hóspedes do hotel também possuem essa comodidade.

O Bar 228, por sua vez, é uma antiga sala de leitura. O espaço mantém a madeira original, os afrescos e uma atmosfera que se aproxima mais de um clube privado do que de um bar de hotel. A música ao vivo, presente todas as noites contribui para a ambientação intimista.

O que sustenta o Le Meurice, no entanto, não é apenas a soma desses elementos. Há uma consistência operacional que aparece no serviço: a equipe, disponível 24 horas, trabalha dentro de um padrão que privilegia proatividade e discrição. Essa característica talvez explique por que o hotel atravessou tantos anos mantendo sua relevância. A experiência por lá junta referências históricas a precisão no detalhe. A impressão que fica é de um espaço que participa da cidade absorvendo suas transformações. 

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